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30.7.16

A França numa deriva perigosa




«Une partie de la société civile peut toujours hésiter à donner des armes à M. et Mme Tout-le-Monde, même bien encadrés : "Il y a un risque, évidemment, à armer des gens qui ne sont pas forcément équilibrés", dénonce Noël Mamère, député écologiste de Gironde. "On entraîne les citoyens dans une spirale sécuritaire infernale. Il faut arrêter cela."» 
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Num país remediado



Vim de Moçambique com 9 anos. Detestei Lisboa, achei-a triste, com a maior parte das pessoas vestida com roupa pobre e pardacenta, que contrastava com umas tantas «madames» com vestidos vaporosos de cores pastel, quicos a condizer na cabeça e luvas brancas em pleno Verão.

Não me encaixava em nenhuma das categorias, percebi que passava por ali uma qualquer diferença que me escapava e perguntei à minha mãe se nós éramos ricos ou se éramos pobres. Respondeu-me que éramos «remediados».

Há muitos anos que não oiço essa palavra, mas lembrei-me dela hoje: Boas Férias, meu país remediado. 
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O fim do colonialismo


No dia 30 de Julho de 1974, milhares de pessoas concentraram-se junto ao Palácio de Belém para manifestarem ao Presidente da República a alegria pelo fim da guerra colonial. A manifestação foi convocada pelos três partidos representados no II Governo Provisório: PCP, PS e PPD.

Ler notícia detalhada neste Diário de Lisboa, pp. 1 e 4.

(Na véspera, tinha sido assinado, em Argel, o acordo que reconhecia a independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.) 
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Dica (347)

Vítimas do terrorismo?



A Europa vista pelo Presidente da República – (2) O lado de dentro



José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«Voltando à intervenção do Presidente da República há duas semanas e acrescentando-lhe várias outras declarações entretanto feitas sobre a mesma matéria — Marcelo produz declarações a um ritmo, digamos, de forma eufemística, acelerado —, vamos agora ver o “lado de dentro” dessas declarações, ou seja, o que elas revelam sobre Portugal e a União. Este é, aliás, o aspecto pior dessas declarações, visto que Marcelo acaba por ser o porta-voz do atentismo voluntarista que explica por que razão a nossa consciência crítica e a nossa vontade cívica soçobram face àquilo que hoje a Europa é contra os interesses nacionais, insisto, contra os interesses nacionais.

Eu sou mais europeísta do que eles, porque estou consciente do caminho para o desastre que se está a seguir e mais próximo da Europa dos fundadores, que de há muito renegaram. E, sim, o facto de não haver sanções não justifica nenhum dos elogios que estão a ser feitos à União, porque eles assentam numa análise asséptica das razões por que não houve sanções.

O facto de não haver sanções foi o resultado de um combate político que se fez exactamente contra a Europa dos europeístas, em vez da atitude de submissão que era e é a norma. Se há mérito, não é da Europa das “regras”, mas do Governo português, que a contestou, mesmo que não o diga. Este combate travado pela primeira vez por um governo do lado débil do Sul é em si uma novidade, mas está longe de significar uma mudança qualitativa da União.

Se este sucesso tem continuidade, é o que se vai ver, espero que sim, mas duvido que tenha, em particular pela reafirmação do garrote do Tratado Orçamental, um instrumento contra o desenvolvimento económico dos países da Europa que mais precisam de alguma folga prudente, consistente mas continuada. Aliás, é com ironia que vejo o FMI juntar-se aos perigosos esquerdistas que falavam da reestruturação da dívida e do desastre que foi o programa da troika e, por maioria de razão, o modo como foi aplicado em Portugal. O recente documento do FMI é um libelo contra as políticas do Tratado Orçamental impostas pelo Eurogrupo e apoiadas com entusiasmo pelo Governo PSD-CDS, que queria, de forma pouco disfarçada, que Portugal sofresse sanções... pela política de 2016. (…)

Voltando ao discurso presidencial, um dos seus pontos-chave é o ataque à proposta de referendo que foi feita pelo BE, caso houvesse sanções. O BE andou para trás e para a frente com a proposta, deixou-se enredar nas críticas do Presidente e do PCP sobre a não possibilidade de haver referendos a tratados internacionais. Claro que a questão não precisa de ser constitucional ou a pergunta ser sobre um tratado, até porque há muitas maneiras de perguntar ao povo português sobre a Europa sem violar a Constituição. Marcelo deve conhecer pelo menos vinte.

