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16.4.16

Marcelo não quererá ficar atrás do papa…



Não dou mais de uma semana para que Marcelo resista a ir à Grécia buscar 13 ou 14 refugiados e os instalar em Belém! Com a pedalada com que anda…

Tem dinheiro para estar num offshore?




Nicolau Santos, no Expresso Economia de 16.04.2016:
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16.04.1975 – Um país «nacionalizado»


@Alfredo Cunha

Logo após o 11 de Março de 1975, mais concretamente por decretos publicados nos dias 14 e 15, foram nacionalizadas quase todas as instituições de crédito e de seguros.

Mas 16 de Abril foi um marco importante no processo, já que foi longa a lista de empresas que passaram a ser controladas pelo Estado nessa data: TAP, CP, empresas portuguesas refinadoras e distribuidoras de petróleo, de transportes marítimos, de siderurgia e empresas produtoras, transformadoras e distribuidoras de electricidade – entre as quais a Companhia Nacional de Navegação, Siderurgia Nacional, Cidla, Sonap e Sacor.

Ainda de madrugada, o PS emitiu um comunicado em que «saúda as decisões (...) e apela para que o maior número de militantes e simpatizantes se associem à festa socialista, no próximo Domingo, às 15h30, no estádio 1º de Maio, em Lisboa, onde será manifestado o regozijo dos socialistas por essa decisão histórica e o apoio do PS ao MFA e ao Governo Provisório». (Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, p.77)

Para esse mesmo dia, ao fim da tarde, foi convocada uma manifestação – promovida pelo PCP e com a adesão de MDP/CDE, MES, FSP, Intersindical, LCI e PRT – de «apoio» e «regozijo» com as nacionalizações. Do Rossio a S. Bento, 100.000 pessoas (segundo notícia do Diário de Lisboa de 17 de Abril) desfilaram com bandeiras de partidos e de comissões de trabalhadores. Por volta das 23:00, Vasco Gonçalves, então primeiro-ministro do IV Governo Provisório, recebeu na residência oficial representantes dos partidos, que lhe manifestaram total apoio às medidas decretadas e a eventuais futuras com a mesma orientação.

41 anos depois ainda andamos à volta com algumas delas, a maior parte já foi desta para melhor e outras pertencem aos sucessores de Mao que pode estar a rir às gargalhadas na quietude do seu mausoléu em Tiananmen. E nós? Cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas.

[Republicação modificada] 
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Dica (271)




«Financial meltdown, environmental disaster and even the rise of Donald Trump – neoliberalism has played its part in them all. Why has the left failed to come up with an alternative?»
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E apesar de tudo move-se: a "realidade" ameaçada pelas surpresas



José Pacheco Pereira no Público de hoje. Escolho algumas «surpresas» e algumas «realidades» das muitas, que foi alinhando.

«Sim, apesar de tudo, a Terra move-se. Apesar dos “mercados”, apesar do “não há alternativa”, apesar da “realidade”, a nova palavra que a direita usa para qualificar o statu quo quando está no poder ou quer lá chegar. Quando chama Deus para as suas fileiras e chama Deus à “realidade". Apesar de tudo, move-se. De forma caótica, inesperada, desigual, sem direcção nem sentido, mas, na história que não tem H grande, costuma ser assim. Nada nos garante que se chegue a algum lado, ou que se chegue a um lado melhor, – o mais provável é sempre que se chegue a um lado pior – mas é assim mesmo. Vejam-se várias surpresas que a mudança, ou talvez o Demónio, faz à “realidade”.

Surpresa – temos em Portugal um governo de “maioria de esquerda”. A surpresa é tanta que muita gente ainda não percebeu o que se passou, do PS, ao BE, ao PCP, e terminando no PSD, que não só não percebeu o que se passou, como tem enorme dificuldade em aceitar… que a “realidade” é outra. O PSD é o Grande Sacerdote da “realidade” pelo que será sempre o último a perceber. Há quem diga que o CDS percebeu. Vamos ver.

“Realidade” – a radicalização política veio para ficar. Marcelo, o Grande Distensor, faz o que pode, mas rapidamente esgotará o pouco que pode. Não tem a “realidade” do seu lado. Hoje toda a gente quer posicionamento, lados, fileiras, ou estás comigo ou contra mim. Não é de agora, mas como as coisas estão mais cataclísmicas, a parada dos “lados” sobe bastante. (…)

Surpresa – a declaração Costa–Tsipras é um facto inédito na política europeia. Pela primeira vez um governo da União fez coro com os excomungados gregos contra a ideologia da “austeridade”. Pode não valer muito face aos poderosos do Eurogrupo mas irritou-os certamente. Como o governo Costa não poderá nunca esperar mais do que alguma cosmética desses zeladores da ortodoxia do “ajustamento”, irrita-los não é irrelevante.

