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22.6.17

O estranhíssimo caso de Sebastião Pereira



«Nos últimos dias, à semelhança de toda a imprensa espanhola, o El Mundo (Espanha) tem publicado inúmeras notícias sobre o incêndio de Pedrógão Grande. Mas ao contrário da generalidade dos jornais, como o El Pais e outros que o têm feito de forma neutra, o El Mundo tem publicado textos, sem excepção, que demonstram uma orientação claramente anti-governamental e que procuram atribuir responsabilidades a António Costa, Ministros e autoridades portuguesas.

Alguns exemplos: “Caos no maior incêndio da história de Portugal: 64 mortos, um avião-fantasma e 27 aldeias evacuadas.”, “gestão desastrosa da tragédia”, "A evidente falta de coordenação entre as autoridades, provocou uma enxurrada de críticas à gestão do desastre por parte do Governo do primeiro-ministro António Costa, e em particular da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, a menos de quatro meses das eleições legislativas.”

O caso atinge mesmo proporções políticas colossais. Não só é sugerido que o caso pode fazer cair ministros e até todo o governo, sugere ainda que pode mesmo “pôr fim à carreira política de António Costa.” É este o clima que o El Mundo diz que se vive em Portugal.

A torrente de notícias duras e o tom crítico não tardaram a chegar a Portugal, e a imprensa portuguesa, na sua maioria, deu eco às críticas do El Mundo: Sábado, SIC Notícias, Jornal Económico, Observador, Expresso, Correio da Manhã são exemplos de órgãos que foram publicando notícias sobre aquelas notícias. Casos destes são frequentes: recorrer à imprensa internacional para validar posições sobre questões internas; ver o que “o que se anda a dizer de nós lá fora” e, se disserem mal, há quase automaticamente um enorme potencial mediático.

O autor de todos estes textos do El Mundo é sempre o mesmo: Sebastião Pereira. E é justamente aqui que o problema começa. Até ao último Sábado, Sebastião Pereira nunca tinha escrito um único texto no El Mundo ou em qualquer outro órgão de comunicação social português ou espanhol. Uma conclusão que resulta de uma pesquisa em todos os arquivos online. Não há também qualquer registo com o nome de Sebastião Pereira na Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ), a única instituição que pode habilitar jornalistas portugueses a exercer a profissão em Portugal. Nas redes sociais, nas escolas de jornalismo e entre jornalistas que estiveram no local do incêndio, ninguém sabe ou ouviu falar de tal nome.

Segundo o El Mundo, Sebastião Pereira é um freelancer a actuar em Lisboa, que, no Sábado, se ofereceu directamente ao jornal para fazer a cobertura dos incêndios florestais de Pedrógão Grande, aproveitando para isso o facto de já estar pela zona.

É este o estranhíssimo caso de Sebastião Pereira, o jornalista-fantasma.

Neste momento, e depois de investirmos algumas horas no assunto, podemos afirmar com segurança que o "jornalista português Sebastião Pereira" não existe, logo:

1. Ou Sebastião Pereira não é jornalista e, usando o seu nome próprio ou um pseudónimo, enganou um dos maiores jornais espanhóis e a imprensa portuguesa foi de arrasto num enorme logro.
2. Ou Sebastião Pereira é um jornalista português com carteira (ou carteira de estagiário) que está a usar um pseudónimo para dissimular a sua verdadeira identidade (na consciência, talvez, de que a verdadeira identidade cortaria a corrente mediática que se formou e que deu origem às notícias em Portugal)
3. Ou o El Mundo está a enganar todos os seus leitores e não contratou nenhum jornalista, estando apenas a reproduzir textos de outros órgãos, criando a assinatura de uma personagem fictícia.

Em qualquer das hipóteses, o caso é gravíssimo por várias razões. Desde logo, porque podemos já dizer que grande parte da imprensa portuguesa foi caixa de ressonância de uma notícia que tem, no mínimo, um problema de consistência enorme no plano da autoria. Mas pode ainda ser mais grave, dependendo do que vier a saber-se a partir deste preciso momento.

Entendemos que o El Mundo tem de dar explicações sobre este caso, identificando inequivocamente Sebastião Pereira. Tem de dar explicações urgentes. É nesse sentido que propomos a todos os nossos seguidores que nos ajudem a contactar Paco Rosell (Diretor) e Silvia Roman (Jefa Sección Internacional), para que ambos se pronunciem sobre o que se está a passar.