O problema é outro: é a demonização do referendo cuja proposta, seja sob que forma for, é considerado quase uma proposta criminosa e antinacional, própria de fascistas, nacionalistas, comunistas e diversos extremistas. É irónico que Marcelo seja hoje um porta-voz dessa demonização, ele que fez parte do partido com mais tradição referendária e que propôs ele próprio pelo menos um referendo. (…)

Aliás, por que razão é que pensam que a reivindicação referendária tem crescido, a não ser pela consciência crescente de que o bloco PPE-PSE que domina a Europa retira o pluralismo da discussão política da União para o entregar a maiorias pouco sadias, e de costas cada vez mais voltadas para a opinião popular? É por saberem que partidos como o PS e o PSD, assim como os seus congéneres europeus, não entram em conta com o crescente sentimento hostil à União Europeia, e que nenhuma discussão parlamentar exprime os seus pontos de vista a não ser rotulando-os de nacionalistas, extremistas, quiçá fascistas, que a pressão referendária aumenta.

À medida que a democracia nacional é sugada pela burocracia de Bruxelas e pelos países mais poderosos, que os parlamentos enfraquecidos e subordinados se transformam em entidades vazias, apenas resta às pessoas a exigência referendária. Se a democracia parlamentar funcionasse como devia, representando as opiniões reais e não directórios partidários, e o Parlamento tivesse os poderes de dizer que não em muitas matérias em que foi desapossado desse poder sub-repticiamente, a pressão referendária era menor.

Foi o que aconteceu no Reino Unido, é o que acontece por regra quando se leva ao voto popular medidas propostas pela União, que ou chumbam, ou passam ao milímetro quando não tem de se repetir referendos até dar o resultado “certo”. A deslegitimação democrática do processo europeu é a fonte da pressão referendária.

E não, senhor Presidente, Portugal não “se sente bem na União Europeia”.» 
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29.7.16

É imprensa falsa, mas tem graça…




«Let’s make America affectuous again, with Marcilo!»
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Esquerda volver



«O Presidente Marcelo não se cansa de afirmar que Portugal está pacificado. Não há sinais de crispação política na população. E é verdade. O povo está sereno. Mas isso não significa que o país não esteja cada vez mais dividido entre esquerda e direita.

A saga das sanções demonstra-o na perfeição. A esquerda resistiu com tenacidade às pressões de Bruxelas, enquanto a direita desejou o pior para o próprio país. (…) Cansa não ouvir uma única proposta séria, um estímulo, um entusiasmo. Como se a desgraça fosse o único destino possível e para muitos desejável, desde logo para que se possa reivindicar que se teve razão. (…)

À esquerda põe-se, portanto, a questão de saber se se deve manter o rumo sereno da atual coligação ou virar um pouco mais à esquerda. Com isto significando para já duas coisas. Distribuir melhor a riqueza produzida pelo país, acabando com a benevolência fiscal e os benefícios dos grandes grupos económicos e dos ricos em geral, e aprofundar o caráter público e tendencialmente gratuito sobretudo na educação e na saúde. (…)

Espera-se pois que o PS esteja preparado para enfrentar o verdadeiro poder das nossas sociedades. Desde logo os famosos mercados, mas também os potenciais investidores e os empresários em geral. Basta ouvir as declarações das respetivas associações para se perceber que rejeitam qualquer alteração. São contra a redução do horário de trabalho, a mera reposição dos vencimentos na função pública, o magro aumento do salário mínimo. E, no entanto, a realidade demonstra que o sistemático benefício do capital não tem representado nenhuma melhoria das condições de vida e nem sequer do próprio sistema, a começar pelo bancário que vai de falência em falência com tanta incompetência e descarado roubo.

