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25.5.17

Transportes «fora da caixa» (4)



Ver nascer o dia, num destes balões, por cima dos milhares de templos de Bagan. Birmânia (2009).
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Há 50 anos?




Dizem que «Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band» foi lançado... há 50 anos. Não é possível: foi anteontem!
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Rocky e Ivan Drago vão ao cinema



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:



Na íntegra AQUI.
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José Mário Branco, 75



Nasceu em 25 de Maio de 1942 e pertence tanto às vidas de muitos de nós que não requer apresentações. Mas «exige-nos» que recordemos aquilo que nos deu, que oiçamos, sempre e sempre, algumas das suas canções, que passaram a fazer parte do tempo que por nós passou. Ver aqui post do ano passado. 
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O país dos Ronaldos



«Segundo parece, o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, classificou Mário Centeno, como o "Ronaldo do Ecofin".

Quando surgem elogios destes, vindos de quem, em momentos críticos, conseguiu sempre causar problemas a Portugal com as suas declarações fora de circunstância e de tempo, é caso para ficarmos com pele de galinha. (…) Até pode ser que Schäuble ache que Centeno pode ser o goleador que falta ao Ecofin, conclave de onde muitas vezes surgiram das mais tenebrosas ideias para afundar os países da periferia europeia. Este elogio a Centeno pode ser, por isso, um doce envenenado destinado a empanturrar de orgulho o ego nacional. (…)

Não há aqui qualquer teoria da conspiração, mas sabemos que Portugal, apesar dos resultados surpreendentes dos últimos tempos, continua a ser visto como uma ovelha negra pelo sector político que é hegemónico na Europa. Se uma imagem capturasse o espírito do tempo, a política portuguesa era o Capuchinho Vermelho. Mas todas as imagens revelam um engano: a avozinha já foi comida pelo lobo e este prepara-se para trinchar o Capuchinho Vermelho. Não falta vontade à Europa da ideologia da austeridade para cilindrar uma alternativa política que vai contra os cânones reinantes. Por isso, o elogio ao país de Ronaldos soa a falso. Como se fosse uma piada básica. Que, em vez de divertir, arrepia.»

Fernando Sobral

24.5.17

Transportes «fora da caixa» (3)



Uma caranguejola muito útil para percorrer as ruas de Luang Prabang. Laos (2009)
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Dica (553)




«Donald Trump has transformed the United States into a laughing stock and he is a danger to the world. He must be removed from the White House before things get even worse.» 
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Avistamentos de Marcelo e de Madonna

E está o mundo entregue a esta besta!


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Parabéns a você nesta data querida



«Com a sua cara de pau, Dombrovskis lá anunciou que a Comissão propõe que Portugal será retirado do Procedimento por Défice Excessivo, sendo a questão submetida como mandam as regras a quem de direito, na valsa lenta que é a burocracia europeia. (…)

Em Portugal festejou-se. O editorial do PÚBLICO até se espantou por não haver multidão no Marquês de Pombal. Mas olhe que houve multidão, só que é a que anda por aí, caro director: uma massa de dirigentes partidários e institucionais veio distribuir congratulações. O Presidente parabenizou, como agora se diz, tanto Costa como Passos e sobretudo, claro está, os sofridos portugueses e portuguesas. Passos adiantou-se em conferência de imprensa a parabenizar o governo, o tal agente do diabo para o dia seguinte, a si próprio e, claro, os sofridos portugueses e portuguesas. O primeiro-ministro fez depois discurso de Estado para parabenizar todos, lembrou como o governo terçou por esta dama, e, claro, os sofridos portugueses e portuguesas. (…)

Há então razões para festejar? Pois. (…) Podem-se contabilizar algumas despesas úteis fora do défice, mas também entramos imediatamente no procedimento por dívida excessiva, nunca saindo da tutela apertada sobre escolhas que deviam ser absolutamente soberanas, como o investimento em saúde e em segurança social, ou em capacidade produtiva e emprego. Talvez Portugal não vá para o Marquês enquanto estiver preso a estes “procedimentos”.

Mas os “procedimentos” tiveram ainda outros efeitos. Subjugaram a elite portuguesa a um discurso desistente: há mesmo quem chame “socialismo” a este mundo de tratados neoliberais e à supranacionalização da decisão política que esvazia a democracia deliberativa. Como não há quem consiga sustentar que a União Europeia é uma união ou um Estado democrático, a palavra “democracia” é esvaziada e substituída por um cerimonial: aquela a que temos direito é Dombrovskis ou Dijsselbloem a darem-nos lições. Assim, a desistência unificou os partidos do centro e da direita na narrativa do ajustamento estrutural; constitucionalizou a renda pela dívida; banalizou as operações de resgate bancário e a protecção da finança; disciplinou a população à austeridade; atacou os sindicatos e outras formas de expressão popular; reclamou o exclusivo da política para a aceitação das ordens de cima.