Apelamos que nos façam chegar todas as informações que considerem úteis.

Regressaremos ao tema logo que se justifique.»

(O truques da imprensa portuguesa no Facebook) 
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Um disco riscado chamado Portugal



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:


Na íntegra AQUI.
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O mundo da Uber depois do rebelde Kalanick



Confesso que não tenho estado especialmente atenta aos recentes problemas internos da Uber. Mas sorri ao ler este texto. Se julgam que transformam a cultura de uma empresa alterando etiquetas não vão longe: ler que vão mudar o nome da sala da gestão executiva de «Sala da Guerra» para «Sala da Paz» até dá vontade de rir…

«A Uber não é uma empresa como as outras. Já se tinha percebido, pelo seu rápido sucesso e crescimento, mas também pelos seus "mandamentos", que são ensinados aos funcionários e que não primam exactamente pela candura ("pisar calos" é um exemplo).

Na origem e no centro de tudo está o polémico Trevor Kalanick, fundador e até ontem CEO da empresa norte-americana. Uma semana depois de ter anunciado uma ausência prolongada, de forma a tornar-se uma pessoa melhor, comunicou esta quarta-feira que abandona a administração executiva. Isto depois de um grupo de accionistas o ter pressionado a fazer. "Amo a Uber mais do que qualquer outra coisa no mundo, e neste momento difícil da minha vida pessoal decidi aceitar o pedido dos investidores para me afastar para que a Uber se possa desenvolver em vez de se envolver noutra luta", afirmou Kalanick, em comunicado.

Há várias movimentações em curso: encontrar uma nova equipa de gestão para uma empresa que veio do nada e vale agora mais de 60 mil milhões de dólares; mas também mudar os valores da empresa, como explicou recentemente a administradora Arianna Huffington. Um dos passos nesta limpeza do politicamente correcto é a mudança na sala da gestão executiva: a "Sala de Guerra" passará agora a chamar-se "Sala de Paz"...

Leslie Hook, num excelente artigo publicado no Financial Times, defende que "estas mudanças cosméticas não vão mudar a cultura da Uber de um dia para o outro". Para isso, "serão os seus futuros líderes, mais do que uma lista de valores empresariais sanitizada, a desempenhar um papel central".

Na Bloomberg, Leila Abboud descreve: "O próximo CEO terá de ser um diplomata, um delegador e um defensor dos controlos internos demasiado tempo negligenciados na start-up mais valiosa do mundo. Não é uma tarefa pequena."»

Dica (573)



Stop Pretending You’re Not Rich (Richard V. Reeves)
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21.6.17

Mercados Variegados (15)



Peixe seco no Mercado Nyaung U. Bagan, Birmânia (2009).
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Quando os padres convocavam contramanifestações



A efeméride foi há três dias, mas andávamos então ocupados com dramas humanos imediatos. Mas o passado «não passou».

Há 42 anos, eu estava no Campo Santana, em Lisboa, numa manifestação à porta do Patriarcado, que tinha ali a sua sede, de apoio aos trabalhadores da Rádio Renascença. Não era a primeira vez que o fazia: antes do 25 de Abril, participara em vários protestos contra o cardeal Cerejeira, por atitudes que ele tomava, ou omitia, nas relações entre a Igreja portuguesa e o governo, em tempos de ditadura. Tipicamente, acabávamos sempre refugiados no átrio ou, pelo menos, protegidos pelo gradeamento que, no passeio, rodeava a porta principal – reacção instantânea quando se aproximavam os tradicionais Volkswagen creme nívea da PSP.

Mas, em 18 de Junho de 1975, os ventos eram bem diferentes e foram outros que se refugiaram dentro da sede patriarcal. Passo a explicar, mas muito resumidamente, porque foi longo e complexo o chamado «caso da Rádio Renascença».

Quando a Revolução aconteceu, a Rádio Renascença (RR) era uma das três grandes estações de radiodifusão, a par da Emissora Nacional e do Rádio Clube Português, com um ambiente relativamente livre dentro dos limites existentes (por pertencer à Igreja), e não foi por acaso que sobre ela incidiu a escolha para a transmissão de «Grândola» como senha para os militares avançarem. Mas, curiosamente, foi lá que teve lugar a primeira greve em serviços de informação, logo no dia 30 de Abril, por uma profunda divergência entre jornalistas e directores, a propósito da cobertura da chegada a Portugal de Mário Soares e de Cunhal. A estação esteve parada cerca de 19 horas, os trabalhadores ocuparam o espaço e o conselho de gerência acabou por abandonar o local. Este foi apenas o primeiro capítulo de uma atribulada história que duraria até Dezembro de 1975, data em que a gestão da estação foi definitivamente devolvida à Igreja.