A esquerda, que atravessa o seu melhor momento desde o 25 de Abril, deve ter a coragem e engenho para realizar mudanças profundas sobretudo no sistema fiscal e no fortalecimento do serviço público. Se não o fizer, perde uma grande oportunidade. Não há que ter medo. A ousadia é bem melhor.»

Leonel Moura

Dica (346)



'Blackout' ao terror? (Fernanda Câncio) 
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Comissão fofa



«Comissão Europeia decidiu, na passada quarta-feira, não impor multas a Portugal pelo incumprimento das metas do défice público de 2015. Por esta é que ninguém esperava. No dia da morte de Salazar, as sanções caíram da cadeira.

Depois de ter visto Marques Mendes garantir na SIC, de fonte segura, que haveria sanções entre X e Y milhões, nunca pensei que a CE tivesse coragem de o desmentir. Segundo o ditado, e por exclusão de partes, isto faz de Marques Mendes um péssimo dançarino.

É um momento esquizofrénico para a antiga coligação que nos governou. Cristas tinha dito que se o Governo do Costa fosse competente não havia sanções. Agora, arranjar uma metáfora para isto vai ser tramado. É preso por ter cão e preso por não ter... Maria Luís afirmou que, com ela como ministra das Finanças, não haveria sanções, o que pode ser um problema se a Arrow Global começar a pensar que Centeno faz bem o lugar.

Para alguns comentadores, a CE parece ter tido um momento de lucidez. Perante o Brexit, os ataques terroristas, o sistema bancário europeu e Durão no Goldman, já não havia agenda para mais chatices. É muito complicado manter a atenção dos ministros do Ecofin sobre multas a Portugal quando estão a consultar o iPhone, de dois em dois minutos, para ir acompanhando a queda das acções do Deutsche Bank.

Todos sentimos necessidade de atribuir esta vitória a alguém. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa ainda lá tem três medalhas que estão guardadas, não vá haver novidades no mundial de chinquilho. Precisamos de um Éder desta proeza. Tenho a teoria de que o problema era o pin de Portugal na lapela, a CE não apreciava aquilo. Era um desafio. Era Passos Coelho a enfrentá-los pela calada. Já há quem fale em Carlos Moedas, mas é pouco credível dizer que Moedas fez voz grossa na CE.

O que me parece perigoso é o discurso do ter sido "o contexto político europeu, marcado pelas crises do terrorismo, que contou para esta decisão". Resumindo, dizem que os ataques terroristas contribuíram para que não houvesse sanções contra Portugal. Se a isso acrescentarmos o crescimento do turismo, no nosso país, com parte atribuída aos atentados, chegamos à conclusão de que devemos muito ao Daesh. Andamos a lucrar com isto. Não pode ser. Qualquer dia começam a desconfiar de nós.

Seja como for, é uma vitória. Tem havido algumas e isso parece incomodar uns quantos comentadores. Há uma semana, no Expresso, um jornalista escrevia - guardem os foguetes - sobre os juros negativos da dívida. Há uns dias, Camilo Lourenço, neste jornal, sobre a execução orçamental, dizia: "Não deitem foguetes." Anteontem, no Observador, alertavam que era "cedo para foguetes" no que diz respeito às sanções. Estou convencido de que há patriotas que andam a guardar os foguetes para os lançarem se nos acontecer uma grande desgraça.»

João Quadros

28.7.16

Dica (345)

Não há palavras para comentar




«Milhares de crianças foram detidas e algumas torturadas no âmbito de operações contra grupos extremistas como o Boko Haram na Nigéria ou o Estado Islâmico (EI) no Iraque e na Síria, segundo a organização não-governamental Human Rights Watch.

A organização de defesa dos direitos humanos sublinha, num relatório divulgado hoje, que houve um aumento das detenções de crianças em seis países envolvidos em conflitos: Afeganistão, República Democrática do Congo, Iraque, Israel e territórios palestinianos, Nigéria e Síria.» 
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A oposição e a vontade de que corra mal



Ricardo Costa no Expresso diário de 28.07.2016:


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Sanções e o resto


Leitura indispensável: este texto de Ricardo Paes Mamede, publicado no Facebook:

«Sejamos claros: a não aplicação de uma multa a Portugal retira uma pedra do caminho, mas deixa o essencial dos problemas por resolver.

