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27.7.17

Templos budistas e não só (5)



Wat Xieng Thong. Luang Prabang, Laos (2009).

Wat Xieng Thong (ou Templo da Cidade Dourada) é um dos mais importantes complexos budistas do Laos, com mais de vinte estruturas, para além de jardins com árvores e flores. Construído em 1559-1560, foi sendo aumentado e restaurado, nomeadamente já no século XX com uma ajuda especial da França.



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O fogo e o gelo



«O que mais custa em tudo isso é que o país arde. Está a tornar-se cinza. Com as consequências terríveis, em termos ambientais, humanos e económicos, em que isso se traduz. Estamos a pagar caro o fim da nossa relação com a natureza. Deixámos de dialogar com ela. E as políticas de retirada do interior do país, alimentadas nas últimas décadas, selaram este triste destino. Acabámos com os guardas-florestais, centralizámos nas grandes cidades e nos gabinetes os serviços ligados à agricultura ou à floresta. Fechámos os serviços públicos (de escolas a centros de saúde) que davam oxigénio ao interior. Não foi só a inexistente política florestal que chacinou o nosso contacto com a natureza.

Numa das suas belas poesias, Ruy Belo escreveu: "No princípio de tudo o coração/como o fogo alastrava em redor/uma nuvem qualquer toldou então/céus de canção promessa e amor/Mas tudo é apenas o que é/levanta-te do chão põe-te de pé/lembra-te apenas o que te esqueceu." Perdemos a ligação à natureza e devotámos a nossa fé na tecnologia. A desertificação florestal do interior começou com o fim da presença do Estado no interior. Agora não há gelo que apague o fogo. Só resta este insulto moral à dor nacional que muitos cavalgaram como valquírias dispensáveis. Como se gostassem do cheiro do napalm pela manhã.»

Dica (595)



Donald Trump, CEO (Lucy P. Marcus) 

«Suppose that a company’s board is seeking a new CEO. After an agonizingly long search, its members decide to go with a newcomer to the industry, claiming that the candidate will make the firm the market leader again. And, indeed, the new CEO shows up with big plans, spending the first six months dismantling and castigating past policies and practices, sometimes without rhyme or reason.» 
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O velho foi à viola



«Segunda-feira, 27 de Julho de 1970. Um inusitado toque de clarim interrompe a rotina matinal na prisão de Caxias.
Um toque diferente, desconhecido, num tom lamentoso que não lhe conhecíamos.
Numa cadeia, ganham-se mil ouvidos: habituamo-nos aos sons ciciados da chegada de um novo preso, ao esforço de distinguir qual a cela onde o colocam (da parte da frente, com o rio ao longe? Da de trás, tendo como única visão o muro e as pernas do guarda republicano andando nele?), à frase «Prepare-se para ir à António Maria Cardoso», que pode significar, para aquele a quem é dita, uma sessão de tortura, seja a pancada, o sono ou a estátua, o seu regresso («Quantas horas passou em interrogatórios? Quantas noites?»), à tosse que anuncia esse regresso, ao assobio longínquo de um camarada, identificando-se com uma canção comum (no nosso caso, uma coladera), até às crises de asma de alguém que necessita socorro, numa cela próxima. Então, um toque de clarim, a uma hora inabitual, desperta de imediato a atenção e a ansiedade.

Lá em baixo, na guarita, o jovem guarda republicano olha, também ele, o lado de onde o som surgiu. «Que toque é este?», perguntamos-lhe, gritando. Olha-nos e encolhe os ombros. Não como quem não quer responder à pergunta gritada por aqueles que tem o dever de guardar, mas como quem não sabe. E ouvimo-lo repetir a pergunta para a guarita seguinte: «“Que toque é este?» Do outro lado chega uma resposta, para nós inaudível. Mas o jovem ouve-a e repete-a para nós: «“É o toque dos mortos!» Para que, numa cadeia, toque o clarim por alguém que morreu, é que esse alguém é pessoa de importância. E a ansiedade e a curiosidade crescem. Gritamos, de novo, para o guarda: «E quem é que morreu?»
Tal como da primeira vez, ele repete, para a guarita seguinte, a nossa pergunta. E tal como da primeira vez, a resposta escapa-nos. Mas – tal como da primeira vez – o jovem que nos guarda logo no-la repete: «Foi o velho! O velho foi à viola!»

Não houve necessidade de perguntar mais nada. O «velho» com direito a clarim só podia ser um: Salazar. E logo nos abraçámos a rir, enquanto ouvíamos, vindos de outras celas, gritos de regozijo. Que a morte, tantas vezes desejada, do ditador, nos fosse anunciada pelo jovem que devia guardar-nos aumentava a ironia da notícia.
A cadeia explodiu em gritos, risos, murros nas paredes, comunicando de cela em cela, na velha caligrafia prisional – «Um toque é “a”, dois são “b”, três “c” e por aí adiante…» – a morte do antigo Presidente do Conselho.
Os mais lúcidos lembraram que já havia outro, Marcelo Caetano. Mas, nesse dia, a alegria prevaleceu. Mesmo quando a visita foi cancelada, mesmo quando nos cortaram os minutos de música diária, porque «o país está de luto». «De luto?», respondemos nós. «O vosso talvez esteja, o nosso país está em festa!»