Pelo meio, o tal episódio de 18 de Junho de 1975. Durante mais uma crise interna, sindicatos representativos de vários sectores – jornalistas, revisores de imprensa, tipógrafos e telecomunicações – convocaram uma manifestação a ter lugar junto do Patriarcado. E teria sido apenas mais um evento, entre muitos semelhantes que aconteciam quotidianamente, não se tivesse dado o caso de ter havido uma convocatória para uma contramanifestação, feita por muitos padres, a pedido do conselho de gerência da RR (texto na imagem, aqui ao lado).

Estava lançado o rastilho para um confronto que teve tiros para o ar dados pela PSP e pela Polícia Militar, muitas pedradas e cerca de 40 feridos, com os manifestantes pró-Patriarcado refugiados no interior do edifício e evacuados já de madrugada em camiões militares.

Antes, durante e depois, foram divergentes os apoios recebidos por cada um dos lados. A UDP foi a primeira organização política a apelar para a participação na manifestação de apoio aos trabalhadores, acompanhada, entre outros, pelo MES, LCI, LUAR, PRP/BR, CMLP, ORPCML, Associação de ex-Presos Políticos Antifascistas, várias comissões de trabalhadores (com realce para a dos TLP), e organizações católicas como a JOC e Cristãos pelo Socialismo. Contra a manifestação, embora com diferentes nuances, declararam-se o PS, o PPD, o CDS, o PDC e o PCP. Estranho? Olhem que não, olhem que não! 

Se reina o delírio…



António Gonçalves no Facebook.
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Com dedicatória especial a uma «jurnalista»



… da SIC, que estava de serviço ontem ao fim da tarde, num dos locais dos fogos, e que teve um comportamento lamentável a propósito da falsa notícia sobre a queda de uma aeronave.

Jurnalismo

«Sô doutor juiz, eu deitar boatos da boca pra fora?! Seja, mas tenho atenuantes. O Adérito, um primo meu que abalou para Madrid, já faz um ror de anos, é que me telefonou a perguntar que coisa foi essa de a avioneta cair no quintal. A informação, portantos, eu não a inventei. Veio-me cá ter. Também é verdade que horas antes telefonei ao Nuno - é um irmão do Adérito, que também emigrou para Espanha - e eu disse ao Nuno que foi cá um estrondo o que tinha ouvido para as bandas do quintal, até parecia um avião a explodir, daqueles com piloto inglês como havia antigamente na Grande Guerra. Confirmo mas isso com o Nuno não tem nada a ver, são conversas entre primos. Agora, quando de Espanha me telefonam a perguntar do quintal e do Canadére e do inglês e tudo, eu digo: "Olá..." O que conta é que a coisa chegava-me do estrangeiro e com aqueles pormenores todos... Desculpe, meretíssimo, diz que...? Ah isso... Sim, sim, o Adérito também é primo, aliás, eu já o dissera, mas, esse, é atilado, nada a ver com o Nuno, um estroina. É para o senhor doutor perceber a diferença: se a notícia vem do Adérito fiquei alerta. Mas não me pus logo com atoardas. Fui averiguar. Deitei-me a caminho do posto da Guarda, e perguntei ao sargento: "Que é isso do avião?" Ele olhou-me e não desmentiu - juro pela minha mãezinha, não desmentiu. Desbobinei tudo, o avião, o quintal, o estrondo, a bigodaça loura do piloto... E o comandante da Guarda, népias. Mas eu bem vi que ele chamou um guarda, que se meteu num jipe e, veja a coincidência, foi para as bandas do meu quintal. Tava confirmado. Quanto a mim, fui para a taberna. Durante hora e meia do que é que eu havia de falar? Claro... Mas está aí outro mistério! Se não tinha caído nenhum avião, porque é que me permitiram falar durante hora e meia do avião, do meu quintal e isso tudo? E depois, eu é que sou o boateiro, sô doutor juiz?!»  