A Comissão Europeia e o Ecofin assumiram formalmente que Portugal e Espanha não tomaram as medidas necessárias para cumprir as regras europeias. Ou seja, apesar dos cinco anos de austeridade destruidora, apesar da co-responsabilidade das instituições europeias pelo falhanço dessa estratégia (que, como os próprios vieram agora reconhecer, não permitiu que as metas fossem alcançadas, depois de toda a sucessão de aumentos de impostos e cortes na despesa), as instituições europeias decidiram que os países em causa não cumpriram as regras e que são culpados por isso. A decisão de não avançar com uma multa não anula aqueles pressupostos.

A decisão hoje tomada será utilizada para reforçar o nível de pressão sobre o governo português. A narrativa é fácil de perceber. Estão a dizer-nos: “vocês são irresponsáveis, vocês não fizeram o que deviam; resolvemos dar-vos mais uma hipótese, mas é bom que façam tudo o que vos dissermos daqui para a frente”. E o poder de chantagem continua bem presente, como fica claro das declarações que vamos ouvindo.

Entretanto, os problemas fundamentais continuam por resolver. As regras da União Europeia e da zona euro continuam a assumir que um país que se encontre em crise nada pode fazer que não seja acentuar a degradação da actividade económica e dos direitos sociais e laborais. Não havendo solução à vista que dê resposta às enormes diferenças nas estruturas económicas dos países participantes na UE, as economias mais frágeis continuarão a enfrentar condições de financiamento muito mais desfavoráveis, tornando-as vulneráveis aos humores dos mercados financeiros internacionais e, por conseguinte, ao poder de chantagem de quem na UE está numa posição financeira vantajosa.

Em suma, a decisão da Comissão Europeia dá com uma mão o que sabe que pode tirar com a outra. Esta decisão não torna menos premente a necessidade de questionar as regras europeias – nem de nos prepararmos de todas as formas para fazermos valer as nossas posições. Por outras palavras, as mensagens do vídeo abaixo continuam tão válidas como antes.»


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Drácula em Bruxelas



«Bela Lugosi tornou Drácula num mito. Identificou-se de tal maneira com ele que, nos seus últimos dias, acreditava que era o verdadeiro Drácula. Quando foi incinerado em 1956 ia vestido de vampiro, segundo as indicações que tinha deixado no testamento.

A Comissão Europeia, que não tem as qualidades de Bela Lugosi, está convencida de que é uma justiceira cujos poderes foram adquiridos em saldo numa aldeia da Transilvânia. Por isso, não tendo mais com que se entreter, e enquanto não chega o furacão dos problemas bancários europeus (dos alemães aos italianos), o banquete pode ser servido. Portugal e Espanha eram alvos fáceis e indefesos. Mais Portugal, porque Espanha faria como sempre: degustaria as sanções com paelha. Portugal é pior: os juros da dívida são uma espécie de bebida tonificante para os aprendizes de Drácula e uma fonte de anemia para os portugueses. E sem investimento não se sairá do atoleiro da dívida e do défice.

À volta disso as décimas do défice são apenas um disfarce para pressões de origem política. Porque a Europa já está dividida entre o Norte e o Sul. A vertigem dos burocratas de Bruxelas não muda por não se aplicar sanções a Portugal (trocando-as por metas orçamentais mais duras). A tentação da guilhotina continua lá, pronta a ser utilizada como ameaça duma próxima vez. Com a casa a arder, entre migrantes e terrorismo, planície propícia ao nacionalismo de direita que vai emergindo, a Europa veste-se de Drácula para assustar os pobres do Sul.

António Costa sabe que o seu OE convence apenas os fiéis, mas a CE só deseja observar os princípios sagrados de Berlim sem irritar o insignificante poder francês. A questão não é a inexistência de sanções. É de lógica, inteligência e de bom senso numa união que só pensa em termos fiscais, como se estes fossem os únicos Pokémons à solta. Tudo isso falta neste momento a esta Europa de série B. Este filme de vampiros é uma espécie de velório. Que a Europa faz a si própria.»