Por isso, uma sugestão: não tratem o povo como sofridinhos. Fomos as vítimas de uma política cruel, que sabia o que fazia e que alcançou parte dos seus objectivos de desagregação das políticas sociais. Era mesmo para “empobrecer”, como então clamou o parabenizador Passos Coelho. O país ficou mais pequeno e a democracia só recuperou algo nos últimos dois anos. Portugal merece mais do que parabéns e apagar uma velinha, merece a devolução do que nos tiraram.»

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Os muros de Trump


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23.5.17

Transportes «fora da caixa» (2)



À espera de turistas para um passeio no Bósforo. Istambul, Turquia (2011)
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Dica (552)



Um pouco acima de lixo (Paula Ferreira) 

«Quem olha para a notícia como o fim de todos os males da sociedade portuguesa estará, com toda a certeza, equivocado. Nada de estrutural deverá mudar. Bruxelas continua a impor as regras, tal como ficou claro na comunicação feita por Pierre Moscovici, o comissário europeu da Economia. O aviso foi claro. Se não se portam bem, voltam os castigos. Portanto, bem podem os partidos da Esquerda, apoiantes do Governo, exigir que o alívio seja refletido na vida das pessoas, dos que mais sofreram nos últimos anos e graças a eles, como realçaram várias vozes cá dentro e lá fora, foi possível pôr as contas públicas outra vez no bom caminho.
António Costa, se quiser manter o estatuto de bom aluno, terá pouca margem de manobra para responder de forma positiva. Os que recomendaram a saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo foram os mesmos que lembraram ser necessário continuar de cinto bem apertadinho. E o mercado de trabalho estará sempre na mira de Bruxelas, para que não haja veleidades. O aviso está dado: com as medidas previstas, Portugal não cumpre as regras que lhe são exigidas.» 
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Georges Moustaki partiu há quatro anos



Georges Moustaki nasceu em Alexandria, de pais judeus gregos, e morreu em Nice, com 79 anos, em 23 de Maio de 2013.

Em 1951 foi para Paris, trabalhou primeiro como jornalista, mas foi como barman que entrou no mundo da música, onde personalidades como Georges Brassens o influenciaram decisivamente (ao ponto de lhe ter «roubado» o nome, já que nascera como Giuseppe e não como Georges…) Para Édith Piaf escreveu Milord e com ela viveu um curto romance. «Brassens était mon maître, Piaf était ma maîtresse» - terá um dia sintetizado. 

Para nós, ficará sempre esta pérola que nos dedicou:




E tantas outras:




E sempre, sempre eterno: «Le Métèque».




Já não está por cá nenhum destes «monstros sagrados:


 (Ferrat, Brel, Ferré, Brassens e Moustaki)
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O mundo é nosso!


Se Centeno viesse / vier a chefiar o Eurogrupo, só faltaria António Costa ser o próximo Presidente da Comissão Europeia. (Qual Tordesilhas, qual carapuça!) 
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A redenção nacional



«De vez em quando, depois de anos em que se perdeu na floresta dos equívocos, Portugal descobre o caminho para a redenção. Vivemos um desses tempos. Tudo parece correr bem.

Vencemos o Euro 2016, ganhámos o Festival da Eurovisão, o défice nunca foi tão baixo, a economia cresce, a CE propôs o fecho do Procedimento dos Défices Excessivos onde medrávamos aterrados desde 2009. A grande redenção nacional já aterrou demasiadas vezes em Portugal para sabermos que ela tem a validade de um iogurte. Porque, depois da festa, ninguém recolhe as canas caídas no chão e elas ficam ali, como combustível para o próximo incêndio. À falta de ideias estratégicas, usamos as conhecidas fintas da táctica rasca. Foi por isso que Portugal nunca acumulou capital, preferiu importar a criar, viveu sempre do empréstimo e a chorar pelo pagamento do juro em vez de criar meios de se financiar.

Houve até um tempo em que os mais novos eram ensinados a ter um porquinho em casa, onde iam depositando, devagarinho, todas as moedas disponíveis. Só quando estava cheio é que se partia o pequeno suíno. Comprava-se, depois, um novo porquinho, substituíam-se as moedas por notas e volta-se a enchê-lo de moedas. Aprendia-se, assim, a poupar. Hoje esse pequeno e eficaz prazer foi substituído pelo consumo. O valor do dinheiro deixou de existir. Essa falta de capacidade de poupar em momentos de alguma riqueza aliou-se sempre à ausência de um modelo económico e social de país. Abre-se e fecha-se a torneira consoante parece que estamos com excesso de água ou em seca. Olhamos, anos depois, para o célebre relatório Porter e está lá quase tudo. Foram, na sua maioria, as circunstâncias do cosmos que nos levaram para o turismo, para o vinho, para o azeite, para o calçado e os têxteis. Só falta aproveitar os recursos do mar. A redenção nacional faz-se quase sempre através de convergências astrais. E raras vezes porque há uma estratégia. Pode ser que, desta vez, se aprenda algo e seja diferente.»

