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24.12.16

Bom Natal



Seja o que for que isso signifique para quem passar por aqui.
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A doutrina Trump-Putin



Pacheco Pereira no Público de hoje:

«Está-se a definir, embora ainda de forma muito embrionária e imprecisa, uma doutrina Trump-Putin, sem precedente na geopolítica depois da Segunda Guerra Mundial. (…)

Trump, mesmo que seja difícil encontrar uma linha coerente na sua actuação, tem nesta matéria mantido uma constância de posições que podem variar no alcance e na urgência, mas que marcam uma ruptura com toda a política externa americana desde a Guerra Fria e mesmo no pós-Guerra Fria. Estas posições são alicerçadas nas opiniões pessoais de Trump, e na migração para o campo de Estado e da política, nacional e internacional, da única experiência que ele tem, a dos negócios e das empresas. (…)

De que é que Trump está convencido? De que a política externa americana face à Rússia tem sido desnecessariamente hostil, e que deve haver uma inversão significativa dessa hostilidade. De que os EUA arcam sob os seus ombros os custos de proteger múltiplas nações e áreas do mundo que bem podiam cuidar da sua defesa, mesmo que isso implique adquirir uma capacidade nuclear. De que a NATO é uma organização caduca e, no limite, desnecessária. De que as sucessivas intervenções americanas e europeias no Iraque, na Líbia, na Síria foram monumentais desastres, pouco preparados e pensados, sem medir as consequências, eliminando personagens como Khadafi, ou Saddam, e tentando eliminar Assad, que, mesmo que sejam bad boys, garantiam e garantem uma estabilidade regional cuja perturbação deu origem ao ISIS e ao caos no Iraque, na Líbia e na Síria. De que o único verdadeiro inimigo dos EUA nos dias de hoje é o ISIS, e, em menor grau, o Irão e a China, enquanto a Coreia do Norte devia ser posta na ordem pela China, com os EUA a fazer enormes pressões para que isso aconteça. Há alguns subprodutos destas “opiniões” e algumas contradições, como, por exemplo, a posição face a Cuba, mas é o que Trump pensa, e o que ele pensa é o que vai tentar fazer. (…)

Na prática, o que Trump fez, com aquela mistura de genuinidade, inexperiência e ignorância, a que se soma alguma intuição, foi interiorizar como suas todas as reservas e críticas russas à política americana da Administração Obama e do Departamento de Estado Clinton, e, ao fazê-lo, num contexto de clara vontade de aproximação a Putin, muda de facto a visão do mundo.

Para os russos, e para Putin, é uma oportunidade de ouro na sua política externa mais agressiva, que já tinha tido resultados na Ucrânia e na Crimeia, e no passado na Geórgia e na Tchetchénia, embora neste último caso dentro do território da Federação Russa. Os objectivos geopolíticos russos não são novos, em bom rigor datam do império czarista, foram adaptados pelos bolcheviques, em particular por Staline, e sofreram consideráveis recuos com o fim da URSS, e a aparição de um mundo unipolar. (…)

Putin tem uma política externa, Trump não tem, nem quer ter, e quando a tiver será pactuada com Putin.

As vítimas desta doutrina Trump-Putin, se se materializar como tudo indica, são os aliados dos EUA, a começar pelos europeus que fazem parte da NATO, mas também os asiáticos e árabes. (…)

Trump tem todos os defeitos que já apontámos e aparece agora a brincar com as armas nucleares no Twitter, a doença infantil dos homens maduros, mas sabe o que quer e, acima de tudo, o que não quer. Mesmo que não faça um décimo do que ameaça fazer, basta isso para consolidar um ponto sem retorno da política mundial, e se há homem que é capaz de explorar isso, é Putin. Num certo sentido são parecidos: Putin retratado como macho russo a andar a cavalo, em cima do gelo, a mergulhar, a caçar ursos; Trump apanhando-as pela “pussy”, vivendo entre ornatos de falso ouro, e aquelas cadeiras e móveis que a gente jurava que ninguém comprava, mas compra. Só que há uma enorme diferença, Trump é habilidoso e esperto, Putin é inteligente e frio. E Putin tem um mapa por detrás, com muita história dentro.»
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Quem não o compreende?