E, desafinadas ou não, ergueram-se as vozes dos presos e ouviram-se pela Cadeia, nesses minutos sem música, canções de resistência.»


(Publicado no nº 26 da colecção Os anos de Salazar/ O que se contava e o que se ocultava durante o Estado Novo, coordenada por António Simões do Paço.)
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26.7.17

Templos budistas e não só (4)



Nikkō Tōshō-gū. Nikkō, Tochigi, Japão (2006).

Nikkō Tōshō-gū é um templo xintoísta que se insere num conjunto absolutamente impressionante de Santuários, que é patrimônio mundial da UNESCO. Começou a ser construído em 1617, foi-se expandindo, alguns dos elementos do santuário foram por vezes destruídos parcialmente pelo fogo e reconstruídos ao longo dos séculos. 



Dica (594)




«Emmanuel Macron is a Silicon Valley-loving, union-hating, Third Way centrist. He’s no bulwark against the far right.» 
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A lógica do mestre André



«A propósito de uma entrevista que André Ventura deu ao jornal i, com considerações polémicas sobre a comunidade cigana, alguns jornais repescaram um artigo que o candidato do PSD à Câmara de Loures (entretanto o CDS retirou-lhe o apoio) escrevera no Correio da Manhã sobre o atentado de Nice, no ano passado. Para Ventura, no combate ao terrorismo islâmico "é fundamental reduzir drasticamente a presença e a dimensão das comunidades islâmicas dentro da União Europeia", porque "qualquer um, de raízes muçulmanas ou convertido, se torna uma potencial ameaça".

Uma vez que o autor não explicou como é que essa "redução drástica" se faria, o leitor fica na dúvida: ou Ventura se está nas tintas para resolver o que quer que seja ou acha que os países europeus deveriam iniciar um processo de perseguição e deportação em massa de muçulmanos, mesmo se cidadãos cumpridores das leis (porque "qualquer um" é "uma potencial ameaça"), e que isso, por algum milagre ou acaso, traria paz e redenção civilizacional à Europa.

Aposto na primeira hipótese: Ventura não anda na política para ajudar ninguém, mas só para ganhar votos. E, para esse objectivo, qualquer táctica serve. Foi por isso que criou a figura do "tipo que diz as verdades", "aquilo que toda a gente pensa e ninguém tem coragem de dizer". É a velha manha populista de espicaçar os ressentimentos e inseguranças do eleitorado, passando por cima da complexidade dos problemas e prometendo soluções finais que não são solução para nada. Quem aprecia a táctica pode ver como está a correr a presidência de Donald Trump, a mais inútil e desastrada de que há memória. (...)

Sobre os ciganos, o candidato recorre ao mesmo simplismo: pega num problema real (o modo de vida anti-social de muitos elementos da comunidade cigana) e, em vez de propor qualquer via de acção minimamente plausível, atira-se à "etnia cigana" como um todo, definindo-a como o inimigo (aqueles que "se acham acima das regras do Estado de Direito").

Ao contrário do que muitas vezes se diz, a polémica em torno dos populistas não é sobre as causas; é sobre as soluções. Não é sobre a existência ou não de barris de pólvora sociais; é sobre se queremos um pirómano a guardar os barris de pólvora.» (Os realces são meus.)

Francisco Mendes da Silva
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E quanto à lenda da batalha de Ourique…



… nunca alguém saberá se os deuses estiveram do lado de Afonso Henriques ou do Reino de Leão…


«A batalha de Ourique, tenha ou não ocorrido conforme as lendas e tradições indicam, tem no entanto a maior importância histórica porque ela marca o início de uma lenda que suporta e justifica mais tarde o direito de D. Afonso Henriques a declarar-se Rei de Portugal, garantindo assim definitivamente a separação de Portugal do Reino de Leão. (…)

O futuro rei, terá tido uma visão na véspera da esperada batalha, em que um eremita e depois o próprio Jesus Cristo terá aparecido e profetizado que D. Afonso Henriques sob o sinal da cruz, seria Rei, e que o seu reino se expandiria pelos lugares mais estranhos e recônditos do mundo, para espalhar a fé cristã e a palavra de Cristo.»
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A tosse convulsa



«Um dos mais esquecidos escritores portugueses, Manuel Laranjeira, viu como poucos, no início do século XX, os dilemas do nosso país: "O mal da sociedade portuguesa é apenas este - a desagregação da personalidade colectiva, o sentimento de interesse nacional abafado na confusão caótica dos sentimentos de interesse individual." Ler o que escreveu há mais de um século é entender o que estamos a observar nestes dias em que o fogo vai calcinando o que resta do verde nacional, a cor da esperança e do mar que ocupa a nossa bandeira. Pode ser simbólico: mas o verde destruído nas terras do interior é o calcinar da esperança nacional. Face a isso assiste-se a uma libertina ocupação indígena: caçar culpados fáceis, para que alguns possam dormir descansados enquanto o fogo destrói todas as promessas de reformas florestais. Porque, por este andar, no final do Verão pouco restará. O suspiro de fadiga constante do deputado Hugo Soares diz tudo sobre o país: "O Governo tem 24 horas para tornar pública a lista nominativa das pessoas que perderam a vida na tragédia Pedrógão Grande e esclarecer quais foram os critérios." Só faltou o deputado apontar o dedo anunciando o apocalipse se o Governo não divulgar os nomes. Assim ameaça. É a chamada bolha de marmelada. Se rebentar, encherá toda a gente de doce. Incluindo o próprio. (…)