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22.5.17

Transportes «fora da caixa» (1)



Nenhum motivo para que os guatemaltecos viajem em autocarros tristonhos! Antígua, Guatemala (2014).

(Nova série)
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Dica (551)



A política em fuga (Manuel Carvalho da Silva) 

«Vivemos tempos paradoxais no nosso espaço público. A política e sobretudo o comentário político ocupam significativo espaço nos mais diversos meios de Comunicação Social, nomeadamente em canais de televisão, jornais, páginas da Internet, redes sociais. No entanto, o debate político raramente pareceu tão estreito nos seus temas e abordagens. Com honrosas e esporádicas exceções, as análises convergem nas velhas interpretações e posições do "centrão", alimentadas por uma relação, por vezes de manifesta cumplicidade, entre jornalistas, ex-detentores de cargos políticos e atuais atores políticos. A informação que recebemos surge-nos "contextualizada" e "cristalizada" em opiniões esvaziadas de capacidade crítica. Nessa formatação do comentário político, não cabem alguns dos fundamentais conteúdos novos e das dinâmicas que a conjuntura política que vivemos vai despoletando.» 
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22.05.1924 – Aznavour, 93



Charles Aznavour nasceu em 22 de Maio de 1924, tem 70 anos de carreira, mais de 100 milhões de álbuns vendidos e continua bem activo. Cantou em Marrocos há pouco mais de uma semana e tem vários espectáculos previstos para os próximos meses.

Para celebrar este seu 93º aniversário, realiza-se hoje um espectáculo de homenagem em Erevan, na Arménia, e um outro nos primeiros dias de Junho.

Aznavour o cantor, mas também «o arménio», evidentemente:



E, sempre, voltar a ouvir velhas relíquias guardadas no baú:






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Um Presidente especialista em História Virtual



Eu nem me importo de ter um presidente da República que ande por aí a recolher beijinhos e a tirar selfies – bom proveito. Mas não o sabia especialista em História Virtual e não perdeu mais uma ocasião para o afirmar: ele «sabe» que foi o trabalho dos governos de Costa e de Passos, que permitiram que Portugal saísse, hoje, do procedimento por défice excessivo. Pois já eu não tenho, de todo, a certeza disso – antes pelo contrário. Estivesse ainda Passos em S. Bento e…? Os passados aos deuses pertencem.
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Alien, o passageiro perdido



«A saga de Alien, o 8.º passageiro, o monstro que, com o seu poder de destruição, arrasa a tripulação da nave "Nostromo", tornou-se um clássico.

Porque, à luz do futuro, permitia-nos ler o passado e o presente dos seres humanos. Mas, tal como o seu criador, o realizador, Ridley Scott, Alien está perdido neste mundo, porque já não consegue imaginar o futuro. É o que se vê no novo "Alien Covenant", parábola do presente, onde David, um robô, se vai humanizando e conclui que a própria humanidade é um erro. Os colonos que viajam numa nave para um planeta onde poderão recomeçar a vida, de acordo com o que pensa David, não têm direito a isso, porque se os humanos já destruíram a Terra, para que é que querem outro planeta para fazer o mesmo? O que é mais assustador neste novo Alien é que ele nos coloca defronte do espelho e nos força a questionar-nos. Numa Terra danificada em termos ambientais, económicos, políticos, culturais e morais, estamos incapazes de imaginar um futuro qualquer. Já não há utopia: há pura distopia. Um vazio que se vai preenchendo com autoritarismos, vias únicas, gritos de que "não há alternativa".

Olhamos à volta e vemos Donald Trump ou Michel Temer ou Nicolás Maduro ou Kim Jong-un e tantos outros. E reparamos na falta de utopia que cria figuras como Emmanuel Macron. O problema é que esta hegemonia da distopia tem que ver com a desagregação de uma forma de fazer política, onde do alto de uma pirâmide não se vê, ou não se quer ver, o que se passa efectivamente nestas sociedades onde o trabalho vai escasseando e vai desaparecendo a interacção entre os cidadãos. David Byrne, o notável músico americano que criou os Talking Heads, escreveu há dias um texto notável sobre o tema, mostrando que talvez exista uma agenda escondida para destruir a essência da política e da democracia. Trump, o criador de conflitos, é 8.º passageiro desta história. Porque é o diálogo entre todos nós que se está a tentar fazer desaparecer.»