20.6.17

Mercados Variegados (13)



Bonecas feitas à beira da estrada. Costa dos Esqueletos, Namíbia (2007).
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As vítimas dos incêndios e da televisão


Um grande texto de António Guerreiro no Público:

«Nas televisões, o incêndio de Pedrógão Grande resultou num avatar técnico-totalitário da “obra de arte total”, na qual se dá uma confrontação dialéctica das várias artes. Com as imagens captadas pelos drones, a SIC compôs um filme com uma banda sonora que não era a Cavalgada das Valquírias, o excerto de uma ópera de Wagner a que Francis Ford Coppola deu uma grandiosa forma cinematográfica em Apocalypse Now, mas tinha a pretensão da “grande arte” wagneriana. (…) 

A que coerção estão submetidos os jornalistas para que aceitem o papel de idiotas? Ou fazem-no voluntariamente? Os jornalistas tornam-se então indivíduos ávidos, paranóicos, como os amantes que não se satisfazem com um simples “amo-te”. Desconfiados com a declaração tão lacónica, achando que o amor é uma imensidão que precisa de se dizer com mais palavras, perguntam: “Amas-me como?” E o outro responde: “Amo-te como se fosses o mais doce dos frutos.” E aí começa um encadeamento de metáforas cristalizadas, de estereótipos. Assim são os jornalistas munidos de microfones e de câmaras: não desistem de querer extorquir as palavras e a alma aos seus interlocutores; não deixam de querer arrancar testemunhos a gente moribunda ou a viver a experiência dos limites.» 
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Os afectos do Presidente



Sempre tive, e mantenho, um pé atrás em relação à «persona» Marcelo Rebelo de Sousa. Mas quem não percebe o significado e a importância deste gesto de um presidente da República só pode ser um triste deputado da Nação
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Porra de Sísifo



«O maior de todos os incêndios na nossa história. Metade da área ardida da UE nos últimos anos. A maior proporção do território dedicada ao eucalipto no mundo. Afinal não há só Eurovisão e futebol em Portugal, afinal não crescemos vinte centímetros.

Mas responder à irresponsabilidade é mais difícil do que chorar a desilusão, como se viu: no tempo de um fósforo, alguma televisão passou a exibir histórias de morte e de pessoas em estado de choque, fazendo delas um espectáculo de voyeurismo, é como se este Portugal quisesse voltar a ser pequenino. Depois, no mesmo fósforo, veio o ajuste de contas político, a falange da direita atira-se ao Presidente, o despeito move montanhas: do CDS, que quer fazer esquecer que Cristas foi ministra da pasta, o tiro vai para os “beijinhos”, enquanto os comentadores da cor desprezam os “abracinhos” e tudo o que for. São fiéis à sua natureza.

Se é verdade que sabemos muito pouco sobre se a resposta à emergência foi adequada nas circunstâncias difíceis, sabemos pela certa que o que desencadeou esta tragédia foi um acontecimento excepcional. O problema é que sabemos também que haverá cada vez mais fenómenos extremos, considerando a montanha russa das alterações climáticas. E sabemos, há décadas que se sabe, que o efeito de tenaz de duas mudanças económicas é devastador: de um lado, a desertificação do interior e o abandono do mundo rural implica que a mata não é limpa, usada e protegida, de outro lado a eucaliptização transforma o interior num barril de pólvora. Para mais, o Estado tem 3% da floresta, na União Europeia tem em média 59% e olhe que são liberais. Não é portanto a meteorologia que nos diferencia de Espanha, Itália ou Grécia: é o factor humano, a floresta não dá votos mas dá lucro.

E aí temos a incúria organizada nesta que será das mais graves faltas de autoridade do Estado. Sempre por austeridade, um governo PS extinguiu o corpo dos guardas florestais; depois, o PSD-CDS, pela mão de Cristas, terminou com os serviços florestais e desmantelou as normas que obrigavam à autorização de novos eucaliptos, até baldios e zonas de regadio foram entusiasticamente prometidas às empresas da celulose, promovendo-se a economia do desastre – mas a ministra anunciava rezar piamente para que chovesse quando a floresta ardia.



19.6.17

Mercados Variegados (12)



Artesanato religioso e não só. Lago Inle, Birmânia (2009).
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Agora, o silêncio



Daniel Oliveira no Expresso diário de 19.06.2017:



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19.06.1944 – Nasceu o Chico



Chico Buarque nasceu em 19 de Junho de 1944. O tempo voa e o menino virou velho. Who cares?