Fernando Sobral

27.7.16

Gente sinistra

Unidos, o tanas!

Dica (344)




«Will Brexit ever happen? Could Trump win? Is my job safe? The future right now looks headspinningly unpredictable. Is there any way to avoid this fear, anxiety and paralysis, and learn to thrive in a world in flux?»
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Morreu num 27 de Julho, sim



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Reino Unido: lá vai ele


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Sobre as sanções, no país dos brandos costumes



«A decisão da Comissão Europeia de desencadear o processo de imposição de sanções a Portugal por “défice excessivo” não está a causar nenhum movimento de cidadania que se veja em termos de indignação contra esta imoralidade e injustiça.

O assunto tem sido discutido pelos políticos, pelos comentadores do costume, pelos meios de comunicação social, mas tem havido pouco mais para além disso.

As “vitórias europeias” no futebol e noutras modalidades desportivas, a praia, os festivais e outras festas de Verão e a caça aos pokémons distraem a atenção das pessoas deste e doutros assuntos que são relevantes para a nossa vida colectiva. (…)

[Portugal é ]“um jardim à beira mar plantado”. O clima é bom, não temos furacões, não temos ciclones, só houve um tremor de terra, mas já foi há muitos anos e localizado só numa cidade, não vivemos sob o risco de avalanches, ou de tsunamis, não tivemos que conquistar terra ao mar. Vivemos, por isso, sem necessidade de nos organizarmos colectivamente contra riscos naturais para podermos sobreviver individualmente. (…)

A pátria é como se fosse um “dado natural”. Está aí como as serras, as planícies, os rios, o mar e o céu. A pátria não é sentida sendo como uma construção colectiva pela qual a nossa geração e as que ainda estão próximas da nossa tiverem que suar sangue, suor e lágrimas. Sendo a pátria um “dado natural”, temos em relação a ela as emoções de gosto, ou de desgosto, do mesmo modo que também temos esse tipo de sentimentos em relação às pátrias dos outros. Por isso, também não nos importamos que os outros tenham esses sentimentos em relação à nossa pátria.

Tudo isto contribui para que seja muito difícil a organização de movimentos fortes da sociedade civil para fazer face a riscos sociais. A tendência é mais para colocar as esperanças de combate a esses riscos num poder político “forte” (autoritário, ou de maioria absoluta), ou então em “messianismos”. (…)

Infelizmente, o mundo actual vai num sentido onde os riscos socais vão sendo cada vez mais e cada vez maiores. Para lhes fazermos frente, não chega delegar tudo nos políticos. É preciso que a sociedade civil tenha capacidade para se organizar de forma colectiva e forte. Pelas razões que atrás referi, as nossas dificuldades são muito grandes a este nível, sendo a apatia face às sanções mais uma manifestação dessas dificuldades.

Mais preocupante do que as sanções em si, é a apatia da sociedade civil em relação a este processo.»

26.7.16

Hollande: mais valia ter pensado antes de falar



Depois do crime que teve hoje lugar numa igreja da Normandia, de que foi vítima um padre, ouvi na France 24 que Hollande terá prometido proteger todas as igrejas católicas. Foi recordado pela jornalista, que estava em estúdio, que existem 45.000 em França.

A ser verdade, François Hollande quis dizer o quê, exactamente? Uma afirmação destas é tão disparatada que não passa de uma pura confissão de impotência (e de incompetência). 
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E é mais ou menos isto


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O grande jogo na pátria dos sultões



«A tentativa de golpe de Estado na Turquia destapou diferentes interesses que concorrem entre si. E que têm que ver com o futuro da Turquia e também do Médio Oriente.