21.5.17

Gentes deste mundo


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Dica (550)




«The White House is becoming more chaotic by the day. Now, a special counsel has been brought in to investigate possible connections between President Donald Trump's team and Russia. But the most important question is now whether Trump is mentally stable enough to be president.» 
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Mais 20 centímetros

Descolonização e racismo à portuguesa


«O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, foi visitar a ilha de Gorée, no Senegal, e fez declarações sobre o envolvimento de Portugal no tráfico de escravos. O que lá mencionou foi o gesto madrugador de Portugal ao ter reconhecido a injustiça da escravatura, em 1761, quando pela mão do marquês de Portugal aboliu tal prática em parte do seu território em “reconhecimento pela dignidade do homem”, segundo disse. (…)

o que se nota hoje em Portugal é uma dificuldade em lidar com o passado colonial. É simultaneamente como se Portugal nunca tivesse colonizado e nunca tivesse descolonizado. Ou é como se a descolonização tivesse tido lugar em África, mas nunca tenha ocorrido em solo português. Talvez porque o que foi madrugador não foi Portugal ter reconhecido a injustiça da escravatura, em 1761, mas ter transformado “colónias” em “províncias ultramarinas” em 1951, na revogação do Acto Colonial. Isso só por si não conta como descolonização, naturalmente. Mas Portugal levou a sério esta farsa. Serviu de justificação para a pressão em descolonizar imposta por organismos internacionais. No discurso da época, Portugal não podia descolonizar porque não tinha colónias. Consequentemente, o Estado Novo não teve de lidar com a descolonização. E tendo havido uma revolução para que Portugal deixasse África, o abandono do império acabou por ocupar o lugar de uma descolonização efectiva.

Isso explica a ferida aberta que a África colonial ainda hoje constitui. Explica o pesado silêncio sobre a presença em África que muitos portugueses carregaram até recentemente. Mas explica também a posição subalterna, ou mesmo colonial, a que o contingente negro da população portuguesa tem sido votado até hoje. Ou seja, é como se o colonialismo, ou as mitologias coloniais, se tivesse virado para dentro. Daí que os problemas que as comunidades de origem africana vivem ainda hoje em Portugal são de natureza colonial. Não se pode negar que o país tem feito algum progresso. Mas há ainda uma grande falta de representação de negros na política, nos meios de comunicação de massas e no ensino e investigação de temas que lhes deveriam dizer respeito (como a história de África, por exemplo). O que Rebelo de Sousa fez foi manifestar o contínuo histórico baseado no conceito do bom português que trata os “seus negros” com humanidade. Este foi o grande baluarte do passado colonial e continua a sê-lo no presente pós-colonial português.»

Presidentes eleitos por inteligência artificial?

As autárquicas e o mal menor



«As eleições autárquicas, especialmente em Lisboa e Porto, prometem ser o grande acontecimento político da "rentrée". Uma espécie de Festival da Eurovisão à escala local.

Os portugueses querem sentir que os cantores têm paixão e não são meros executantes de karaoke político. No final, PS e PSD vão contar espingardas e dos resultados poderá vir a depender o futuro triste de Pedro Passos Coelho. Mas o certo é que o comum cidadão olha hoje para os candidatos aos municípios de Lisboa e Porto e vê, sobretudo, manobras e proclamações políticas que pouco estão a contribuir para uma discussão inteligente sobre os problemas sérios com que se debatem as duas principais cidades portuguesas. A saber: a pressão turística e a imobiliária a ela ligada que estão a afastar os habitantes locais para as periferias; o tráfego caótico no interior dos centros, sem respostas para o estancar à entrada das cidades e sem planos de transportes públicos eficientes; a degradação da qualidade de vida que tudo isto está a implicar. Esses problemas são mais claros em Lisboa do que no Porto, mas existem nas duas cidades. (…)

É assim que entramos no campo do "mal menor". Trata-se de um princípio de reflexão moral para tentar diluir um dilema político. Aristóteles falava disso no seu segundo livro sobre ética. Daí nasceu a expressão: "do mal, o menos". António Gramsci explicava: "Todo o mal maior se faz menor em relação a outro que ainda é maior, e assim até ao infinito." Muitos cidadãos vão por isso votar entre o que consideram "menos mau" dos candidatos. Mas isso, claro, implica que os cidadãos começam a claudicar do pensamento e da argumentação, o que alimenta populismos e simplificações políticas. É esse o problema das opções políticas destes dias. Numa época em que precisávamos de bons debates sobre como reformar as grandes cidades portuguesas talvez tudo se vá perder em floreados dialécticos.»

20.5.17

Dica (549)




«Progressivamente, as eleições passaram a ser, na maioria dos países europeus, não combates programáticos mas sim uma competição para decidir quem está em condições de melhor servir os mercados, transformados, por sua vez, numa entidade indiscutível e insusceptível de ser combatida, um verdadeiro manipanso a que se prestam todas as honras e reverências.
A social-democracia, feita mariposa desnorteada pela luz ofuscante do pensamento único, deixou-se enredar em mistificações a-ideológicas, como a «verdade axiomática» segundo a qual as eleições se ganham ao centro e outras patacoadas do mesmo género, de que nem mesmo as experiências reiteradas conseguem demonstrar a falsidade.» 
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Obviamente, Marisa Matias!