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23.12.16

Dica (463)




«Terror attacks bring people together. That, at least, is what used to happen. But the attack in Berlin has followed a different script, with the gap between those content to wait for the facts and those eager to score political points now wider than ever before. A look back at 48 hours that changed the country.» 
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Dia de era bom



Dia de Natal


Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes, a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha~se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda~o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.


António Gedeão
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Perus versus TSU



Dantes, vendiam-se perus no Largo do Rato. Agora, o que está a dar é TSU. 
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TSU, TSU


Já disse no Facebook, repito aqui:

Quem desceu a TSU não foi a Geringonça, foi o governo que é só do PS; 
Quem desceu a TSU não foi a Geringonça, foi o governo que é só do PS; 
Quem desceu a TSU não foi a Geringonça, foi o governo que é só do PS; 
Quem desceu a TSU não foi a Geringonça, foi o governo que é só do PS.

Bloco vai submeter descida da TSU a debate no Parlamento.

PCP vai tentar travar descida da TSU para patrões no Parlamento.

Engorda de Natal



«Apesar de ser só um fim-de-semana, é muito provável que consigamos voltar das "férias" de Natal mais gordos do que depois das férias de Verão.

É impressionante a capacidade que um ser humano tem para atafulhar criaturas no estômago durante a ceia de natal. O que pomos em cima da mesa da consoada, num dia normal, dava para alimentar Elvas. E Elvas ainda levava um "tupperware", com restos para dar a Badajoz. (…)

Já imaginaram o que seria se a consoada se o bacalhau fosse como frango? Se em minha casa já há discussão por causa da posta alta e posta baixa, o que seria se o bacalhau viesse só com duas pernas?! Havia feridos. E lá ficavam os miúdos com as asas do bacalhau. (…)

No meu Natal também costuma haver canja de peru com massa de letras. É um clássico. Dá trabalho mas, com a colher, consigo mandar alguns dos meus familiares para sítios porreiros sem eles darem por isso. (…)

Eu detesto peru. O peru é uma coisa que comemos mais por causa do tamanho do que pelo sabor. É só porque é um bicho que matava um frango com uma patada e, nos outros dias, comemos frango. Porque a carne do peru, propriamente dita, sabe a beliche. Por isso é que lhe metem coisas lá dentro. Ou seja, mais uma vez, acrescentam comida à comida. Não chega comer uma ave do tamanho, e peso, dos dois netos mais novos, ainda lhe enfiam castanhas e patês, onde antes estavam coisas que faziam falta ao peru para fazer uma vida normal.

Se o peru soubesse que, depois de morto, vai para a mesa com coisas que ele nunca comeu enfiadas no rabo, andava atrás de pavões enquanto era vivo. Que se lixe a fama se é para acabar assim.

Feliz Natal para todos e ficamos à espera dos prometidos Três Reis Magos.»

22.12.16

Boas Festas 2.0


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Dica (462)




«The changes are not just affecting manual labor: Computers are rapidly learning to do some white-collar and service-sector work, too. Existing technology could automate 45 percent of activities people are paid to do.» 
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Donald Trump e o «Costa do Castelo»



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje: 

«Ao longo dos últimos meses, vários analistas políticos tentaram descobrir a razão que pudesse justificar que Trump tivesse sido eleito. (…)

Até que, esta semana, Donald Tump chamou a uma manobra militar chinesa um acto “sem presidentes”, e revelou que é, afinal, uma personagem de um filme português dos anos 40. Trump é, sem tirar nem pôr, “O Pai Tirano” – até porque é pai e tudo indica que vá ser tirano.(…) Quando, durante a campanha, ele disse que adorava os eleitores com menos habilitações não estava a ser paternalista – estava a revelar auto-estima.»

Na íntegra AQUI
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Onde está o Darth Vader?