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Natureza, homem, obra, vida ou morte


@Rafael Marchante

José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«O meu artigo é agnóstico quanto à culpa dos mortos de Pedrógão, não só porque não é minha competência, como, à data em que escrevo, o que se sabe ainda é insuficiente. Deste ponto de vista, o incêndio da torre de Londres parece muito mais unívoco e mais cedo se pode chegar à culpa. Acresce que há muito que se pode discutir sem começar pela culpa, ou melhor, começando por outras culpas que estão lá, que estão aqui, por todo o lado. Pode ser que depois se tenha de chegar à culpa concreta dos mortos de Pedrógão, mas não à cabeça.

A primeira coisa a dizer é que há certas calamidades naturais que não têm controlo. De todo. Não gostamos de admitir isso, porque afecta a nossa noção de superioridade humana sobre a natureza, mas não é assim. De todo. Quem tenha assistido de perto, como já me aconteceu, a grandes fogos, como o do Chiado e a vários fogos florestais, sabe que há momentos em que nem com todos os meios do mundo, aéreos, pedestres, subterrâneos, seja o que for, se controla um incêndio, uma inundação, um tornado, um terramoto, um tsunami, uma erupção, um meteorito. Pode acontecer que, depois de muita destruição, seja possível de novo controlar a calamidade, mas pode haver dias, horas, meses, em que nada se pode fazer a não ser minimizar os efeitos e esperar que acabe.

Isto é a primeira coisa que deve ser dita, de forma geral e abstracta. Dito isto, há um segundo aspecto, aquele que é mais importante — é que qualquer calamidade natural (mesmo com origem artificial) desenvolve-se numa paisagem e numa ecologia que é quase toda construída pelos homens, moldada por actividades humanas, seja do domínio da agricultura, da indústria, da energia, do espaço habitável, das construções, etc. E aqui já as calamidades não são puramente naturais, mas sim ajudadas ou desajudadas pelo modo como manipulamos o espaço natural em que vivemos. (…) Dito de outra maneira, na maioria das calamidades (não todas) é a natureza artificial que conta, porque há muito que a natureza natural, perdoe-se o pleonasmo, já não existe. E se é obra humana, artificial, remete para uma cadeia de responsabilidades de todo o tipo. Umas são individuais, outras são colectivas, umas são privadas, outras estatais, e no seu conjunto é na hierarquia dessas responsabilidades que se pode encontrar irresponsabilidades e culpas. (…)

Por isso, estamos diante de um exemplo notável da impotência do poder político, que junta vários aspectos muito reveladores daquilo que é o nosso statu quo pantanoso em muitas matérias. Há lobbies poderosos na área dos incêndios, dos madeireiros às grandes empresas de celulose, aos bombeiros e toda a panóplia de negócios à volta do fogo, uma das áreas em que se conhecem casos concretos de corrupção, nepotismo e tráfico de influências. Não são segredo para ninguém. (…)

São processos inelutáveis? São. Mas pode-se partir daí para fazer mais, nem sequer novas leis, uma praga portuguesa, mas aplicar as leis que já existem e são flagrantemente ignoradas. Não resolve tudo, mas ajuda.»
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18.6.17

Mercados Variegados (11)



Mercado nocturno de Patpong. Bangkok, Tailândia (2012).
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E quanto a França



A única boa noticia da segunda volta das eleições legislativas: existirá um grupo de La France Insoumise na próxima Assembleia.
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Maria Bethânia – 18 de Junho de 1946



71 anos de idade e 52 de carreira tem esta grande senhora de um país neste momento em plena ebulição e numa fase terrível.

Voltar a ouvir alguns dos seus grandes êxitos.





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Incêndio – para acompanhar as notícias


Quem quiser seguir as notícias, ao minuto, sem aturar as perguntas parvas dos enviados das TVs, pode fazê-lo no Público, hoje aberto a não assinantes.