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Crescemos 20 centímetros com a vitória na Eurovisão, mas encolhemos metro e meio nos últimos anos



José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«Isto de ser desmancha-prazeres não é propriamente muito agradável, mas lá terá de ser. A Pátria está mais uma vez a atravessar um espasmo nacionalista por causa da vitória dos irmãos Sobral na Eurovisão. Isto é por surtos, agora vai haver 15 dias de celebrações, cheias de grandes frases, cheias de peito feito, por parte de quase toda a gente que nem sabia que Salvador Sobral existia. (…)

Ninguém o disse melhor que o senhor Presidente da República, que afirmou que “a vitória na Eurovisão deu 'mais 20 centímetros' aos portugueses”. Sim, excelente, andamos todos com mais 20 centímetros, mas onde é que está o metro e meio que perdemos como nação há 20 anos para cá, com a perda de poderes do Parlamento português, com a assinatura de tratados como o Orçamental, com a subjugação a um modelo de crescimento medíocre em nome das “regras europeias”, com acordos como o Acordo Ortográfico, que fez proliferar as normas da ortografia do português, em vez de as unificar, ficando nós com a mais pobre, com os cortes no ensino da língua e da projecção da cultura, com a ênfase na diplomacia económica e o definhar das instituições como o Instituto Camões?

O mais grave de tudo é que os 20 centímetros que o Salvador Sobral trouxe são em grande parte mérito dele, e o metro e meio que perdemos é demérito nosso. Foi o resultado de uma política de dolo que a União Europeia usou, com destaque para ao Tratado de Lisboa, que tirou às escondidas e sem debate público poderes que ninguém conscientemente deu à União, em detrimento da soberania nacional, foi o resultado dos desastres de Sócrates que nos levaram ao resgate e da política para forçar eleições em 2011 do PSD, foi o resultado da nossa apatia cívica face ao que é verdadeiramente importante, em contraste com as excitações futebolísticas. Foi o resultado de um sistema político no qual a dimensão cultural, histórica e expressiva da língua e da sua ortografia foi deitada ao lixo, por uma espécie de engenharia diplomática que se revelou um desastre, ficando todos pior do que o que estavam. (…)

Eu não tenho muitas ilusões sobre o que ocorreu nos anos imediatamente a seguir ao 25 de Abril. Sei o papel que tinham estudantes que se descobriam proletários e como muitas organizações com nomes pomposos e revolucionários eram uma inexistência e, acima de tudo, nem eram “de trabalhadores”, nem “populares”, muito menos “proletárias”. Sei também do autoritarismo que percorria muitas ideias políticas, do enorme machismo e sexismo existente, das inúmeras ficções, teatros e enganos desses anos do final da década de 70. Mas estou neste momento a organizar mais de mil fotografias desses anos tiradas por militância e não pela arte da imagem, e que só em parte tinham intenção documental. E essas fotografias revelam um momento excepcional da vida portuguesa, menos político do que pensávamos na altura, mas mais social, altruísta e, à falta de melhor palavra, esperançoso. De facto, o passado é um país estrangeiro. (…)

Estas faces e estes corpos teriam certamente as mais genuínas das emoções pela vitória de Salvador Sobral na Eurovisão. Mas não se ficavam por aqui, tinham algumas esperanças que nós não ousamos ter. E temo que os espasmos nacionalistas com as canções e com o futebol tenham ocupado algumas dessas esperanças, transformando-as em egoísmos.» 
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Melenchon, 19.05.2017




Entrevista à France 2.
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19.5.17

Gentes deste mundo (15)



Hue, Vietname, (2009)
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Com sabor a vichyssoise



Aquela boca de Marcelo na Croácia, sobre crescimento de 3,2% e défice de 1,4%, teve mesmo sabor a vichyssoise…
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19.05.1975 - O «caso República» que fez cair um governo



O chamado «Caso República» teve o seu início crítico no dia 19 de Maio de 1975, embora as hostilidades internas, entre a Comissão Coordenadora de Trabalhadores (CCT) gráficos e dos serviços administrativos de um lado e a Administração e a chefia de Redacção do outro, tivessem já começado nos primeiros dias do mês.

Na manhã de 19, a CCT decidiu suspender do exercício das suas funções a Administração e a chefia de Redacção, acusando-as de estarem a tentar transformar o jornal num órgão afecto ao Partido Socialista. As instalações do jornal foram ocupadas pelos trabalhadores e a edição desse dia saiu com uma constituição diferente.

O PS organizou imediatamente uma manifestação de apoio à antiga direcção, no Largo da Misericórdia (com a presença, entre outros de Mário Soares, Salgado Zenha e Manuel Alegre), a multidão foi engrossando e gritaram-se palavras de ordem contra o PCP, Álvaro Cunhal e MFA.

Quem estiver interessado nos detalhes desta saga, que foi um marco no PREC dois meses depois do seu início, pode ler um detalhado resumo dos acontecimentos.

O República acabou por estar fechado durante algum tempo e reapareceu nas bancas em 10 de Julho, constituído maioritariamente por elementos das forças armadas e de uma certa esquerda radical. Como consequência destes factos, no dia 7 de Julho, o PS abandonou o IV Governo provisório (o mesmo acontecendo pouco depois com o PPD / PSD) que acabou por cair no dia 17 do mesmo mês.