Surpresa ou “realidade”? – eu ainda sou capaz de me surpreender com a patetice de um partido que, no meio da tempestade, que pelos vistos não vê no horizonte, acha relevante conduzir uma causa “fracturante” contra um papel, o Cartão do Cidadão, em nome do “combate ao sexismo”.

“Realidade” – é uma vergonha, para não lhe chamar outra coisa, ver a logomaquia sobre a “legalidade” dos offshores. Os offshores não são uma anomalia abusiva da “realidade” dos “mercados”, são uma coisa absolutamente aceitável e defensável para quem tem dinheiro, e pode fazer “planeamento fiscal”. Os offshores só são ofensivos para quem está do lado errado do “ajustamento”. Vai ficar tudo na mesma. (…)

“Realidade” – conseguimos tornar a política ocidental (EUA, Reino Unido, França) no Médio Oriente ainda mais confusa e sem saída do que tem sido nas últimas décadas. (…)

Surpresa – a “realidade” nunca ganha. Pode atrasar, pode fazer a vida negra a muita gente, pode causar enormes desperdícios e destruições, mas nunca ganha porque é a-histórica, não é do domínio da natureza, mas da teologia, está para a astronomia como a astrologia, é um desejo de mandar em nome de uma ordem “natural” que não existe na natureza. Até a “mão invisível” lhes faz partidas.» 
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15.4.16

O que é um Offshore?



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Dica (270)




«Secreto bancario, anonimato de grandes fortunas y opacidad de transacciones financieras son la esencia de los paraísos fiscales. Para evadir cientos de miles de millones de impuestos de los que se despoja a la ciudadanía. Hay que empezar a ver a los paraísos fiscales y la evasión de impuestos como una amenaza tan grave como el yihadismo para poder llevar una vida digna y segura. Y actuar en consecuencia.» 
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O banco que tira o pecado do mundo



«António Costa (com o apoio do Presidente Marcelo) avançou com a proposta de criação de um veículo financeiro para albergar o crédito malparado da banca, um SPV (Special Purpose Vehicle).

Claro que o nome não pegou. Dar nome pomposo, ali entre o SUV e um todo-o-terreno, a um veículo que na realidade é uma carroça com estrume, já não resulta. Daí que todos lhe chamem o Banco Mau.

Na realidade – Banco Mau – é um pleonasmo e um eufemismo. É um banco que acumula figuras de estilo. Mas para poder haver algum sentido nisto, proponho a criação de um Banco Péssimo, porque maus são todos os outros. (…)

Não sei se o estimado leitor sente o mesmo que eu quando oiço falar em bancos maus para enfiar o lixo dos disparates dos bancos "bons". O que eu sinto é uma comichão onde não posso coçar. (…)

Bem vistas as coisas, chamar Banco Mau ao Banco Mau é talvez a maior injustiça que se pode fazer. É como chamar o Enviado Bera de Deus a Jesus Cristo. O Banco Mau vai percorrer a via sacra e ser crucificado para limpar de pecados os Bancos Bons. Para os salvar deles próprios. O nome apropriado era – o Banco Que Tira o Pecado Do Mundo.

Criar um banco mau para enfiar os erros dos bancos bons parece-me pôr mais uma rede debaixo de onde já havia várias redes. O trapezista fica cada vez mais confiante. Arrisca números de alto risco porque não corre riscos. Se não for o banco mau hão-de ser as pessoas boas a salvá-lo. De uma forma ou de outra, dele será o paraíso.» .

João Quadros

Generais de Rilhafoles



A ler, na íntegra, este texto de Fernanda Câncio, publicado do DN de hoje, ainda sobre a saga do Colégio Militar.

«Não admira, de facto, ver a pobre Associação 25 de Abril, que suspeita de "razões escondidas" do Observador "para provocar as declarações do subdiretor", a acusar o ministro de "não perceber nada da psicologia dos militares" e apelando à sua substituição. Azeredo Lopes é jurista; para lidar com problemas destes é necessária outra especialidade.»
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14.4.16

Para alguns...



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14.04.1986 – Simone de Beauvoir morreu há 30 anos



Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir morreu em 14 de Abril de 1986, com 78 anos. Ela que disse um dia, num documentário divulgado mais abaixo, que «a vida não é uma coisa que se tenha, mas sim algo que passa».
 
Tudo já foi escrito sobre esta escritora, intelectual, activista política e feminista, mas vale talvez a pena recordar o papel decisivo de uma das suas obras – Le Deuxième Sexe –, publicada em 1949. Esteve longe de ser um manifesto militante ou arauto de movimentos feministas que, em França, só viriam a surgir quase duas décadas mais tarde, já que as mentalidades não estavam preparadas para a problemática da libertação da mulher, tal como Simone de Beauvoir a abordou, nem para a crueza da sua linguagem.