«O infantil e decepcionante "Star Wars", de título "Rogue One", diz-nos muito sobre a política dos dias de hoje: quando falta um misterioso e sinistro Darth Vader o pânico instala-se. E ele nunca costuma ser um bom conselheiro.

As chamadas redes sociais, que se costumam guiar pela lógica dos rebanhos de ovelhas, apressaram-se a comparar o assassinato do embaixador russo na Turquia ao do arquiduque Franz Ferdinand, que foi a justificação para a I Guerra Mundial. (…)

Vivemos tempos de fúrias intempestivas. E, no entanto, tudo está ligado. A "fobia russa", exacerbada pela escolha de Rex Tillerson para Secretário de Estado de Trump, garante votos. Para os amigos dos Clinton a escolha de Tillerson é uma afronta: recebeu a Ordem da Amizade de Putin. (…)

A aproximação entre Rússia e Turquia poderia ser afectada pela morte do embaixador russo. Mas não o será. Apenas colocará Erdogan mais próximo da nova "rota da seda" chinesa, das alianças económicas na Ásia Central e da estratégia russa (e iraniana) para a Síria. E mais longe da UE e da NATO. A história recorda-nos isso: no início do século XX o assassinato de embaixadores sediados no Império Otomano era um hábito, geralmente com o conluio da polícia e exército multi-étnico otomano. O terror está a mudar as alianças e as nossas democracias. Resta agora olhar para lá da cortina de pânico para ver onde está o verdadeiro Darth Vader.»

Síria: para além de tudo o que se pudesse imaginar ver

21.12.16

E pachorra para isto?

Mariana Mortágua, «Figura do Ano na Economia»



«Mariana Mortágua foi eleita Figura do Ano na Economia pela redação do Observador. A deputada do Bloco representa a influência económica do BE e a viragem do PS à esquerda.»

Vale muito a pena ler esta entrevista
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Bloco e PCP: convergência




Isto é que me mantém a esperança de que este país se vá tornando um país decente. O resto é espuma dos dias. 
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A impotência é o contrário da democracia



«Podemos gostar do Natal por razões materiais, porque há ceia e férias e festa e presentes e decorações nas ruas, mas a principal razão por que gostamos do Natal é porque quando ouvimos “Paz na terra aos homens de boa vontade” queremos participar dessa festa. (…)

Mas, se gostamos de nos sentir bem a propósito de nós próprios, se tentamos de alguma forma fazer o bem e ajudar o próximo, se gostamos do Natal porque tem um perfume disso mesmo, como é que suportámos todos estes anos o massacre da cidade de Alepo, com os seus cem mil mortos, entre os quais muitos milhares de civis, entre os quais muitos milhares de crianças? Como é que suportámos isto, apenas com um ou outro tweet a servir-nos de compensação, com uma ou outra assinatura numa petição, às vezes com uma participação numa manifestação raquítica a pedir justiça e paz para aquelas pessoas encurraladas numa guerra que não escolheram?

A resposta é a mesma que todos nos dão quando perguntamos o que podemos fazer para ajudar Alepo, para ajudar todas aquelas crianças de caras inexpressivas que já nem choram (o que poderá ser pior que uma criança que já se habituou a sofrer?). O que podemos fazer por todos os outros Alepos, além dos tweets e das petições e das manifestações? Nada. Tudo à nossa volta nos ajuda a celebrar o Natal mas nada nos ajuda a salvar as crianças de Alepo.

A triste verdade é que as democracias de baixa intensidade em que vivemos não possuem mecanismos que nos permitam a nós, ao povo soberano, exigir uma acção determinada mesmo quando se trata de urgências humanitárias. Pedem-nos que esperemos e confiemos nos poderes, mesmo quando estes estão ausentes ou são cúmplices dos crimes. O poder soberano que detemos não possui qualquer canal através do qual se possa exercer para salvar Alepos. Essa impotência que sentimos é o contrário da democracia. Essa impotência diz-nos que nenhum poder efectivo reside no povo. Uma das grandes tarefas à nossa frente é impedir que a democracia se transforme para sempre no regime da impotência dos homens e das mulheres de boa vontade.»