Era assim o dia a dia. Em 27 de Maio, deu-se a ocupação da Rádio Renascença – outra longa e movimentadíssima história. 
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Trump, o Gajo de Alfama


A não perder: este texto de Ferreira Fernandes, no DN de hoje. 
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Macron no seu labirinto



Irei pondo neste post, que estará em actualização se tal se justificar, alguns artigos publicados já depois do anúncio do novo governo francês. Pouco se fala do tema, mesmo nas redes sociais, sobretudo à esquerda (a direita «baba-se» com Macron). E, no entanto, aquilo a que estamos a assistir tem muito que se lhe diga: um governo «pot-pourri», com uma enorme misturada e sem apoio de qualquer partido – muito pelo contrário, com laivos de pretender mover-se num perigoso novo mundo antipartidos.

[Republicação em 19.05.2017]

Novos:

Um Governo nacional. (Francisco Seixas da Costa) 
«Emmanuel Macron foi a resultante hábil que "furou" no meio da onda de desilusão do eleitorado perante as duas famílias políticas tradicionais. O Governo que agora apresentou é uma verdadeira não-surpresa, uma espécie de "bloco central", que junta figuras "óbvias" dos diversos espetros políticos, a que somou algumas caras novas, parte delas com promissores currículos, numa deliberada e louvável equidade de género.
Sem querer parecer Cassandra, gostava de dizer que se podem antever algumas dificuldades a este novo Executivo. Desde logo, porque o primeiro-ministro escolhido, Edouard Phillipe, um homem oriundo da ala mais "aceitável" da Direita clássica, pode vir a revelar-se um peso demasiado "leve" para contrabalançar a dimensão de algum "baronato" político que Macron se viu forçado a cooptar.»

Troca de comentários, sobre este texto, no Facebook:


Descansem, descansem e depois queixem-se. (José Pacheco Pereira).
«Sendo importante a questão europeia, com Le Pen defensora da saída da União e Macron ultra-europeísta, o core business da Le Pen é a emigração, o racismo e a xenofobia muito mais do que a Europa, e o core business de Macron não é o anti-Lepenismo, mas o business propriamente dito. A relação entre ambos é aquela que a União Europeia, e a direita do "ajustamento", não quer admitir: é que o que alimenta o crescimento da base de Le Pen são as políticas como as que Macron (e o Eurogrupo) defendem. Ou seja, um faz o terreno do outro, só que o outro em França é o pior dos "outros" que andam por aí na Europa.
Não há muitas razões para descansar, enquanto as políticas europeias são elas próprias as geradoras do populismo. E, como mostra a experiência do passado, sempre que se consegue evitar o pior há duas semanas a prometer mudanças e depois volta tudo ao mesmo.»

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Emmanuel Macron accusé de verrouiller totalement sa com' à l'Elysée.
«Les rédactions signent ce soir une lettre ouverte à Emmanuel Macron. Elles y condamnent la volonté du Palais de vouloir choisir les journalistes qui accompagneront le nouveau président dans ses déplacements.
Le quinquennat d’Emmanuel Macron commence mal pour les journalistes. En marge du premier conseil des ministres du gouvernement d’Edouard Philippe, l’Elysée a fait savoir qu’il entendait choisir la presse qui accompagnerait désormais le Président dans ses déplacements. D’après Europe 1, le Palais aurait fait passer des consignes pour que les journalistes autorisés à le suivre soient sélectionnés à l’avance. Une ingérence dans le libre arbitre des rédactions. En effet, l’Elysée voudrait imposer un journaliste spécialisé en fonction du thème de la visite. Ainsi, lors d'un voyage à l’étranger, seuls les spécialistes de la politique étrangère seraient habilités à suivre le président. Idem pour l'économie et ainsi de suite.»

Bonapartisme managérial. (Laurent Joffrin)
«”Ni droite, ni gauche”, dit Macron, comme Bonaparte disait “ni talon rouge, ni bonnet rouge” (ni aristocrate ni révolutionnaire). Le tout au service d’un centrisme autoritaire qui ramène l’ordre, éteint les foyers de discorde et pose la base d’un régime à la fois égalitaire et hiérarchique.»

«Les nouveaux ministres doivent abandonner leurs anciennes couleurs pour tenter de survivre dans l'aventure des législatives. Le point sur la stratégie et les forces en présence.
Il n'y aura plus de bleus, ni de rouges, ni de jaunes. Emmanuel Macron qui veut propulser la France en finale, a choisi les membres de sa tribu réunifiée. Comme dans "Koh Lanta", dernière utopie contemporaine, les aventuriers du gouvernement Philippe ont dû abandonner leurs anciennes fidélités pour se fondre dans un nouveau groupe et affronter les épreuves surhumaines qui les attendent. Un pour tous et tous pour un.»

(*) Sondagem feita antes do anúncio do novo governo.
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Fahrenheit 2,8



«Fahrenheit 451 é um romance de Ray Bradbury. O livro conta a história de um futuro onde todos os livros são proibidos, as opiniões próprias são consideradas anti-sociais e o pensamento crítico é suprimido. No fundo, o sonho húmido de Aníbal Cavaco Silva.