Ponte entre o Ocidente e o Oriente, a Turquia vive a ressaca da tentativa falhada de golpe militar. Que embateu frontalmente contra a resistência popular nas ruas. Mas agora as questões são outras: até onde irá a purga massiva de "gulenistas" que está a ser seguida nos sectores militar, da educação e da justiça? Até onde irá o braço-de-ferro entre os Estados Unidos e a Turquia por causa do pedido de extradição do clérigo Fetullah Gulen? E como irá funcionar a base aérea de Incirlik, fundamental para a força aérea americana actuar na Síria contra o Daesh? Todas as questões acabam por estar interligadas e a resolução de qualquer delas terá fortes implicações nas outras. Isto num momento delicado no Médio Oriente. A detenção do comandante da base de Incirlik, o general Bekir Ercan Van e dos seus mais directos subordinados, demonstra a área sensível onde tudo se move. Erdogan também já disse que seria um "grave erro" dos EUA se não extraditassem Gulen. Para já ninguém diz que há uma ligação directa entre a utilização de Incirlik e a extradição de Gulen, mas tudo indica o contrário. Só que muito dificilmente os EUA extraditarão Gulen, algo que a não acontecer acabará por ferir o orgulho de Erdogan. Afinal Gulen (e a sua teia de interesses e actividades) tem sido um valor seguro da "inteligência" americana nas últimas décadas. Há quem refira que Israel também tem interesses neste complexo caso: desconfia das relações de Erdogan com o Hamas e deseja a criação de um estado curdo.

Por outro lado, é também curiosa a posição da Arábia Saudita em tudo isto: Riade abriu recentemente um consulado em Erbil (Curdistão) e um artigo no diário saudita "Asharq Al-Awsat" (propriedade do príncipe Faisal, filho do rei Salman) referia que Erdogan poderia ser removido do poder se continuasse a pressionar pela extradição de Gulen (que terá também fortes ligações à família real saudita). Riade também está nervosa por Erdogan estar a aproximar-se do Irão (e ter voltado a encontrar ligações com a Rússia). Alguns analistas consideram que a "destruição do círculo Gulen" poderá ser usado pelos poderes ocidentais para isolarem Erdogan. Só que o Ocidente não pode isolar a Turquia, já que a NATO depende muito dela na zona Sul. Ou seja, há um grande jogo de xadrez político e militar a ser travado entre diferentes actores. E onde nem todos os interesses são muitos claros. Seja como for, a Turquia é, neste momento, um país crucial para toda a política futura no Médio Oriente (e mesmo na Europa). E Erdogan sabe isso.»

Fernando Sobral

Dica (343)




«Ansbach, Munich, Würzburg, Nice, Brussels -- in light of the many horrific news stories, many are asking: What's the matter with 2016?» 
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Pé ante pé, a ideologia do homem dos afectos

Liquidação total



«O cómico Bob Hope dizia que era extremamente fácil descobrir onde o antigo Presidente norte-americano Gerald Ford estava a jogar golfe: bastava seguir a fila de feridos. A Europa tem, neste momento, vários praticantes de golfe político.

Basta seguir a chacina que a partir do "green" de Bruxelas se tem produzido. Em forma de danos laterais, colaterais e semânticos. As soluções para a Grécia foram um desastre. A saída do Reino Unido da UE é um colapso existencial. As sanções a Portugal, depois de um programa de austeridade radical, são cianeto disfarçado de esteróide anabolizante. A forma como a UE tratou o problema dos migrantes, da crise na Ucrânia e, no seu conjunto, da defesa e da segurança é digna do inferno de Dante.

O euro, em vez de unir, está a estilhaçar as economias mais frágeis. Bruxelas pulula de burocratas que pensam primeiro em si e só depois no interesse geral. Não admira que esta Europa pareça uma piroga com um buraco no casco. Vivem-se tempos de ruptura acelerados.

Talvez por isso António Costa, no grupo parlamentar do PS, tenha dito que a Europa que conhecíamos acabou. Que a divisão já não se faz por famílias políticas (deu como exemplo Jeroen Dijsselbloem, que sendo social-democrata na aparência não entende o problema português), mas por grupos de interesses (o do Norte da Europa, o do Leste com o manto diáfano alemão por cima). E que, por isso, mais do que apelar ao espírito de família política (os socialistas europeus), Portugal tem de pensar em termos de um futuro bloco do Sul. De outra forma seremos os párias desta Europa. Estilhaçam-se as velhas cumplicidades. Também aqui, neste jardim à beira-mar especado.»