E que os urubus se calem, hoje, sobre culpas e culpados. 
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É isto


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17.6.17

Mercados Variegados (10)



Os belos queijos franceses em Saint Rémy de Provence. França (2014).
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Dica (572)




«At 68, Jeremy Corbyn has been on the Labour Party’s left flank longer than many of his most enthusiastic supporters — the ones who nearly propelled him to an upset victory in this month’s British general election — have been alive. Bernie Sanders, who won more votes from young people in the 2016 primaries than Donald Trump and Hillary Clinton combined, is 75, and has a demeanor that, honestly, reminds me of my Jewish grandfather. Jean-Luc Mélenchon, the Communist-backed candidate who, thanks to support from young people, surged in the polls ahead of the first round of France’s presidential election, is a sprightly 65.» 
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Legislativas francesas – amanhã


Últimas sondagens dão isto:




(Daqui.)

And here’s to you, Mrs Robinson…





« Watching the classic 1967 Dustin Hoffman film in a post-Brexit world of boomerang children lends it a whole new resonance. Which is hardly surprising when you consider the parallels with the era in which it was created.
It was the Summer of Love, the first one. Young people were making their voices heard in politics and revealing the widening chasm between themselves and their parents’ generation.»




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Os últimos dias da humanidade?



«Custa-me dizer-lhe isto tão à bruta: a Agência do Medicamento é questão de somenos e provavelmente rumará a outras paragens. Mas o que resta desta questão é o retrato de uma caça egoísta aos “despojos” britânicos, como gentilmente escreve um entusiasta europeu, com os governos a promoverem descontos fiscais e mordomias para seduzirem os chefes nómadas, o que diz muito sobre a malandrice numa União que vive disto. Em Portugal, também tudo trivial: é assunto para as eleições autárquicas. Ora, esta banalidade é inócua, será o menos que nos ameaça. É assim e vai continuar a ser assim, a genética europeia manda.

A questão que então me importa é outra: por que é que nos embriagamos com estes casos (ou com os mails e as zangas do futebol, sem dúvida ainda mais apaixonantes)? A resposta talvez seja que é assim que se forma o senso comum, o mais poderoso instrumento de poder dos nossos dias, ou que esta é a dominação mais forte, por se reproduzir consensualmente. É eficaz: não gera conflito, o cidadão é um espectador. É universal: não requer presença, aceita a representação etérea da decisão. O senso comum é portanto uma exterioridade que nos invade sem se ver.

“George Steiner em The New Yorker” (Relógio d’Água, 2017) é um livro fascinante que selecciona alguns dos artigos de Steiner, judeu franco-americano, crítico literário e ensaísta. No seu labirinto de temas, há um que porventura interessará aos meus leitores de hoje e que responde precisamente a este sentimento de banalização como gramática do quotidiano. Lembra ele o trabalho de Karl Kraus, austríaco, dramaturgo, que interpretava Shakespeare a solo, promoveu centenas de récitas que fascinavam os ouvintes e que, com a sua peça “Os Últimos Dias da Humanidade” (esteve recentemente em representação em Lisboa e Porto, pelo Teatro de S. João), descreveu, numa possessão de lucidez, termo de Steiner, a vulgaridade, a ostentação, os discursos do Estado Maior, do governo ou da imprensa para justificarem a Primeira Guerra, ou o mapa das palavras em que se tecia a ordem burguesa que anunciou a catástrofe – e ela veio mesmo.


16.6.17

Mercados Variegados (9)



À beira de uma estrada, perto de Penang. Malásia (2012).
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Dica (571)



A Very Political Tragedy (Dawn Foster) 

«Today’s horrific fire in London's Grenfell Tower is a symbol of a deeply unequal United Kingdom. (…)
As one resident told me, many people will have died locked in their homes, aware that nobody had cared for their safety while they lived. The only way to change a world where that can happen is through political action.» 
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Ex-AD: que os deuses vos guardem como as sondagens prevêem

16.06.1996 – Quando David Mourão-Ferreira se calou



David Mourão-Ferreira morreu em 16 de Junho de 1996. Um dos nossos grandes poetas do século XX, ficcionista também, autor de alguns poemas imortalizados pelo fado, na voz de Amália Rodrigues.

Dois poemas ditos pelo próprio, dois outros dois cantados por Amália:











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Grécia: raiva e desespero

A ternura dos 71



«Donald Trump celebrou, na passada quarta-feira (14 de Junho), o seu aniversário. Trump fez 71 anos. Também na quarta-feira Trump foi acusado de obstrução à justiça. Se fosse Presidente dos EUA, seria grave. (…)

Trump pode alegar, como Clinton, que não chegou a obstruir a justiça. Se Trump pressionou e apertou com o director do FBI, então, desta vez, em lugar do vestido vermelho manchado da Monica Lewinsky, queremos ver as calças molhadas de chichi do James Comey. Se Trump se limitou a dar-lhe uns berros para ele parar com a investigação, mas não lhe chegou a roupa ao pelo, no fundo, não houve consumação, acabou por ser apenas uma cena oral. Não sei onde isto vai parar, mas ainda pode acabar com o Presidente dos Estados Unidos a pedir asilo político na Embaixada da Rússia.

