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12.11.16

Dica (434)




«I am saddened, but not surprised, by the outcome. It is no shock to me that millions of people who voted for Mr. Trump did so because they are sick and tired of the economic, political and media status quo.» 
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O sistema por outros meios



Daniel Oliveira no Expresso de 12.11.2016.


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Uma maravilha



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A seta da história, o progresso, a Tina e Trump



José Pacheco Pereira no Público de hoje 

«No debate à volta de Trump há uma contínua recorrência de um argumento que vai de uma interpretação da história para a política e que curiosamente é usado quer à esquerda, quer à direita. Esse argumento pode ser enunciado da seguinte forma simples: “não se pode voltar para trás”, na história há o “velho” e o “novo” e a tentativa de manter o “velho” contra o “novo” é inútil e reaccionária, a história “anda sempre para a frente”. Quando se traduz esse argumento nas várias partes em que é usado, encontramos diversas variantes que vão do pregressismo comteano à esquerda ao “não há alternativa” (Tina) à direita, tendo todos em comum a ideia de que na história há uma seta do tempo que define um “progresso”, e que, a partir dela, se pode definir e classificar determinados eventos como indo no sentido da história e outros não. (…)

É interessante verificar como a eleição de Trump nas suas interpretações é vista à luz desta teoria da história. Nesse sentido, repetem-se muitos argumentos do "Brexit", muita discussão sobre a globalização, muita da transposição social e política daquilo que se entendem ser os efeitos das novas tecnologias, muito do deslumbramento psicológico com as “redes sociais”, os “mundos virtuais”, etc., etc. (…)

O anátema do “velho” é hoje um instrumento do conflito social usado como classificação para homens como Jeremy Corbin ou Bernie Sanders que são o “velho Labour” ou o “velho socialismo dos anos 60”, para os jornais em papel que estão caducos, porque ler em papel está “ultrapassado” por “ler” nos telemóveis, para justificar a desregulação, a Uber, o fim da privacidade, o trabalho precário, tudo aquilo a que nos temos de “habituar”, porque é o “mundo novo” que as “novas” tecnologias e globalização trazem inevitavelmente, tornando “ultrapassado” as soberanias, o proteccionismo, as nações, e por aí adiante. (…) Foi do “caixote do lixo da história” que se levantaram muitos milhões de eleitores de Trump, dos campos ignorados pela nossa ideia da América, das cidades industriais póstumas, de uma coorte de pessoas a quem a crise financeira tirou as casas e os rendimentos e as fez passar de uma vida que lhes parecia mais digna para outra muito menos digna. (…)

A vontade de mudar, o elemento mais decisivo nestas eleições, foi parar às piores das mãos, mas foram as únicas que lhes apareceram. Quando Bernie Sanders, outro “antiquado”, cuja candidatura “falava” para estas mesmas pessoas, foi afastado – conhece-se hoje o papel de um conjunto de manobras dos amigos de Hillary Clinton no Partido Democrático –, ficou apenas Trump. E, como já disse, não tenho a mínima simpatia por Trump, a mínima. Mas tenho uma imensa simpatia pela vontade de mudar, que tanta falta faz nos dias de hoje nas democracias esgotadas na América e na Europa.» 
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11.11.16

As desgraças são muitas, mas hoje é dia destas



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Dica (433)




«Donald Trump has been elected the 45th President of the United States. Not many saw this coming. Which is odd, given the wave of middle and working class anger raging against ‘globalism’ around the world for a decade.» 
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Simpsons adivinharam vitória de Trump? Não só



Já previam o Galo de Barcelos na Ribeira das Naus.

(Humor de Rui Rocha no Facebook)
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Trump êxito



«Foi uma surpresa? Foi. As empresas de sondagens tornaram-se especialistas em surpreender o comum mortal e os outros mais espertos. A derrota de Trump estava anunciada por números e opiniões de gente com profundo conhecimento na matéria. (…)

Detesto a atitude "Cavacal" de dizer - "eu bem disse" -, mas há uns meses escrevi neste jornal que Hillary era um Mister José Peseiro da política. Lembro-me bem da vantagem que Hillary tinha, em relação a Obama, no início das eleições democratas há oito anos. Ao intervalo, estava a ganhar por 4-0. Obama tinha um "Yes We Can", Hillary tinha sete páginas de números e estatísticas. Trump tinha um "Making America Great Again" e uma multidão furiosa, Hillary tinha um estudo de mercado e malta que foi ver o concerto da Beyoncé. Os archotes venceram os telemóveis e isqueiros. (…)

Após a vitória de Trump, David Duke, um ex-líder dos Ku Klux Klan, disse que aquela era "one of the most exciting nights of my life" - e imaginem o que ele já não deve ter feito de noite. Se, para um "indivíduo" do Ku Klux Klan, a vitória de Trump é razão para festejos, sou tentado a pensar que o que aí vem não vai ser divertido.