A transparência desde o primeiro minuto teria dado muito jeito para se evitar este momento digno de uma feira ambulante, onde em vez de carrinhos de choque se utilizam vítimas. Este momento de tosse convulsa em que se transformou o debate político (chamemos-lhe assim por bondade suprema) merece lágrimas. Pelo meio, o debate sobre o futuro da floresta perdeu-se entre o Lobo Mau e a casa frágil dos três porquinhos. O verde desaparece, torrado, enquanto a classe política lisboeta toca violino.»

25.7.17

Templos budistas e não só (3)



Templo do Céu (Tiantan Park). Pequim, China (2003).

Trata-se de um conjunto de templos taoistas, o maior da China. Quase todo construído durante a Dinastia Ming, a partir de 1420, foi considerado Património da Humanidade pela UNESCO em 1998. Inclui a Sala de Oração pelas Boas Colheitas, o Altar Circular e a Abóbada Imperial Celestial. Ocupa uma área muito extensa (quase 3 milhões de metros quadrados), sendo a maior parte coberta de vegetação.


Nunca pensei ter «saudades» de Luís Montenegro!


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Hugo Soares: já passaram 24 horas!



PSD dá 24 horas ao Governo para divulgar lista de Pedrógão.

Alguma notícia de enforcamento? Duelo? Assassinato?
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Dica (593)




«O turismo é uma importante atividade económica, garante emprego e exportações. Por isso não se questiona, apenas se promove. Foi essa a prática do Governo PSD/CDS mas também do atual, bem como dos presidentes das câmaras de Lisboa e Porto. Todos preferem recolher os frutos imediatos do turismo desenfreado que promovem de forma acrítica, sem preocupações de longo prazo. Como em qualquer monocultura, a especialização no turismo massificado é um erro que pagaremos muito caro no futuro. (…)

Boa política económica ou local não é fomentar um negócio de monocultura, por mais resultados imediatos que dê, sem olhar a consequências futuras. Não é colar uma etiqueta "de charme", competitiva, ou outra que ajude a vender a cidade-produto. Boa gestão política requer, às vezes, precisamente o contrário: encontrar mecanismos inteligentes para refrear as bolhas que insuflam, com a responsabilidade de sabermos que um dia rebentarão.» 
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Teresa Leal Coelho e CML: não acertam uma!



«Onde se POSSA», minha senhora, «Onde se POSSA»! 
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Eu já tive namoradas de todas as cores

«Há um momento de viragem em qualquer debate sobre racismo, comunidades minoritárias ou culturas diferentes: é quando o último argumento de autoridade é que “eu até tenho amigos pretos”. É no que estamos na defesa do candidato racista do PSD em Loures. Mas já ouvimos essa escapatória muitas vezes, não é verdade?

Voltemos um pouco atrás. Este argumento dos “amigos pretos” não é o primeiro, ele tem de ser poupado para quando for desesperadamente necessário para restabelecer a normalidade do orador, sobretudo se se sentir suspeito de deriva envergonhante. Antes dessa evocação dos amigos fora de portas, veio a substância: os outros, os “pretos”, comportam-se de modo inaceitável ou têm hábitos ou atitudes que contrastam com as “nossas” e portanto devem ser disciplinados.

Assim, o argumento, no início, é só que eles são diferentes. A norma não aprecia esse atrevimento da diferença e o nosso argumentador amofina-se com o incómodo assim causado. Portanto, o estado natural da sociedade, que é só o que o nosso homem reconhece como padrão, poderia ser perturbado se alguém tivesse outra cor de pele, ou comesse de forma diferente, ou ouvisse música de forma diferente, ou rezasse a um deus diferente. A estranheza desses hábitos suspeitos só pode ser superada pela integração niveladora: eles devem passar a falar como nós, a rezar ao nosso deus e a ouvir a nossa música. Eles precisam de deixar de ser diferentes, pela razão mais elementar, isso chateia.

É aqui que aparece o “amigo preto”. Se o incómodo com os outros contrasta com a noção mais simples da vida humana, ou se descobrimos que estamos sempre confrontados com outros, que na mesma cor de pele há deuses diferentes e que nem se apreciam, que na mesma religião há cores de pele diferentes, que na mesma língua há gente que tem hábitos e culturas diversas, que no nosso prédio e na nossa família há modos de ser distintos – se a diferença se impõe porque é a vida, então é preciso lembrar o “amigo preto”.