O Trump, para 71 anos, até está bastante bem. Não tem a energia do nosso Presidente, mas o professor Marcelo também não tem uma primeira-dama. Mas o Trump é muito postiço, se mergulhasse no mar do Estoril, perdia metade da cor e dois terços do cabelo. Acho que o nosso Presidente ganha. Com aquela idade, tem uma energia tal que estou convencido que o professor Marcelo é o único português que poderia pertencer aos Rolling Stones. (…)

Voltando ao "impeachment". Se Trump fosse afastado da presidência dos EUA, eu fazia uma festa com foguetes "made in" Correia do Norte. Confesso que o Trump assusta-me. Tenho um bocado de medo que venha para aí uma terceira guerra mundial que acabe com o mundo e, pior que tudo, que impeça o SCP de vencer o campeonato para o ano. Por outro lado, estive a pensar, e se é para o mundo acabar, é capaz de ser a melhor altura. O mundo acabava com Guterres na ONU, Portugal campeão da Europa de futebol e vencedor do festival Eurovisão da canção. O mundo acabava, mas nós saíamos por cima. Só faltava o Centeno ir para presidente do Eurogrupo e acabaríamos ao nível dos Descobrimentos.

Por acaso, o António Costa é que dava um bom Presidente do Estados Unidos. Se ele conseguir convencer o Mário Nogueira a desistir de uma greve dos professores, também consegue convencer o Kim Jong-Un a desistir dos mísseis.»

15.6.17

Mercados Variegados (8)



Pela Rota da Seda, em Bucara. Uzbequistão (2011).
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Beleza pura


video
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Alugar monumentos históricos?



Há trinta e tal anos, quando as vacas eram mais gordas, os animais já não falavam, mas as redes sociais ainda não o faziam, a empresa onde eu então trabalhava alugou a Galeria dos Espelhos de Versailles para um jantar onde estiveram largas centenas de pessoas, talvez mais de mil. A direcção de Versailles terá encaixado uma boa maquia (como era corrente fazê-lo), tudo aconteceu sem problemas, um jantar provoca muito menos desgaste do que milhares de visitantes, que invadem aquele espaço todos os dias, e não me parece que a História de França tenha saído maculada. (Citei este exemplo, mas podia citar muitos outros, nas mais variadas partes do mundo.)

Vem isto a propósito do rasgar de vestes de uns tantos pela «profanação» de monumentos históricos, alugados para actividades deste tipo ou semelhantes, da «indignidade» que isso significa. Financiar a cultura assim? Mas que horror! Penso, nomeadamente, num artigo que acabo de ler, no esquerda.net, e que me parece de um fundamentalismo absolutamente insuportável e mesmo ridículo.

P.S. - Não estão em causa todos os cuidados e todas as condições contratuais a serem consideradas. E para o peditório da questão de Tomar já dei o que tinha a dar e não é isso que está aqui em discussão. 
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Dica (570)



Divin Bayrou (Laurent Joffrin ) 

«L’ordre règne de plus en plus au PS. Plusieurs battus appellent à voter au second tour pour la France insoumise, même contre un socialiste, tel Hamon qui appelle à voter contre Valls. Mais ceux qui ont passé le premier tour, souvent, se réclament du soutien d’Emmanuel Macron, telle Myriam El Khomri à Paris. Cazeneuve soutient bravement les candidats rescapés mais Ségolène Royal confesse qu’elle a voté En Marche à tous les scrutins. Unité, camarades…» 
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Macron e o atavismo de «la Grandeur»