O resultado das eleições nos EUA é uma espécie de montanha russa gigante do que já vamos vendo por aqui, na Europa, em formato de carrossel. É um sinal com mau aspecto visto à lupa. E o diagnóstico não é agradável. Posso ser pessimista, e se quiserem vão procurar uma segunda opinião, mas a minha análise é que, a continuar assim, dificilmente vai haver uma colecção de Primavera/Verão 2017 United Colors of Benetton.

Não há aqui nada de novo. É outra vez o ovo da serpente, mas, agora, na Sala Oval. Querem os ovos mexidos ou estrelados?»

João Quadros

Acordámos hoje mais pobres



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10.11.16

Dica (432)



An American Tragedy. (David Remnick) 

«The election of Donald Trump to the Presidency is nothing less than a tragedy for the American republic, a tragedy for the Constitution, and a triumph for the forces, at home and abroad, of nativism, authoritarianism, misogyny, and racism. Trump’s shocking victory, his ascension to the Presidency, is a sickening event in the history of the United States and liberal democracy.» 
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New York, New York


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A imagem do dia



Cascais hoje.

Nem sei dizer exactamente por que motivo há algo que me assusta nesta imagem. Não estou psicologicamente preparada para ver um PR nestes preparos, mas admito que o problema seja meu.

(Foto de J Caetano Dias, divulgada no Facebook) 
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Hillary perdeu (também) porque…



«Trump também ganhou porque o Partido Democrata, numa opção suicidária, escolheu a candidata mais identificada com o sistema, com a corrupção da política e dos políticos. De nada lhe valeu ter mais de mil milhões de euros para financiar a sua campanha (o dobro de Trump), nem o apoio das elites política, cultural, jornalística e financeira, ancoradas na costa leste. Bem pelo contrário, quanto mais apoio reunia, mais Clinton era vista como parte dos que dominam, dos que não compreendem as preocupações de uma parte significativa da população. As redes sociais retiraram o monopólio às elites, nomeadamente aos meios de comunicação tradicionais, que acabaram em circuito fechado, a pregar para os seus leitores, desconectados com uma parte significativa da população.

Finalmente Trump ganhou porque o Partido Democrata boicotou Bernie Sanders. Sanders representava o outro futuro possível, os sectores progressistas que compreenderam as razões do descontentamento de largos setores da cidadania e que propõem uma reforma do sistema de financiamento partidário para pôr termo à corrupção do voto e criar uma alternativa ao pensamento económico único. Talvez a derrota de Hillary dê aos indignados progressistas uma nova oportunidade para reformarem o Partido Democrata e defenderam uma perspetiva inclusiva da América.»

Álvaro Vasconcelos

Merkel: muito bem!



As declarações oficiais mais correctas, que li até agora.


«“Germany and America are connected by values: democracy, freedom, respect for the law and for the dignity of human beings, independently of origin, skin colour, religion, gender, sexual orientation or political views.
“On the basis of these values, I am offering the future President of the United States of America, Donald Trump, close cooperation.”» 
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Mário Viegas, 68



Fartíssimos que certamente estamos de mil opiniões e lamentos pela eleição de Trump, paremos uns momentos para celebrarmos um dos nossos grandes: Mário Viegas nasceu em 10 de Novembro de 1948 e morreu novíssimo, antes de chegar aos 48.

Fundou três companhias de teatro, actuou em vários países, participou em mais de quinze filmes e só quem for muito jovem não se recordará das séries televisivas Palavras Ditas (1984) e Palavras Vivas (1991).

Celebérrima ficou a sua leitura do Manifesto Anti-Dantas de Almada Negreiros:



Mas existiu também um Manifesto Anti-Cavaco, lançado por Mário Viegas durante a campanha eleitoral para as legislativas de 1995, em que foi candidato independente na lista da UDP (candidatou-se também à Presidência da República).




Só mais duas interpretações inesquecíveis:




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9.11.16

Good morning, America



Mais cartoons aqui.
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Hoje é dia de Feuilles Mortes




Yves Montand morreu há 25 anos.
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Data aziaga



Para quem liga a datas, isto tem certamente que se lhe diga. O quê, não sei.

9 de novembro: Noite de Cristal, queda do Muro de Berlim, eleição de Trump.

Para além de 11/9, 9/11.
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Eleições EUA: receios colaterais



Receios em Cuba por causa da eleição de Trump, pelo que leio. E como sou má, interrogo-me: será que Marcelo ainda pediria uma visita privada a Fidel se fosse a Havana amanhã? 
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O nosso país desconhecido



Vale a pena ler este texto de Paul Krugman, que corre mundo:

«Nós pensávamos que a nação, embora longe de ter ultrapassado o preconceito racial e a misoginia, se tinha tornado muito mais aberta e tolerante ao longo do tempo.
Nós pensávamos que a grande maioria dos americanos valorizavam as normas democráticas e do Estado de Direito.
A verdade é que estávamos errados.»