A evocação desse amigo diferente é precisa por uma única razão: o problema é o argumentador, não é só o argumento. É ele que se sente com falta de legitimidade. Por isso, se for suficientemente hiperbólico, haverá quem, para defender o dito candidato do PSD, encha o peito e solte que “por ter crescido ali, tive e tenho amigos negros, mulatos, muçulmanos, tive namoradas de todas as cores. Só não tive namoradas ciganas porque os irmãos tinham a tendência para contra-argumentar com a navalha.” Há nisto um macho-alfa que não deixa de ser encantador, ele já teve “namoradas de todas as cores”, fez a colecção completa no álbum das cores. Mas faltam-lhe as “namoradas ciganas”, num indiscreto plural, e não é porque elas não quisessem, é por causa das navalhas dos irmãos. Fecha-se o ciclo do “amigo preto” com as “namoradas de todas as cores” e a excepção vergonhosa das ciganas, coitaditas.

O discurso do “amigo preto” e das “namoradas ciganas” é a voz da ralé política da nossa sociedade. Ignora tudo: ignora a discriminação histórica, ignora o desprezo cultural, ignora a exploração das comunidades imigrantes, ignora a degradação económica e a marginalização dos nómadas. Mas, pior, ignora quem se esforça: ignora os mediadores ciganos que respeitam a identidade da comunidade e transformam a sua vida, ignora os professores que ensinam e protegem as crianças, ignora os casamentos por amor, ignora quem prosseguiu os seus estudos, ignora quem assumiu responsabilidades no país.

Um cigano que joga na selecção nacional de futebol faz mais pela nossa democracia do que todas as paletes de candidatos xenófobos e os seus advogados namoradeiros.» (Os realces são meus.)

Francisco Louçã

24.7.17

Templos budistas e não só (2)



Templos de Bagan. Birmânia (2009).

Foi de balão que vi as ruínas de Bagan – uma experiência inesquecível! Os templos ocupam 41 km2 e foram construídos entre o século XI e o XIII, quando Bagan era a capital do império birmanês. Julga-se que chegaram a ser 5.000, em 2014 foram oficialmente quantificados em 3.312. A região é sujeita a sismos e o maior dos últimos tempos, de 1975, provocou grandes estragos. Em 2016, um outro atingiu 185 templos. Em Bagan, a restauração é uma actividade contínua…



Dica (592)




«A ideia, que tantos martelam nos media, de que é "preciso" defender uma "liberdade de expressão" entendida como a liberdade de um discurso discriminatório que atente gratuitamente contra a dignidade de indivíduos ou grupos não é só uma ideia estúpida e desonesta nos tempos em que esse discurso domina, com toda a virulência, as caixas de comentários e as tais "redes sociais". É uma ideia contrariada pela própria Constituição e pela Carta Europeia dos Direitos Fundamentais, pactos escritos da nossa comunidade que valorizam mais (e bem) a dignidade humana - portanto a liberdade de ser - que a liberdade de dizer. Porque o nosso princípio básico civilizacional é o respeito mútuo, a ideia de que o outro vale tanto como eu, tem os mesmos direitos, é igual a mim. Não tenho por isso o direito de o agredir a não ser em legítima defesa; não tenho porque sentir-me agredida pela sua mera existência. Esse sentimento, o de alguém se sentir ameaçado pelo que considera outro, é que é uma anomalia. Alimentá-lo, credibilizá-lo e tentar lucrar com ele é a negação de tudo o que estamos a tentar construir desde Auschwitz.» 
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Marques Mendes, ainda



Marques Mendes: «Seja cigano, seja muçulmano, seja um português qualquer normal» (Telejornal da SIC, 23.07.2017)

Um «português qualquer normal» mede hoje, em média 1,73cm.
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24 de Julho, Moçambique e caranguejos



Morei durante toda a minha infância na Av. 24 de Julho – na antiga Lourenço Marques, entenda-se. Enquanto aprendia todos as estações e apeadeiros da Linha do Norte na «Metrópole», ouvia falar do frio no Natal e fazia redacções sobre as latadas no Douro.

O nome da rua devia celebrar o dia em que Patrice Mac-Mahon presidente da França, declarou, em 1875, que a Ilha da Inhaca (e a dos Elefantes) era território moçambicano e, portanto, português, numa acção de arbitragem entre o governo britânico e o de Lisboa. Mas suspeito que vivi nove anos a comemorar a entrega de Lisboa ao Duque da Terceira, em 24 de Julho de 1833, pelo Duque de Cadaval, antigo primeiro-ministro do rei D. Miguel.

Vingança consumada: foi em Inhaca que comi os melhores caranguejos do mundo, quando voltei a Moçambique há 15 anos. 
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Marques Mendes no seu melhor



«Num comunicado raro, o Instituto Nacional de Estatística ataca fortemente o "Conselheiro de Estado e comentador" por ter antecipado [ontem] em primeira mão uma taxa de desemprego publicada há um mês. (…)

Para que se perceba as consequências da falsa antecipação de Marques Mendes, o INE diz que "estas afirmações podem afetar negativamente a confiança da opinião pública sobre a forma como o INE exerce a sua missão de serviço público"» 
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Culpabilização nacional: um populismo



«Agora que vai esfriando uma parte da demagogia que se alimentou do dramático incêndio em Pedrógão Grande e do ridículo roubo de armas numa unidade militar, talvez se justifique um olhar introspetivo sobre a forma como a nossa sociedade transforma dramas e problemas num espetáculo de que muitos se aproveitam inescrupulosamente. Tudo serve para criar um reality show, inclusive para retirar dividendos políticos e para aparecer teatralmente nas imagens da televisão com ares de sofrida piedade, à custa da dor de outros. Há algo estruturalmente errado e insensível no nosso país.