20.12.16

Reminder


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«Arriba Franco, más alto que Carrero Blanco!»



«Arriba Franco, más alto que Carrero Blanco!» – dizia-se em Espanha, em 20 de Dezembro de 1973.

Mais tarde, em Setembro de 1975, quando se deu em Lisboa a ataque à Embaixada de Espanha, foi em português que a frase foi gritada.



Os nosso vizinhos nunca brincaram em serviço.
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Dica (461)




«Com uma ordem estabelecida que se recusa a tirar qualquer lição das suas derrotas de 2016, o nosso sistema está muito mais em risco de ser demolido pelos populistas a partir de fora do que de ser reformado por dentro.»
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O directório de uma só potência



No Público de hoje, pode ler-se um longo artigo de Carlos Carvalhas sobre a dívida, o euro e questões afins. Concorde-se ou não, merece leitura atenta. (*)

«Quando António Costa diz que antes das eleições na Alemanha não se pode negociar a dívida, está a dizer e a reconhecer implicitamente que, no essencial, quem decide na União Europeia é a Alemanha.

António Costa podia ter evocado as eleições em França, ou na Holanda, que até antecedem as alemãs, mas não o fez.

É o reconhecimento de que a União Europeia só formalmente é uma união de iguais. Curiosamente, esta sua afirmação não suscitou estranheza democrática entre a generalidade da “beatitude europeísta”. É a aceitação tácita do “directório de uma só potência” como normal! (…)

As políticas ditas “de austeridade” são de facto políticas de concentração da riqueza, embora enfeitadas com fórmulas vazias de conteúdo e por isso hipócritas — “solidariedade europeia”, “nivelamento por cima”, “igualdade no progresso”, “coesão económica e social” — associadas a uma invocação recorrente dos valores europeus. Mas que valores? Os valores da Europa da Inquisição ou a das Luzes e do humanismo? Os valores da Europa das duas guerras mundiais, do bombardeamento da Jugoslávia, dos refugiados do Mediterrâneo, ou da Europa da Revolução Francesa e da grande Revolução de Outubro?

Depois espantam-se e insurgem-se contra o ascenso dos populismos. Mas o ascenso dos populismos não será a outra face do desprezo e da marginalização social e democrática das camadas populares, designadamente pela social-democracia? O crescimento destas forças não se deverá também aos políticos e às elites que confiscam a democracia em benefício das oligarquias? (…)

Portugal não pode ficar continuamente sob a chantagem dos mercados, do BCE e da sua correia de transmissão — a DBRS. (…)

O esforço financeiro que a dívida exige é colossal e vai continuar a penalizar o crescimento, o investimento e a situação social por muitos e muitos anos. (…)

A renegociação da dívida vai-se impor — a realidade tem muita força — mas quanto mais tarde pior. (…)

O euro é uma moeda simpática, mas muito cara para a nossa economia. (…) É uma moeda subavaliada para a Alemanha, beneficiando as suas exportações, e sobreavaliada para a maioria dos outros países. (…)

Neste quadro, aumenta na Europa a influência das forças políticas e dos movimentos sociais, bem como dos economistas, sindicalistas e entidades patronais que põem em causa o euro.

Tendo em atenção as eleições que se vão seguir na União Europeia (a que se poderão juntar as da Itália e até da Grécia) e após a derrota de Renzi — a Itália também está com um PIB ao nível de 2002 —, mais se justifica que se prepare o país para uma eventual dissolução do euro ou para uma saída unilateral por vontade própria ou exigida. Acresce que não está fora do horizonte a possibilidade de uma nova crise financeira que tudo precipitaria. (…)

Por isso, encarando todas as eventualidades, é um imperativo nacional a redução dos contratos da dívida externa não tituladas em direito português que representará cerca de 25%. A dissolução negociada do euro seria a melhor solução para a Europa e para Portugal, encontrando-se depois formas de cooperação monetária muito mais realistas e progressistas, mesmo na fase do necessário e apertado controlo do movimento de capitais. (…)

Mas mesmo com a resolução da questão do euro, se não resolvermos o problema da dívida, esta regressará de novo, bem como a pressão sobre os salários, pensões e “Estado social”.