Fernando Sobral

25.7.16

E o futuro? Falta aqui


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Passámos mesmo para o nível da loucura




«O presidente da Spine Matters (associação de investigação, promoção e desenvolvimento do conhecimento na área da coluna vertebral) recorda ainda “a facilidade de quedas, tropeções", com "potencial de perigo neste público" - leia-se caçadores de pokémons -, e prevê “um aumento de lesões nos jogadores mais focados”.

Mas Luís Teixeira vai mais longe ao antever que, em breve, os perigos daquilo que tem sido desginado como “pescoço de SMS” poderão ser actualizados como “pescoço de Pokémon Go”. “Os estudos realizados na área revelaram que a força exercida no pescoço de um adulto a olhar para o telemóvel pode variar entre os 12 e os 27 quilos, e sofrer uma inclinação entre 15 a 45 graus. Estamos a falar de uma pressão extrema para esta zona, que pode levar a um desgaste precoce, degeneração e até cirurgias”, sintetiza.

Por isso, e de maneira a poder aproveitar melhor os benefícios de jogar Pokémon Go, minimizando os seus riscos, o presidente da associação Spine Matters recomenda que “a caça aos pokémons seja realizada pelo menos aos pares, estando sempre um dos elementos encarregue de lembrar o outro de fazerem pequenas paragens ao longo da busca”. Isto para que seja possível descansar alguns minutos "numa posição correcta e de pescoço erguido, que também podem ser aproveitados para realização de alguns exercícios posturais simples".» 
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Burro-em-pé



Conversa a várias vozes numa casa de pasto do Poço do Bispo, Lisboa.

- Jogo, quê? Mas alguma vez foi o jogo, o burro-em-pé? 
- Se serve para apostar é jogo. 
- Mas quais apostar, quais joão! Com que ver, com que moral é que você ia apostar num jogo de crianças? 
- Aí é que está. 
- Além de que nunca foi jogo, caraças. Burro-em-pé nunca foi jogo. 
- Nem burro. Burro-em-pé é palhaço. 
- Bem visto. 
- Não é vaza, não é bisca, não é coisa nenhuma. 
- É roda de putos... 
- É baralho no ar... 
- ...Velhadas a zurrar. 
-  Velhadas, quê? 
- Deixa dizer, pá. É cuspo, é dedo, reinação pra engonhar. 
- É moinho de cartas, adivinha a feijões. 
- Burro-em-pé é paciência... 
- ...Debicar por debicar. 
- É brinquedo... 
- Entretém... 
- ... Pró vizinho e prá criança. 

«Tem-se dado muita desgraça nas brincadeiras das crianças, sim senhor» - disse a mulher que coçava a cabeça e comia carapaus, encostada ao balcão.

José Cardoso Pires, O burro-em-pé, Moraes editores, 1979.
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Dica (342)




«A dívida tem sido usada como uma arma de dominação política e um meio de acumulação de riqueza em benefício das classes dominantes desde o século XIX.»
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As 1000 famílias que mandam nisto tudo (e não pagam impostos)


Assim reza o insuspeito Negócios:

«"Em qualquer país que leva os impostos a sério", este grupo de privilegiados garante habitualmente cerca de 25% da receita do IRS do ano (…). Por cá, os nossos multimilionários apenas asseguravam 0,5% do total de imposto pessoal.» 
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Euro, o Titanic do bloco central



«O actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tem feito repetidamente uma proclamação antidemocrática inaceitável, ao afirmar que nunca autorizará qualquer referendo que questione a União Europeia. A explicação para esta obsessão é simples. Para quem não se lembre ou não saiba, convirá recordar que os grandes responsáveis pela adesão e integração desastrosa de Portugal na Zona Euro foram, precisamente, Marcelo Rebelo de Sousa (então presidente do PPD/PSD) e António Guterres (então primeiro-ministro e secretário-geral do PS), além do então governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio (ex-secretário-geral do PS), todos na esteira do então ex-primeiro-ministro e “grande timoneiro” Aníbal Cavaco Silva (ex-presidente do PPD/PSD). Não espanta, por isso, que todos eles tenham fugido, por exemplo, da possibilidade de referendar o sinistro Tratado de Maastricht, que instituiu a União Europeia em 1992, e continuem a fugir, como o diabo da cruz, de qualquer referendo que questione a nossa presença no “colete-de-forças” da Zona Euro - ou questione esse tratado intergovernamental mais conhecido como “Pacto Orçamental”, que é um autêntico pacto de austeridade perpétua contra a democracia. (…)