Os portugueses adoram os dramas e as crises em que possam treinar essa sublime capacidade que, em esquizofrenia coletiva, consiste em desesperadamente culpabilizar alguém, torturar alguém no pelourinho público sob os holofotes da comunicação social, exigir responsabilidades (naturalmente, “até às últimas consequências”), destruir imagens e respeitabilidades, linchar, assassinar o carácter de alguém em público, exigir demissões, julgar na rua e condenar, num país que, desta forma, não é um Estado de Direito. (…)

Perde-se a serenidade e mesmo a sanidade. Políticos e comunicação social pressentem uma imediata predisposição popular para uma nova telenovela dramática que prenderá as atenções do país durante algum tempo, e imediatamente cavalgam a corrente onda de demagogia fácil. É um “Populismo à Portuguesa”. Mas é também uma patologia que seria mais adequada a um qualquer país culturalmente atrasado. (…)

Aparecer nos locais dos dramas facilmente rende visibilidade nas televisões. Toda esta coreografia de vaidades, interesses políticos e interesses mediáticos é, afinal, parcialmente assente na indireta exploração da dor e dos dramas reais de outros. Para muitos, este espetáculo reality show configura um pequeno período de êxtase de visibilidade pública. Resta saber se tudo isto, à custa de sofrimento de alguns, é moral. (…)

Esse facto concorre para se compreender como o nosso país é tão facilmente submergido por ondas de demagogia que pretendem ganhar dinheiro e lucros políticos com dramas, erros e desastres, cavalgando o que todos eles pressentem estar a mobilizar popularmente. Por isso, por definição, esta é uma demagogia populista.

Em momentos de delírio demagogo, culpabilizador e inquisitorial, torna-se perigoso cultivar a lucidez e a independência de espírito e de análise. Mas nenhuma sociedade é inteligente, civilizada e arrojada quando segrega o medo de se manter a lucidez em lugar da fácil demagogia. (…)

Um último comentário sobre a primitiva crença nacional que consiste em acreditar na vantagem de “ondas de demissões”. Só quem nunca liderou, e não sabe liderar, não compreende que, depois de um grande erro cometido, provavelmente a pessoa mais preparada para evitar esse erro no futuro é quem o cometeu, se tiver tido a inteligência e a humildade de reconhecer e aprender com o erro. E no que refere ao conceito duvidoso (mas mediático) de “retirar consequências políticas” (isto é, demissões teatrais que o país do reality show adora), imagino já que, se o superior de alguém que errou se demitir, subsequentemente o mesmo deverão fazer o superior daquele, o ministro, depois o primeiro-ministro e o Presidente da República que os empossou ou os manteve em funções. Demissões em cascata, “retirando consequências políticas”. Seria uma irracionalidade (ou, quem sabe, uma singular oportunidade para reinventar o país?).»

23.7.17

Templos budistas e não só (1)




Wat Phra That Doi Suthep, Chiang Mai, Tailândia, 2012.

É um dos templos budistas mais importantes do Norte da Tailândia, que começou a ser construído em 1386 no alto de uma montanha, a pedido do Rei Kuena. Conta a lenda que esse rei tinha uma relíquia de Buda sem saber onde a guardar. Atou-a a um elefante e esperou para ver onde ele a colocava. O elefante subiu a uma montanha, ajoelhou-se e morreu. O rei decidiu então que o templo fosse construído nesse lugar. 






Macron: o gozo que isto me dá!

Notícias de um Verão tórrido



No dia 23 de Julho de 1975, este cartaz foi capa do Diário de Notícias.

Juntamente com a cantiga («Força, força, companheiro Vasco»), deu corpo à campanha da 5.ª Divisão, de apoio a Vasco Gonçalves, iniciada quatro dias antes. Foi sol de pouca dura, como é sabido: o IV Governo Provisório caiu em 8 de Agosto, dia em que teve início o V que viria a durar pouco mais de um mês.


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Dica (591)




«Jaroslaw Kaczynski, the most powerful politician in Poland, is the architect of judicial reforms that have drawn massive criticism across Europe. As the Polish government chips away at checks and balances, is it possible the politician could drive the country out of the EU?» 
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A postos para as autárquicas



«Começam a limpar-se as armas para a grande contenda de Outubro. Não é, como nos tempos bolcheviques, uma tomada de diferentes Palácios de Inverno, mas assemelha-se em termos de lógica de poder.