Queremos ter mais 16 anos de estagnação, troikas, chantagens e tutelas?

Queremos uma marcha forçada, à margem dos povos, sem consultas populares e sobretudo sem referendos para uma Europa ainda mais supranacional, com órgãos não eleitos, como o BCE e a Comissão a sobreporem-se às instituições nacionais com legitimidade democrática? Então não se espantem que os povos venham a desprezar os “eleitos” e a correrem com eles. Nem sempre na boa direcção.»

(*) Recordo que, mesmo os não assinantes do Público, sem acesso ao jornal a partir deste blogue, podem tê-lo copiando o respectivo url para uma janela privativa (ou algo com outra designação semelhante) em qualquer browser do Windows. 
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19.12.16

19 de Dezembro – Piaf e O’Neill



Pouco terá havido em comum entre Édith Piaf e Alexandre O'Neill, excepto que no dia em que Alexandre nasceu Édith festejou o seu nono aniversário, já pelas estradas de França com os pais, em circos itinerantes, depois de uma aparente cegueira cuja cura foi atribuída a um milagre de Santa Teresa de Lisieux.

Ambos nasceram a 19 de Dezembro (de 1915 e de 1924), ambos foram grandes e todos os pretextos são bons para os trazer de volta. 


De O'Neill:

A história da moral

Você tem-me cavalgado
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.

Alexandre O'Neill, De Ombro na Ombreira, 1969


E este excerto inesquecível de Portugal:

«Ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!»


Quanto a Piaf, escolher é sempre difícil. Uma das mais belas canções sobre Paris e outra das minhas preferidas desde sempre:




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Marcelo e a Cornucópia



Resta agora saber se Marcelo esquece e «passa à frente» (é o mais provável), ou se tira algum coelho da cartola. Talvez não lhe fizesse mal ficar mais tempo sossegado no palácio cor de rosa de Belém, em vez de andar por aí a espalhar ventanias e a criar confusões.


«O ministro da Cultura foi esta segunda-feira de manhã um dos intervenientes no Fórum que a TSF dedicou à situação do Teatro da Cornucópia, cuja extinção foi dada a conhecer na sexta-feira e que, 24 horas depois, naquele que fora anunciado como o seu espectáculo de despedida, viu o Presidente da República abrir uma janela para novas negociações.
Aos microfones da rádio, e contrariando o que parecia ser uma possibilidade depois da intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa antes do recital de poesia deste sábado, Luís Filipe Castro Mendes garantiu que não é intenção do governo criar um estatuto de excepção para a companhia liderada pelo actor e encenador Luís Miguel Cintra.»


Esclarecimento do Teatro da Cornucópia (publicado esta tarde no Facebook)

Perante a lamentável confusão gerada nos órgãos de comunicação social pela inesperada visita do Senhor Presidente da República ao Teatro da Cornucópia, vemo-nos forçados a esclarecer a presente situação.

Ao longo dos muitos anos de dependência financeira do Estado, reivindicada como indispensável, várias vezes afirmámos em pedidos de subsídio e relatórios, que as verbas concedidas eram insuficientes para o projecto de, ao nosso modo, fazer teatro.

Quando essas mesmas verbas atribuídas para financiamento das estruturas sofreram sucessivos cortes e tendo elas há três anos chegado a um valor visivelmente insuficiente, vimo-nos obrigados a rever escolhas de programação e respectivas formas de produção, de modo a sempre viabilizar os nossos projectos. As co-produções bem como alguns apoios pontuais como os da CML e dos Amigos da Cornucópia, contribuíram para a sustentabilidade do funcionamento do Teatro da Cornucópia.