Na íntegra AQUI.
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Não há palavras



«O que se pode dizer pode ser dito claramente; e aquilo de que não se pode falar tem de ficar no silêncio.» 
Ludwig Wittgenstein 
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8.11.16

Belíssimo em qualquer parte do mundo



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O tal Summit



«Segundo os jornais, o Web Summit 2016 teve um financiamento público de 1,3 milhões de euros, pagos pelo Estado, para acontecer em Lisboa (os "empreendedores" que organizam estas coisas não sobrevivem afinal sem um subsídio generoso do bom e velho Estado). 
Para partilharem as suas ideias de negócio e arranjarem uma "oportunidade", os participantes têm de pagar à organização um bilhete que oscila entre as módicas quantias de 700 euros e de 5 mil euros. 
O evento tem 663 oradores, dos quais só 120 mulheres; 32 são portugueses, dos quais só duas mulheres (somos modernos, mas pelos vistos sucesso e negócios continuam a ser coisas de homens...). 
Quem garante o funcionamento do encontro são cerca de 2500 voluntários, que, nessa condição, recebem zero pelo seu trabalho.

Pergunto: é mesmo a isto que se anda a chamar "futuro"?»

José Soeiro no Facebook 
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Dica (431)




«Que pensar então de tudo isto? Primeiro, que este projeto europeu bateu no fundo, mesmo para quem achava que não havia mais fundo para bater. É uma teia de mentiras, de jogos de dissimulação e de degradação democrática. Segundo, que a única atitude digna é desvincularmo-nos de um embuste que nos aprisiona. Esse embuste chama-se Tratado Orçamental e tem vindo a destruir as democracias e a própria União. A mentira é apenas o outro lado da estupidez das regras deste Tratado. Com elas, não há Europa que sobreviva.»
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América, no dia dela



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A Grécia não está parada




««A comissão impulsionada pela ex-presidente do parlamento grego prossegue agora como associação cívica e promete continuar a luta pela suspensão do pagamento da dívida.(…) 
Zoe criticou ainda a posição do novo governo, que deixou de falar na redução do montante da dívida, passando a reclamar apenas a sua restruturação de juros e montantes. E sublinhou a necessidade de continuar o trabalho da auditoria, agora sob a forma de associação cívica.»
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Chegou a hora da sorte! É a lotaria americana!



«Faltam poucas horas para a decisão do campeonato eleitoral norte-americano. Quem irá vencer? Hillary Clinton e Donald Trump correm lado a lado para chegar à Casa Branca.

E se são os americanos a votar, milhões de pessoas em todo o mundo roem as unhas. Fará toda a diferença se ganhar um ou o outro. Para a América. E para todo o planeta. (…)

No Weekly Standard, Fred Barnes dá conta do nervosismo no campo democrata e na razão por que Obama se tem esforçado tanto por apoiar Hillary: "Há uma razão para que os Presidentes façam campanha activa para eleger o seu sucessor. Os Presidentes são o passado. Os candidatos presidenciais são o futuro.” (…) Esta campanha conseguiu cindir a América. Joe Klein, na Time, não esconde a sua simpatia: "Trump não vive no mesmo universo de Harry Truman. Ele pertence ao mesmo mundo de Snooki (personalidade de 'reality shows'). E os seus apoiantes sabem isso: eles têm prazer vingativo na sua profunda falta de seriedade. Eles protestam contra a complexidade. Porque não podemos conquistar Mossul em três dias? Porque não podemos ter emprego na indústria e produtos baratos no Walmart ao mesmo tempo? Porque é que não podemos só ter emigrantes da Europa?" Os dados estão lançados.»

Fernando Sobral
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Dica (430)



Donald Trump Is America. (Dan O'Sullivan) 

«Trump should be a wake-up call — a frightening enough harbinger that the American dream is a dead end, leading only to failure, frustration, and thoughts of revenge.» 
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7.11.16

Há 4 anos, o discurso de vitória de Obama




Claro que as desilusões foram muitas, mas… quem nos dera
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CGD: uma embrulhada arriscada



Daniel Oliveira no Expresso diário de 07.11.2016.