O poder autárquico foi durante muito tempo o músculo das grandes manobras que decorrem em Lisboa. Mas, nestes tempos de mudança, pululam candidatos não-alinhados, desde figuras que regressam como se nunca se tivessem ido embora a estreantes que driblam o poder dos partidos tradicionais. Afinal nada que já não fosse visível em 1901, quando o perspicaz Mariano de Carvalho escrevia: "Os princípios, conforme vulgarmente se diz, foram à carqueja. Por isso mesmo, porque há muito mais questões de homens e de interesses do que conflitos de ideias, os laços partidários são frouxos." Basta ver o número de candidatos que deixaram os seus partidos porque supõem que são mais importantes do que as estruturas onde evoluíram em candidaturas anteriores.

Vai ser interessante verificar o que vai acontecer em Oeiras, no Porto ou em Cascais. Ou em Loures, depois de surgir um candidato conhecido por aparecer na televisão a dizer coisas inenarráveis para um político que não quer ser confundido com um populista. O problema é que parece que o modelo vai vingar, com cobertura dos dirigentes do partido pelo qual concorre. Sabe-se que, na política, o estado de ânimo é decisivo numa campanha que quer ter sucesso. Os eleitores estão cansados, perplexos e irritados. Veja-se Lisboa. Os moradores estão a ser atirados para fora do centro pela pressão imobiliária. O trânsito é caótico e os transportes públicos, deficientes. Que respostas têm os candidatos para este momento explosivo? É preciso dar esperança aos eleitores. Candidatos tristes não ganham eleições. Porque não lideram, não seduzem nem convencem. As opções em Lisboa são frágeis: entre o candidato da cidade postal ilustrado e do "progresso" imobiliário, e uma candidata que quer construir 20 estações de metro (ao arrepio de tudo o que foi a sua política anti-investimento público quando estava no Governo) e outra que esteve desaparecida em combate antes de dizer que não era para ser a escolhida (ficando-se sem perceber quem, entre os anteriores primeiros-ministros do seu partido, era a primeira escolha), que se pode fazer? Ninguém confia em quem não mostre segurança.

Pensemos um pouco sobre as autárquicas, sobretudo porque os eleitos nas cidades, vilas e aldeias são quem está mais próximo dos eleitores. E estes querem resultados. O voto é um contrato público sobre o bem comum. Numa época em que os políticos eleitos são produtos das elites (veja-se Macron ou Trump), apesar de não serem eleitos por elas, e em que se assiste à substituição dos gestores e especialistas políticos e económicos por milionários, financeiros e empresários, porque estas elites querem governar directamente, que resposta dará o poder autárquico a este mundo em mudança? Nas autárquicas escolhe-se com mais facilidade um "homem providencial", aquele que "mostra obra". Tornaram-se questões de homens carismáticos, algo que diz muito sobre o caminho da política nos nossos dias. Já não são as ideias que vencem: é a sua percepção. Talvez por isso estas autárquicas nos vão dizer tanto sobre o futuro político de Portugal.»

22.7.17

«Expresso» ou «Os Ridículos»?



Que aqui fique, para memória futura, este recorte da capa do Expresso de hoje. O dia em que este jornal, que leio há 44 anos, devia mudar de nome e retomar um título antigo: «OS RIDÍCULOS». 

O único fundamento para o título bombástico, que o próprio jornal confirma, é este: uma pessoa, que foi atropelada e não vítima directa de fogo ou de fumo, não foi incluída na lista oficial das 64 vítimas! Oh, escândalo dos escândalos… As vítimas foram 65, não 64! 
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Maduros para um Trump



Daniel Oliveira no Expresso de 22.07.2017:



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Ñecessidades básicas


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Um virtuoso do racismo



«A propósito das declarações homofóbicas de Gentil Martins, médico, ou das declarações xenófobas de André Ventura, dirigente e candidato do PSD em Loures, houve quem ensaiasse uma fuga indiscreta com um protesto contra o “politicamente correcto”, uma espécie de censura que intimidaria a liberdade de expressão dos coitadinhos. Aceitar essa discussão admitiria que se trate de um simples problema de linguagem, quando é uma questão de atitude social e de discriminação que fere porque pretende ferir. Lastimo esse nevoeiro, tanto mais que se conhece bem como os termos mobilizam os significados: se hoje ninguém usa a sério uma expressão do tipo “fazer judiarias”, é simplesmente porque sabemos o que foi a perseguição a judeus ao longo de séculos e que culminou nos tempos da nossa perigosa civilização.

A linguagem deste caso só é interessante porque o dirigente do PSD, tendo provocado uma tempestade política, veio reafirmar a sua posição, amparado pelo apoio de Passos Coelho e da chefatura laranja. Ou seja, fez questão de manter as suas palavras e de as realçar com mais boçalidades (desejar que o primeiro-ministro vá de férias para sempre, o que é que isso quer dizer?). Ele, doutorado em Direito e professor universitário, quer fazer-se notar por ser boçal. É o estilo que faz a sua candidatura, é aí que joga o seu destino. Ele quer ser conhecido no país pelo modo Trump.