As reacções não se fizeram esperar, tanto à esquerda (onde o problema da mulher estava fora de todas as listas de prioridades), como, naturalmente, à direita. François Mauriac escreveu: «Nous avons littérairement atteint les limites de l’abject», Albert Camus acusou Beauvoir de «déshonorer le mâle français».

Para a compreensão e a consagração da obra foi decisivo o sucesso nos Estados Unidos, onde foi publicada em 1953. O movimento feminista, em que Betty Friedman e Kate Millet eram já referências, estava aí suficientemente avançado para a receber. Efeito boomerang: Le Deuxième Sexe «regressou» à Europa no fim da década de 50, com um outro estatuto, quase bíblico, e teve a partir de então uma longa época de glória.





Um longo documentário legendado em português, que merece ser visto:




E Simone dita por Fernanda Montenegro:


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Racismo capilar



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje: 

«Justin Bieber mudou de penteado. Houve brados, pranto e ranger de dentes, porque o cantor optou por um estilo capilar conhecido como “rastas”, e foi acusado de “apropriação cultural”. (…) 
Os antigos activistas do movimento dos direitos civis batiam-se pelo fim da segregação racial e pela igualdade de direitos. Os modernos fiscalizam o penteado de um adolescente. Imagino que Rosa Parks e Martin Luther King ficariam muito, muito orgulhosos.» 

Na íntegra AQUI.
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Dica (269)




«Laura Ferreira dos Santos não tem dúvidas de que se tratará de um processo moroso, mas que já não estará nas suas mãos. “Independentemente do que irá acontecer, é uma primeira vitória. Pelo menos estamos a dar voz a pessoas que não a tinham, e isso, só por si, é algo bom”, considera. “Nós fizemos a nossa parte, as pessoas fizeram a sua parte ao subscrever a petição, agora depende dos deputados darem a última palavra.”» 
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O Colégio Militar e as suas anomalias



Deixou de ser frequente concordar com Vital Moreira, mas o texto que publica hoje no Económico é mais do que certeiro.

Em resumo: O Colégio Militar é uma grave anomalia na ordem constitucional democrática e republicana: além do acesso social discriminatório é financiado pelos impostos de todos, incluindo dos que estão excluídos do acesso à instituição.

Mas importa realçar:

«Qualquer que seja o desfecho deste imprudente litígio, ele veio trazer mais uma vez para a ribalta a estatuto anómalo do Colégio Militar. Embora pertencente ao Exército, o Colégio Militar não é uma escola de ensino militar nem se destina à formação de futuros militares, estando aberto a quem o queira e possa frequentar. Apesar de pertencer ao Estado, o Colégio Militar não está integrado no sistema público de ensino básico e secundário (que é universal e gratuito), funcionando como um colégio particular, incluindo a seletividade e pagamento de propinas. Todavia, ainda que tenha esse estatuto privado, ele não é financeiramente autossuficiente, sendo maciçamente subsidiado pelo Orçamento do Estado. (…)

Compreende-se que a direita, normalmente tradicionalista e elitista, cultive o statu quo do Colégio Militar. É menos compreensível a complacência da esquerda, quando a sua simples existência como instituição pública contraria tudo aquilo que a esquerda defende (ou diz defender). E se ser de esquerda hoje em dia é apenas lutar contra a “austeridade”, então a poupança do dinheiro público que o Colégio Militar custa bem poderia ter outra aplicação bem mais virtuosa.» 
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13.4.16

Não se percebe como é que o papa sabe isto



… mas enfim: é caso para dizer que já ganhámos o céu!

13-04-2015: calou-se Eduardo Galeano



Esse grande uruguaio nasceu em Montevideu, em 3 de Setembro de 1940, quis ser jogador de futebol mas acabou como escritor com mais de 40 livros publicados.

Andou a fugir de ditaduras. Em 1973 foi preso depois do golpe militar no seu país, exilou-se na Argentina, mas com o golpe militar de Jorge Videla, em 1976, viu o nome colocado na lista dos «esquadrões da morte» e partiu para Espanha. Só 9 anos mais tarde regressou à cidade que o viu nascer.