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Vergonha alheia


O inefável Ascenso Simões botou palavra para defender o último livro de José Sócrates. Transcrevo apenas isto e mais não digo. Por vergonha alheia:

O túnel do amor do OE



«Portugal não tem um ministro das Finanças como o Presidente francês François Hollande. Que pode explicar à vista desarmada num livro que negociou um défice falso com a Comissão Europeia (seja com a de Durão Barroso, seja com a de Juncker), sabendo que nunca cumpriria os 3%. E que do outro lado tenha contado com a compreensão dos mosqueteiros de Bruxelas que lhe explicaram que tinha de fingir para que fosse possível pressionar outros países (como Portugal) a cumprir o défice mesmo que isso fosse destruir-lhes a economia e o tecido social. Aí está, preto no branco, como funciona a UE: todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros. Isto não isenta Portugal, que tem um longo historial de não conseguir equilibrar as contas públicas, por pobreza, desmazelo ou alucinação política. (…)

Assistir ao debate sobre o OE é, por isso, uma canção pop dos Dire Straits: um "Tunnel of Love" de várias horas, com solos de guitarra para todos os gostos. Música para o contribuinte que, entre o "não há aumento de impostos" e o "vai haver um grande aumento", já sabe o refrão. (…) Cada partido, como no tempo de Eça, é contra os impostos na oposição e depois tem o orgulho de lançar um aumento quando chega a S. Bento. Os brutais juros da dívida inviabilizam qualquer investimento a sério e os impostos tiram o sangue das veias dos portugueses. Será uma sina?»

Fernando Sobral

6.11.16

Sophia, 97



Sophia de Mello Breyner nasceu no Porto, em 6 de Novembro de 1919.

Escolho recordá-la como a resistente à ditadura, que foi durante décadas. Juntamente com o seu marido, Francisco Sousa Tavares (o «Tareco», para os que éramos seus amigos), nunca recusou uma presença, uma assinatura, uma voz, integrada no universo dos chamados «católicos progressistas».

Foi candidata pela oposição (CEUD) às eleições legislativas de 1969 e um ano antes escreveu um poema que muitos cantam mas poucos sabem ser de sua autoria: a Cantata da Paz, tão divulgada por Francisco Fanhais depois do 25 de Abril, e que foi por ele «estreada» numa Vigília contra a guerra colonial, na passagem do ano de 1968 para 1969 (onde Sophia esteve obviamente presente).



Foi há muito tempo. Mas quem esteve lá não esquece.
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Dica (429)



Desobedecer aos credores para romper a austeridade. (Eric Toussain e Fátima Martín) 

«A experiência mostra que os movimentos de esquerda podem chegar ao Governo sem conquistar o poder. A democracia, ou seja o exercício do poder pelo povo e para o povo, requer muito mais.» 
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EUA: não são apanhados


video
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O dia seguinte



«É pouco provável que Donald Trump vença as eleições. Mas pode acontecer, dada a peculiar democracia americana e sobretudo o estado de alienação a que chegou uma parte significativa da população.

Embrutecidos pela religião e pelos media muitos americanos aderem a ideias francamente retrógradas, contraditórias, claramente prejudiciais para as suas próprias existências. (…)

A eleição presidencial norte-americana é um bom exemplo. Muitos americanos e ainda mais não-americanos terão ficado surpreendidos com o baixo nível da campanha de Trump. Não tanto pela sua personalidade grotesca, mas por haver tanta gente a segui-lo. Um dos países mais avançados do mundo, uma das mais importantes economias do planeta, revela que tem uma percentagem muito significativa da sua população atrás de um alucinado, um tonto, um perigoso demagogo que insulta tudo e todos e que promete, se for eleito, antagonizar o mundo. Como muito bem afirma a campanha de Hillary Clinton: "Alguém está disposto a entregar o poder nuclear a este homem?" Pelos vistos muita gente está.

O maior problema destas eleições não é por isso o seu resultado. Seria uma enorme surpresa e um susto para o mundo se Trump ganhasse. Ainda que, nesse caso, o sistema não o deixaria governar, a começar pelos republicanos. A sua passagem pela presidência seria curta e o dano mínimo.

O maior problema começa no dia a seguir à eleição de Hillary Clinton. A América está francamente doente e cabe perguntar "como foi possível chegar a isto?" Uma parte significativa da sociedade é decadente, atrasada, ignorante, isolacionista, incapaz de se enquadrar no mundo global e responder aos desafios da acelerada evolução tecnológica. Não por acaso os Estados Unidos estão a perder terreno em várias frentes tecnológicas. Ideias primitivas, como o fanatismo religioso ou a falsa livre iniciativa, já que os Estados Unidos são dos países mais intervencionistas do mundo, impedem o desenvolvimento social, cultural e político.

As eleições revelam a falência do sistema de ensino norte-americano. Que criou gente tão ignorante capaz de acreditar nos maiores disparates. Como dizia uma jovem apoiante de Trump: prefiro Deus a oxigénio, porque este só foi inventado no século XVIII e Deus é desde sempre.»

Leonel Moura