A sua defesa pelo PSD é um risco político. O CDS, que agradece esta possibilidade de se apresentar mais o centro, foge da aliança. Mas até se poderia explicar que, na dúvida, os partidos tendem a defender-se: o autarca socialista de Loures, antes da eleição de Bernardino Soares do PCP, já tinha dado alguns passos no mesmo caminho, e o presidente de junta de Cabeço Gordo, do PCP, impediu o funeral de um cigano na sua terra usando qualquer pretexto (e foi defendido pelo partido).

No entanto, o caso de Ventura é de outra dimensão. Fazer-se amado pela extrema-direita (“é um dos nossos”, diz com orgulho o PNR) é um sinal político, aliás prejudicial do ponto de vista eleitoral, mas acho que há muito mais nesta história.

Ventura é um produto de outra escola: do partido, certamente, admito que até dessas juventudes onde se aprende a matreirice e o carreirismo, mas o que determina a sua pose é a televisão e o comentário desportivo onde iniciou a sua carreira pública. É na pesporrência, na ligeireza, no fanatismo que determina os lugares da normalidade no comentário desportivo (há excepções), que Ventura aprendeu a lançar achas para a fogueira. Como os dirigentes dos clubes, Ventura percebeu que, para ser notícia, é preciso saber ser detestável. O facínora é quem vence na comunicação clubística. E o futebol é um bom caminho para a política (esta semana abri a televisão e vi um debate entre apoiantes dos três maiores clubes, dois deles eram dirigentes do CDS, que sabem por onde vai a sua carreira).

Que a grande maioria dos ciganos trabalhe e não depende de prestações sociais (vd. o gráfico), que importa isso para Ventura? Ele já se colocou no mapa nacional, graças à sua exibição xenófoba. Sairá depressa, é certo, a sua derrota nas eleições em Loures é inexorável, mas ele pensa em outros voos. Para isso, só precisa de ficar agarrado a um clube de futebol numa televisão perto de si e ir proferindo uns dislates ofensivos, para que alguém vá reagindo e se fale dele.»

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21.7.17

Casas «deles» - Foram 12


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Dica (590)

A PIDE não faria melhor


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Última Crónica



Por Alfredo Barroso, no jornal «i» de 21.07.2017:

«Habituei-me desde muito cedo a escrever sem rodeios e sem hipocrisia, quer como jornalista profissional quer como cronista político. Foi também assim que participei activamente na vida pública, desempenhando vários cargos políticos depois do 25 de Abril, ao longo de trinta anos. Não seria agora, com 72 anos, que iria tornar-me um cronista convencional, “mainstream”, preocupado sobretudo em não provocar engulhos e peles de galinha.

Quando Mário Ramires e Ana Sá Lopes me convidaram, há meses, para escrever uma crónica semanal no “i” (sem qualquer remuneração dadas as dificuldades financeiras do jornal), aceitei de bom grado, ingenuamente convencido de que o «i» renovado poderia vir a ocupar o espaço deixado vago pelo “Público” há vários anos, quando José Manuel Fernandes sucedeu a Vicente Jorge Silva como director, fazendo o jornal guinar subitamente para a direita, guinada essa que ainda mais se acentuou sob a direcção de David Dinis (que foi, convém não esquecer, um dos fundadores do diário on-line da direita pura e dura, o “Observador”).

O certo é que, ao passar a ler o “i” com mais atenção todos dias (tanto o noticiário político como as inúmeras crónicas de opinião), percebi que estava a colaborar, salvo poucas excepções, num jornal de direita, perdido no meio de uma floresta de escrevinhadores fanáticos, alguns deles de extrema-direita. Não contesto, obviamente, as opções políticas do “i”. Não será em vão que em democracia se proclama, com ironia ou sem ela, a “liberdade de pensamento” - como há dias o fez, num curioso post-scriptum, o director executivo deste jornal.

É verdade que, em quase todas as sociedades democráticas, há jornais diários de quase todas as tendências políticas. Mas, neste momento, não é esse o caso em Portugal, onde abundam jornais de direita (um ou outro de centro-direita) e nenhum jornal diário de esquerda ou centro-esquerda. O que significa que é cada vez mais difícil, para cronistas politicamente de esquerda, encontrar espaços onde publicar os seus textos regularmente. Daí que aceitem escrever em jornais de direita moderada – que, praticamente, são quase nenhuns.

Infelizmente, o “i” está a tornar-se um jornal bastante reaccionário, tentando manter algumas “pinceladas” de esquerda – e eu tenho sido uma delas. Sempre achei, no entanto, que é muito útil a separação de águas: à direita o que é de direita e à esquerda o que é de esquerda, como sucede com os melhores jornais e revistas de outros países democráticos – embora haja vários exemplos intermédios, de centro-direita e centro-esquerda, onde a convivência e a coexistência pacífica são possíveis. Todavia, perante o actual panorama de jornais diários generalistas em Portugal – e pondo de lado o populista e predatório “Correio da Manhã” –, considero que o “i” é, actualmente, o mais à direita dos outros quatro jornais diários generalistas, ou seja, mais à direita que o “Público”, o “DN” e o “JN” – chegando por vezes a querer competir com o “CM”.