Antes do cumprimento do último ano do quadriénio a que estávamos vinculados, considerámos já a possibilidade de o não praticar, por considerar que era já difícil o seu pleno cumprimento. Mas insistimos em continuar. A evidência, porém, da situação limite das nossas possibilidades de assegurar, neste quadro de financiamento, o cumprimento de novos projectos e tal como dissemos na divulgação do espectáculo apresentado neste último sábado, considerámos como incontornável o fecho da empresa Teatro da Cornucópia.

Tinha já sido esta a decisão, anteriormente, comunicada informalmente ao Secretário de Estado da Cultura e que mais tarde foi a razão da reunião havida no fim de Outubro no Palácio da Ajuda, com a presença de uma representante da CML. Foi então por nós levantada a questão que se prende com a CASA, edifício excepcional que ocupamos e onde sempre trabalhámos. Com tudo que ele contém. Exprimindo um desejo de que pudesse ser aproveitado para fins culturais, não deixando que esse património viesse a constituir somente um valor capaz de colmatar indemnizações aos trabalhadores, a única dívida que a empresa que se extingue não tem porventura capacidade de resolver. Entendemos que de momento a intenção do Ministério é a de assegurar um ano de renda no sentido de se proceder a um inventário rigoroso do património.

Na véspera do passado Sábado (Recital Apollinaire e lançamento do segundo Livro do Teatro da Cornucópia/Espectáculos 2002-2016 e de um DVD) foi-nos comunicada a visita do Senhor Presidente da República, que, antes do espectáculo, queria inteirar-se da situação.

Desse momento, surgiu um tema que se prende com a questão de um estatuto de excepção para o Teatro da Cornucópia, capaz, talvez, de viabilizar a sua continuidade. Surgiu o equívoco de que poderíamos mudar de opinião. O que levou o Senhor Ministro da Cultura, também presente, a admitir que o tivéssemos feito. E parece não se ter restabelecido a única versão correcta que existe, porque infelizmente a dúvida já não se põe: o Teatro da Cornucópia acaba no princípio do ano, na realidade já acabou. Com a mudança do Governo, a situação não se alterou. Disse o Senhor Ministro que o assunto estava a ser acompanhado, estudado. Haverá por isso um próximo encontro com os representantes do Ministério da Cultura.

Não se tratará, portanto, agora de um estatuto de excepção, porque somos provavelmente excepção. A empresa dissolve-se nos próximos dias, dependendo apenas de procedimentos legais que terá de cumprir.

Às pessoas que elegemos para nos governarem e que se dispõem a ouvir-nos, não nos passa pela cabeça mentir. Para com eles, para com todos, mantivemos sempre as mais leais relações. Assim foi, assim será.

Pelo Teatro da Cornucópia,
Luis Miguel Cintra e Cristina Reis
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Os deuses da Grécia



«Despojada das suas velhas glórias (ser o farol da democracia ou o exemplo máximo da ética e da moral), a Europa passa a vida a apresentar queixas e culpados diferentes para os seus erros.

Julga-se uma deusa intocável e transformou o euro numa fé inquestionável. Por isso quem ofende os deuses de Bruxelas ou Berlim parece estar condenado às trevas eternas. É o caso da Grécia. A última reunião do Eurogrupo foi inspirada na história helénica. O tambor do "justiceiro" Wolfgang Schäuble voltou a ecoar. De fora escutou-se o FMI a pedir mais austeridade a um país anémico. Tudo porque Alexis Tsipras julgou poder retribuir algum esforço aos reformados gregos com um bónus neste Natal e supôs que era legítimo não aumentar o IVA nas ilhas do mar Egeu que têm carregado aos ombros o peso de receberem milhares de refugiados. Nada disso importa para as cegas e surdas autoridades de Berlim e Bruxelas.

Tal como os seus antecessores históricos, Tsipras está condenado para sempre. Prometeu foi acorrentado no cume do monte Cáucaso para que uma águia dilacerasse o seu fígado durante 30 mil anos. Sísifo teve de empurrar uma roda (que voltava sempre ao ponto de partida) até ao cume de uma montanha. As suas tarefas eram impossíveis. As de Tsipras também.