O número 451 é a temperatura (em graus Fahrenheit) a que queima o papel, o equivalente a 233 graus Celsius. O que se passou neste trimestre é uma espécie de Fahrenheit 2,8 de tudo o que foi escrito sobre a "geringonça" e o futuro do país após a construção desta alternativa à PAF. 2,8 de crescimento é a temperatura a que ardem as calças do José Gomes Ferreira. (…)

É nestes momentos que tenho pena que não exista uma bwin para estes apostadores do TINA. Estes Bisavós do Restelo. Passos teria perdido o apartamento em Massamá depois de ter apostado tudo na vinda do Diabo e sair-lhe o Papa. Os profetas do "aumento do salário mínimo vai causar desemprego" eram os únicos que tinham ficado desempregados.

Não tenho nada contra o Medina Carreira, excepto ter partilhado o mesmo programa com o Crato, mas se calhar já o mudava de área. Fica triste não acertar uma. Na minha ideia, o Medina Carreira substituía o Ljubomir Stanisic no "Pesadelo na Cozinha". Ou faziam um pesadelo na contabilidade do restaurante e ele entrava ali e destratava o contabilista e anunciava a falência para a semana.

. Durante anos foi-nos dito, diariamente, que não havia alternativa. Nem valia a pena tentar. Só o facto de falar nisso estragava o pouco que já tínhamos. Éramos uma Natascha Kampusch na cave de um Wolfgang qualquer. Chamaram-nos piegas e agora temos a mesma gente a chorar porque crescemos 2,8.

Ver o PSD a dizer que se o país cresceu 2,8 no primeiro trimestre de 2017 é graças ao seu governo, é como ver um indivíduo a queixar-se que ele é que tomou os comprimidos para o "enlarge your penis" mas o outro é que tem o pénis maior. Ou um marinheiro que está no alto mar há um ano e meio, e que nem enviou o ordenado para casa, achar que a mulher está grávida e o filho é dele.»

Da série «Grandes Capas»


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18.5.17

Gentes deste mundo (14)



Os meninos etíopes também fazem TPCs, Awra Amba, Etiópia (2013)
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#ForaTemer



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E depois há Francisco Assis


… que escreve, no Público de hoje, num texto totalmente laudatório para Macron, o que abaixo transcrevo. (Não ponho link, quem quiser que procure e que tire as conclusões que entender.)

«A secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, deu provas de grande coragem quando numa recente entrevista afirmou peremptoriamente que, se fosse francesa, teria votado Emmanuel Macron logo na primeira volta das presidenciais. Ao fazer esta declaração, aquela que é hoje, por mérito próprio, a segunda figura institucionalmente mais importante do Partido Socialista, afirma um pensamento autónomo e uma personalidade própria. A partir daqui parece-me evidente que o seu destino político deixa de estar dependente do sucesso ou insucesso da presente coligação parlamentar que liga o Partido Socialista ao que de mais arcaico subsiste no panorama político e ideológico europeu.» 
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Um entusiasmado bocejo



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:



Na íntegra AQUI.
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No país optimista



«Durante muitos anos os portugueses viveram dependentes do que os outros espirravam sobre nós. Essa ideologia ainda é muito cara a alguns sectores da sociedade nacional.

Muitos estão sempre à espera das redacções do FMI, da Comissão Europeia ou de uma ínclita agência de "rating" sobre o sítio. (…) O fundamentalismo radical desse pensamento conquistou Portugal durante os anos da troika. Cada palavra de um insignificante homem da mala do FMI era vista como um sinal de apocalipse. Foram tempos duros. Mas tem sido bom este ano de descompressão. Há um ar mais respirável na nossa sociedade e isso é perfeitamente exemplificado pela atitude de Marcelo Rebelo de Sousa. É claro que este é um país de diálogos absurdos e, com facilidade, cai-se em extremos. Veja-se um exemplo: o país entrou em delírio com a vitória na Eurovisão; agora procura-se quem pague a organização deficitária do certame no próximo ano.

O mesmo se passa com os dados positivos com a economia portuguesa. As palavras da classe política a pedir, para si, os louros deste bom momento parecem um vírus Wannacry em versão latina. É um ataque maciço à inteligência dos portugueses que tiveram de carregar às costas um empobrecimento económico, social e cultural sem precedentes durante quatro anos. Marcelo fez bem lembrar isso. Ele, um sensato optimista, pediu calma. Nada está ganho, como anteriormente nada estava perdido. Num país de humores extremos é difícil ir na última fila das comemorações. Mas é possível ir a meio. Portugal libertou-se das correntes que o atiraram para um divã de Freud. A depressão emocional está a evaporar-se. E isso é muito bom. Mesmo que alguns ainda tenham saudades das lágrimas e da cultura de culpa e de guerrilha de todos contra todos, Portugal é hoje um sítio mais alegre.»