Será fácil perceber o desconforto que sinto em colaborar no “i”, desconforto esse que aumentou exponencialmente nas últimas semanas. Decidi, por isso, pôr termo à minha colaboração neste jornal. Agradeço o convite do Mário Ramires e da Ana Sá Lopes, mas não quero continuar a fazer parte do “ornitorrinco político” em que se transformou o “i”.

Sei bem que não será nada fácil voltar a escrever regularmente num jornal diário, mas desejo ser coerente com o meu ideário de esquerda e estar de bem com a minha consciência, preservando a minha autonomia – sobretudo desde que decidi, há dois anos, abandonar o PS (de que fui um dos fundadores em Abril de 1973). Tenho apoiado, como se sabe, várias políticas defendidas pelo Bloco de Esquerda, por concordar com elas. E também é verdade que me tenho batido, há vários anos, por acordos e convergências possíveis entre o PS e os partidos à sua esquerda. Mas nada disso tem beliscado a minha independência política e identidade própria.

Fui jornalista profissional antes do 25 de Abril (nos jornais “A Capital” e “O Século”) e é curioso recordar que, nessa altura, eram os coronéis da Comissão de Censura que, usando e abusando do “lápis azul”, separavam involuntariamente as águas entre os jornais afectos ao regime e os que não estavam dependentes dele nem o apoiavam. Hoje, já não há “lápis azul” mas também não há jornais de esquerda ou centro-esquerda. O dinheiro é que manda. É lamentável.»
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Um PSD de contrafacção



«Acho que foi Trump que inaugurou oficialmente a época em que ser racista, xenófobo, homofóbico, machista, etc, é fugir ao politicamente correcto. Temos de ser compreensíveis para com quem transborda preconceitos. Uma espécie de "até tenho um amigo que é racista.”

Confesso que sou racista com racistas. Até tenho um amigo que é racista mas... Sabem como eles são. Histéricos com aquilo que é diferente e que sentem que os ameaça. Sempre com aqueles trejeitos de apontar com a mãozinha para as minorias. Sempre preocupados com a cor dos outros. Aquilo não pode ser por escolha, é uma anomalia.

O PSD arranjou um paineleiro desportivo, e não tenho nada contra paineleiros, até tenho um amigo que é, que foi politicamente incorrecto para com a comunidade cigana. Chamar politicamente incorrecto ao que disse um tal de André Ventura é contrafacção de xenofobia. Tal como os dados que André Ventura apresenta parecem ser da Pordaca.

A prova de que estas críticas aos ciganos assentam em estereótipos é que já passaram 72 horas e o André Ventura não levou uma naifada. Perante o discurso do candidato a Loures, o CDS-PP chegou-se à frente e resolveu seguir "um caminho próprio no concelho de Loures nestas eleições autárquicas de 2017". Ou seja, trocando por miúdos, e fugindo ao politicamente correcto, deu um pontapé no rabo ao André Ventura. O PSD fez o mesmo. Não, não fez, estava a tentar enganar o leitor. É mais forte que eu, a minha bisavó era cigana e o meu bisavô banqueiro.

O PSD (as siglas significam Partido Social Democrata, de vez em quando convém lembrar), numa perigosa ultrapassagem ao CDS pela direita, continuou a apoiar o tal Ventura. Com mais uma destas, Nuno Melo não aguenta e muda para o PSD. Passos Coelho escolheu continuar a apoiar o Ventura, pelo menos até ele começar a embirrar com as minorias negras de Massamá... Com personagens como este Ventura, o Hugo Soares, etc, o PSD de Passos Coelho ensaia uma espécie de Trumpismo à portuguesa. Hugo Soares, eleito líder da bancada do PSD, é o exemplo de um direito que devia ser referendado.

Atingimos o ponto mais baixo, a bancada do Partido de Sá Carneiro está entregue a um indivíduo que acha que todos os direitos podem ser referendados. Bem sei que podem dizer: não é o pior momento, já lá esteve o Duarte Lima, e o Hugo Soares até tem ar de estimar velhinhas. Aliás, ele, com um lenço na cabeça e aquele discurso, parece uma senhora de idade mas, olhando para todos estes sinais, chegamos à conclusão de que este PSD é de contrafacção. O original não tem nada a ver com isto. Ver o partido de Sá Carneiro a apoiar um candidato com um discurso racista até impressiona a Comissão de Camarate.»

20.7.17

Casas «deles» (12)



Casa de Nacarello. Colónia do Sacramento, Uruguai (2015).

Nacarello foi o morador mais antigo desta casa do período português, hoje transformada num pequeno museu que mostra como vivia uma família em meados do século XVIII. Nas imagens mais abaixo, o interior do museu e outras casas e ruas tipicamente portuguesas. Estas «pegadas» dos portugueses são muito interessantes.

A Colónia do Santíssimo Sacramento foi fundada em Janeiro de 1680 por Manuel Lobo, governador da Capitania Real do Rio de Janeiro, a mando da coroa portuguesa, desejosa de estender o seu domínio, através do Brasil, até ao Rio da Prata. Foram depois muitas as lutas e vicissitudes por que passou até à independência do Uruguai em 1828.