Ojalá seamos dignos de la desesperada esperanza.
Ojalá podamos ser capaces de seguir caminando los caminos del viento, a pesar de las caídas y las traiciones y las derrotas, porque la historia continúa, más allá de nosotros, y cuando ella dice adiós, está diciendo: hasta luego.
Ojalá podamos merecer que nos llamen locos, como han sido llamadas locas las Madres de Plaza de Mayo, por cometer la locura de negarnos a olvidar en los tiempos de la amnesia obligatoria. 
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Comunicado da Associação 25 de Abril




N.B. – Este texto, que ainda não encontrei na net, foi-me fornecido, no Facebook, por Rodrigo Sousa Castro.  
  

A Associação 25 de Abril, fundada por militares de Abril, é uma associação que desenvolve as suas actividades no campo cultural e cívico e não no campo militar, ainda que procure dar também uma atenção especial a tudo o que se relaciona com as Forças Armadas e a Defesa Nacional (cumprindo assim o estabelecido nos seus estatutos).

Aliás, há momentos em que todos esses campos se misturam, se entrelaçam, sendo difícil isolá-los uns dos outros.

O caso da apresentação do pedido de demissão, por parte do general Carlos Jerónimo, do cargo de Chefe do Estado Maior do Exército é precisamente uma das situações em que a Associação 25 de Abril considera dever pronunciar-se publicamente.

Tudo teve origem em declarações públicas do subdirector do Colégio Militar que, podendo ser consideradas imprudentes e não “politicamente correctas”, foram deturpadas e deram origem às já naturais demagogias de alguns grupos de pressão, devidamente apoiados por algumas forças políticas.

Seria, aliás, interessante analisar quem provocou estas declarações e as razões escondidas porque o fez. Isto é, qual o objectivo pretendido ao provocar todo este alarido. Desde logo, podemos apontar duas hipóteses: A criação de justificações para provocar alterações na Direcção do Colégio Militar e na Chefia do Exército, ou o desviar atenções de escândalos que é preciso esquecer rapidamente… E, se assim foi como se admite que tenha sido, lá vieram logo alguns a morder a isca e a fazer o alvoroço que convinha.

Não se esperava é que o ministro da tutela, isto é, o Ministro da Defesa Nacional alinhasse na mesma tecla, desse voz à demagogia e tivesse uma inabilidade extraordinária, mostrando não perceber nada da psicologia dos militares.

Em vez de procurar resolver o problema internamente, decidiu “encher o peito” e vir para a comunicação social exigir explicações ao responsável maior do Exército, o seu Chefe do Estado Maior. Abusando ainda da sua posição de tutela e procurando intervir directamente na acção de comando que não lhe compete.

Teve a resposta que é própria dos militares com aprumo e coluna vertebral: o Chefe do Estado Maior perdeu a confiança no seu ministro e bateu com a porta.

Sintomaticamente, talvez porque o objectivo a alcançar é mesmo acabar com o Colégio Militar, como já acabaram com o Instituto de Odivelas, não assistimos à onda de indignação de tudo o que é “comentador político”, como se verificou no caso da ameaça de bofetadas feitas por um outro ministro, no caso o Ministro da Cultura.

Felicitando o general Carlos Jerónimo pela atitude firme, que o dignifica não só a si mas também ao Exército e às Forças Armadas, fazemos votos de :

• Nomeação pelo Governo de um novo Chefe do Estado Maior do Exército, que continue o meritório trabalho que o seu antecessor vinha desenvolvendo.
• Continuação da acção educativa e formadora do Colégio Militar, com a sua manutenção na esfera do Exército, que não teme a comparação com qualquer outro estabelecimento de ensino da mesma natureza. Nomeadamente na não descriminação de qualquer natureza, de acordo com o estabelecido na Constituição da República Portuguesa.
• Que o Ministro da Defesa Nacional compreenda de vez que subordinação das Forças Armadas ao poder político não significa subserviência. O que implica, entre outras coisas, o respeito pelas respectivas competências e a não interferência abusiva nas competências dos subordinados.

Os militares têm como um dos princípios sagrados da sua acção esse procedimento.

Saiba o MDN compreendê-lo e praticá-lo igualmente.

Porque, se o não souber fazer, terá – ele ou quem o superintende - de retirar as óbvias conclusões…

Lisboa, 13 de Abril de 2016
O Presidente da Direcção
Vasco Correia Lourenço

PS. Aproveita-se para esclarecer uma noticia do Jornal I de hoje:

1. Nunca o coronel Vasco Lourenço fez qualquer apelo para que nenhum general aceite ser Chefe do Estado Maior do Exército.
À colocação da questão de que se sabia haver movimentações nesse sentido, limitou-se a dizer “há quem defenda isso, por mim acho que seria desejável, mas não acredito que isso se verifique”.

2. Nem o coronel Vasco Lourenço nem muito menos a Associação 25 de Abril estão envolvidos na preparação de qualquer manifestação contra o governo, no 25 de Abril ou noutra qualquer ocasião.
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