A Europa continua a alimentar alegremente os filhotes do populismo. A austeridade é um dogma, mesmo que isso implique a destruição económica e social e o surgimento dos extremismos políticos.»

Veremos como reagirá esta Europa esquizofrénica ao "boom" económico prometido por Donald Trump, contra a ideologia da pobreza e das "desvalorizações internas" que se tornaram o dogma de Bruxelas. E que tornaram a vida no Sul da Europa, a fronteira que tem filtrado e sido a trincheira da emigração que vem de África, um inferno. A Europa parece querer implodir por acção de quem se julga a voz dos deuses. É por isso que António Costa, sensatamente, não quer discutir agora a reestruturação da dívida. Com estes dirigentes, a conversa é de surdos. Até chegar Le Pen e Beppe Grillo.»

Fernando Sobral

A morte saiu à rua num dia assim

Desenho de Dias Coelho

José Dias Coelho tinha 38 anos e era membro do PCP na clandestinidade quando foi assassinado pela PIDE, no dia 19 de Dezembro de 1961, junto ao Largo do Calvário, em Lisboa, numa rua que tem hoje o seu nome. Que a memória destes factos não seja apagada

Zeca Afonso dedicou-lhe A morte saiu à rua.


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18.12.16

Quando Portugal deixou de ser indiano



Foi na manhã de 17 de Dezembro de 1961 que tiveram início as operações militares que levaram à ocupação da cidade de Pangim, capital de Goa, na noite do dia seguinte. O «império português» levou então uma grande machadada com a anexação de parte do seu território pela União Indiana.

Os factos são conhecidos mas vale talvez a pena recordar o célebre discurso que Salazar fez na Assembleia Nacional, em 3 de Janeiro de 1962 (*). É um longo elogio (de 24 páginas A5...) ao «pequeno país» que manteve o seu território «com sacrifícios ingentes», ignorados e combatidos por quase todos e, antes de mais, pela ONU, desde sempre objecto de um ódio muito especial.

Ficam algumas passagens a começar pela primeira frase do texto: «Não costumo escrever para a História e sinto ter de fazê-lo hoje, mas a Nação tem pleno direito de saber como e porque se encontra despojada do estado Português da Índia». Mais: «Não sei se seremos o primeiro país a abandonar as Nações Unidas, mas estaremos certamente entre os primeiros. E entretanto recusar-lhes-emos a colaboração que não seja do nosso interesse directo.» Há que perguntar se vamos no bom caminho «quando se confiam os destinos da comunidade internacional a maiorias que definem a política que os outros têm de pagar e de sofrer».

Amplamente conhecida é a frase que encerra o discurso: «Toda a Nação sente na sua carne e no seu espírito a tragédia que se tem vivido, e vivê-la no seu seio é ainda uma consolação, embora pequena, para quem desejara morrer com ela.» Trágica e heróica como o seu autor.


(*) Estava afónico «com as emoções das últimas semanas» e quem o leu, de facto, foi Mário de Figueiredo.
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Dica (460)



The Narcotic of Trump. (Timothy Egan) 
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Marcelo, criador de passados



Já em tempos escrevi, neste blogue, um texto com esse título. Confere.

Em visita, ontem, à Cornucópia, o presidente disse que sempre acompanhou aquela companhia de teatro, tendo assistido à sua abertura, com a estreia de «O Misantropo». Hoje, no Facebook, Jorge Silva Melo, fundador da Cornucópia juntamente com Luís Miguel Cintra, escreve isto: 
«O Marcelo diz que foi à estreia de "O Misantropo" em 1973? Hã? Ca mentiroso, jasus. É que era eu que tratava dos bilhetes, tenho memória infalível, era a nossa estreia e sei lindamente quem foi (muitos já morreram...) e quem não foi. Viste-o por lá, ó António Costa? E a tua mãe e minha amiga Maria Antónia?»

Não havia necessidade? Para o comum dos mortais, não. Para Marcelo, havia, há sempre.
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