França: é isto e o resto são cantigas de embalar

17.5.17

Gentes deste mundo (13)



Mulher-Girafa, Birmânia (2009).

Tal como na Tailândia, manda / mandava a tradição que as mulheres Padaung usassem anéis de bronze, em espiral, para esticar o pescoço e o tornar mais elegante. Moda com tendência para acabar, aparentemente, mas que «rende» em termos de turismo…
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Pobre Grécia!




«A greve decretada pelas principais centrais sindicais está a paralisar os transportes e serviços públicos gregos. É a resposta ao pacote legislativo que está em debate no parlamento. (…)

Entre as medidas agora propostas, que terão efeito a partir de 2019 e equivalem a 2% do PIB, está um novo corte das pensões e de algumas isenções e benefícios fiscais, a par de aumentos das contribuições por parte dos profissionais liberais. O governo liderado por Alexis Tsipras irá também levar a votos no parlamento um pacote de medidas para compensar estes cortes, que passa pela redução dos impostos sobre pessoas singulares e empresas, corte no imposto sobre imóveis e redução da sobretaxa para rendimentos acima de 30 mil euros anuais.» 
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Em 17.05.2013, morreu um carrasco: Jorge Videla



Foi há quatro anos que morreu Jorge Videla, um dos carrascos que governaram a Argentina entre 1976 e 1983 e que foram responsáveis por mais de 30.000 desaparecidos. Condenado em 2010 a prisão perpétua, viu a sua pena aumentada em mais 50 anos, em Julho de 2012, por ter dirigido uma rede que roubava bebés de prisioneiros políticos.

Por ocasião da sua morte, num artigo intitulado «Nem Freud imaginou isto», Simone Duarte resumiu bem o drama de algumas destas crianças: «É este o legado do general Videla. Uma geração que desapareceu. Outra que ficou sem saber quem era. E está até hoje a tentar descobrir».

Nesse dia, o mundo ficou mais limpo. 
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Dica (548)



Dialectical Enlightenment. (Harrison Fluss e Landon Frim) 

«The socialist project isn't to rebel against the values of liberty, equality, and fraternity, but to show how capitalism is incapable of fulfilling them.» 
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Autárquicas – Andam todos zangados



… e ainda a procissão vai no adro. Keep Calm.
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Comédia à portuguesa



«Numa das mais divertidas comédias de Blake Edwards surge um Peter Sellers hindu que entra, por erro, numa festa e acaba por a destruir em poucos minutos. (…)

Incapazes de serem discípulos de Sellers, os dirigentes do CDS, PPM e MPT decidiram criar uma comédia à portuguesa em forma de assinatura de uma coligação para Lisboa. A ideia em si seria óptima: Assunção Cristas precisa de agregar o que pode para ficar em segundo lugar nas eleições para a Câmara de Lisboa. Já que será improvável que remova Manuel Salgado (e Fernando Medina) da CML, Cristas sabe que a grande vitória será driblar Teresa Leal Coelho e ser a voz da oposição. Em Lisboa e, claro, no país.

Mas, depois de ter tentado ser audaz na arte da levitação com a proposta de 20 estações de metropolitano para Lisboa, Cristas decidiu que era altura de cair com estrondo no chão. (…) Vejamos: o discurso de Gonçalo da Câmara Pereira só define quem o leu. Portanto, não vale a pena perder-se tinta e tempo com um vácuo de ideias cheias de mofo que procura um qualquer lugar ao sol. Só Cristas tem de se preocupar: cada vez que Câmara Pereira falar, perde 100 votos; cada vez que ele tentar elaborar sobre o papel das mulheres, Cristas vê eclipsarem-se 1.000 votos. Mas o pior foi uma Cristas envergonhada, no meio daquela comédia rasca, ter decidido responder. Foi pior a emenda do que o soneto: "Tenho calçado botas e calças de ganga para estar nos bairros sociais." Há momentos em que alguém com ambições de poder tem de perceber que, num filme de duvidosa comédia, ou se tem humor ou se sai de cena.»

Fernando Sobral

16.5.17

Gentes deste mundo (12)



La Boca, Buenos Aires (2015).
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Dica (547)



Ventos do exterior. (Joaquim Aguiar) 

«O novo referencial político com dois eixos, horizontal e vertical, define quatro quadrantes em que as sociedades se fragmentam, com pesos diferenciados e de articulação mais complexa do que acontecia no eixo horizontal esquerda-direita.» 
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16.05.1958 - Chegada de Humberto Delgado a Santa Apolónia




Em 16 de Maio de 1958, vindo do Porto, Humberto Delgado foi alvo de uma grande manifestação de apoio em Santa Apolónia, violentamente reprimida pela polícia. O governo proibiu a divulgação de notícias que referissem o número de feridos, mas as mesmas apareceram na imprensa estrangeira.

Seis dias antes, em 10 de Maio, durante a conferencia de imprensa de lançamento da campanha, no Café Chave d’Ouro em Lisboa, tinha dito a frase que viria a ficar célebre: «Obviamente, demito-o!»

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