O muito controverso Milton Friedman, prémio Nobel da Economia em 1976, escreveu em 1999: “O que mais me perturba é que os membros do euro tenham atirado fora as suas chaves. Assim que o euro substituir fisicamente as moedas nacionais, como é que se sai desse mundo? Será uma crise imensa”. E avisava: “Os defeitos do euro levarão algum tempo a aparecer. Nada surge rapidamente nessa área. (…) O sistema político dificilmente reagirá com rapidez bastante (a uma recessão) para acabar com o euro. Por isso, julgo que seria muito conveniente pensar seriamente na elaboração de uma forma de sair da camisa-de-forças do euro depois de 2002”. Ninguém pensou. E “o euro devia ser abandonado antes de 1 de Janeiro de 2002”. Não foi. (…)

Em conclusão: Portugal nunca deveria ter aderido ao euro, mas aderiu, e hoje está metido na tal “camisa-de-forças” de que falava Milton Friedman (ao menos desta vez cito-o por concordar com ele). E o que é dramático é que as consequências seriam sempre as que estamos a sofrer agora, mesmo que a meia dúzia de governos que entretanto se sucederam no poder não tivesse cometido quaisquer erros. Porque o nosso destino já estava traçado pelo euro.»

Alfredo Barroso

24.7.16

Jogos Olímpicos: o melhor anúncio




Daqui.

Passos Coelho



Alguém devia ajudar Passos Coelho a terminar o mandato de presidente do PSD com dignidade.
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Dica (341)

Quando os cadáveres já morrem


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A crise da Europa. E da democracia



«Há alguns anos, Victor Cunha Rego deu uma entrevista ao "Independente", que nalguns momentos parece ser premonitória. Dizia ele: "A democracia que nós vivemos hoje em dia assenta, praticamente, exclusivamente nas políticas chamadas sociais. É um regime suicidário." Mais: "No momento em que as políticas sociais falharem, a democracia acaba". E Cunha Rego concluía: "Ao contrário da maioria, considero que nós, e quando digo nós não estou a falar só de Portugal, estou a falar da Europa, caminhamos para o fascismo". (…)

O terrorismo vai condicionar cada vez mais as liberdades individuais na Europa, porque a insegurança criada pelos militantes suicidas do Daesh vai manter-se durante anos. Por outro lado, a pressão migratória vinda de África (e há milhões, na zona sub-sahariana à espera de atravessar o Mediterrâneo) vai levar à criação de cada vez maiores barreiras à sua entrada. (…)

O estertor da social-democracia e da democracia-cristã tem muito a ver com a hegemonia da ideologia liberal que saltou da economia para a política criando um vai-vem entre ambas.

As políticas de austeridade, que estão a destruir o que resta da Europa social, caminham no mesmo sentido. E depois há quem se admire com a cada vez maior eficácia de tribunos populistas, de Trump a Boris Johnson, ou mesmo de políticos radicais (como na Polónia ou na Hungria), que vão conquistando os deserdados que ficaram pelo caminho (os párias do sector industrial que perderam os empregos que foram, temporariamente, criados na Ásia e que, a curto prazo, serão substituídos pela robotização, a classe média sufocada por impostos e a perder a mobilidade social, os jovens sem emprego e os mais velhos tementes da sua segurança).

Se juntarmos a isso a incapacidade de a Europa ter uma política de segurança temos o caldo perfeito para um futuro para o qual temos de olhar de óculos escuros. A democracia assentava no contrato social e numa forte classe média que não deseja sobressaltos. Sem as duas coisas começam a ser notórias as tentações da maioria dos povos de seguirem à boleia de quem lhes promete um pouco de esperança. Como dizia Cunha Rego, a Europa caminha para o suicídio. Entre a austeridade e o fim do Estado social. E ainda há quem pareça contente com tudo isto.»

Fernando Sobral
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