«Depois de ter sido eleito Presidente da República Francesa, Emmanuel Macron tentará catalisar o chauvinismo dos franceses restaurando o atavismo de la Grandeur, doutrina que conjuga o culto da independência económica, política e militar da França com a consolidação da missão da Nação e da cultura francesa no mundo. Para tal, instaurará um poder de tipo presidencialista, que converterá os seus assessores numa autêntica camarilha de poder oficioso (imitando o Partido Gaullista, movimento que cobria um amplo espectro do centro-esquerda à extrema direita, e onde os seus dirigentes foram correias de transmissão subordinadas à cúpula gaullista). Poderemos também assistir à reedição dos plebiscitos de De Gaulle, em forma de referendos, para serem aprovados temas como o adiamento da idade da reforma, a optimização dos recursos da Administração, a saída da França das estruturas militares da NATO e a entrada em vigor da Directiva de Retorno para imigrantes. E terá o apoio incondicional da direita francesa na hora de aplicar leis que roçarão a inconstitucionalidade.»

Continuar a ler AQUI.
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14.6.17

Mercados Variegados (7)



Mercado de Masaya. Nicarágua (2014). 
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Conselhos eficazes


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14.06.1944 – Chico Buarque da Holanda (*)



(*) Engano meu, baseado numa informação errada: Chico Buarque da Holanda não nasceu em 14.06, mas sim em 19.06.1944.


Francisco Buarque de Holanda nasceu em 14 de Junho de 1944. Faz hoje 73 anos – parece impossível, mas não é.

Vi-o pela primeira vez na velha representação de «Morte e Vida Severina», com poema de João Cabral de Melo Neto e música de Chico Buarque, em Lisboa, em Junho de 1966. Foi interpretada por um grupo de teatro universitário brasileiro e acompanhada por três músicos, um dos quais era precisamente o que foi apresentado como o compositor: o Chico Tinha apenas 22 anos, o que parece tão incrível como ter agora 73.




Parabéns. Mas, hoje, somos nós a mandar um cheirinho de alecrim para o seu infeliz país…

Mais algumas consagradas:








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Incentivo ao incentivo à leitura



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje / amanhã:

«Os textos que escrevo aqui na VISÃO são frequentemente incluídos em livros da disciplina de português do ensino secundário. (…)
Ora, a culpa não é minha. Nunca imaginei ser um TPC. Lamento profundamente que a vida se tenha desenrolado desta forma. É deplorável que milhares de estudantes tenham de me conhecer assim, entre uma estrofe d’Os Lusíadas e um excerto do Auto da Barca do Inferno - e que os seus professores os obriguem a dar-me a mesma atenção que eles dedicaram a Camões e Gil Vicente.»

Na íntegra AQUI.
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14.06.1940 - «Les loups sont entrés à Paris»



Em 14 de Junho de 1940, o exército alemão entrou em Paris, de onde já tinham fugido dois terços da população. Como primeiro acto da ocupação foi retirada a bandeira tricolor do Ministério da Marinha e colocada uma com a cruz gamada no cimo do Arco do Triunfo.




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O próximo debate sobre políticas tecnológicas



«A disputa crescente sobre a tecnologia é exemplificada em debates sobre a chamada neutralidade líquida e também nas disputas entre a Apple e o FBI sobre desbloquear os iPhone de terroristas. Isto não é surpreendente: à medida que a tecnologia se torna cada vez mais consequente – afectando tudo o que envolve a nossa segurança (armas nucleares e guerra cibernética) e os nossos empregos (perturbações no mercado de trabalho provocadas por software avançado e pela robótica) – o seu impacto tem sido bom, mau e potencialmente feio. (…)

Os pessimistas preocupam-se com a possibilidade de os benefícios da tecnologia para o aumento da produtividade estarem em declínio e com a possibilidade de dificilmente serem recuperáveis. Alegam que tecnologias como a internet e redes sociais não podem melhorar a produtividade na mesma dimensão que a electrificação ou a expansão do automóvel melhoraram.

Por outro lado, os optimistas acreditam que avanços como o big data, a nanotecnologia e a inteligência artificial são os arautos da nova era de melhorias impulsionadas pela tecnologia. (…)

Mas as mudanças tecnológicas provocaram também alterações consideráveis no trabalho, prejudicando muitos ao longo do caminho. No início do século XIX, os receios de tal deslocalização levaram os trabalhadores do têxtil no Yorkshire e Lancashire – os "Luddites" - a destruírem as novas máquinas como os teares automatizados e as máquinas de tecidos.

A deslocalização dos trabalhadores continua hoje, com a robótica a levar à deslocalização de alguns empregos na indústria das economias mais desenvolvidas. Muitos temem que a inteligência artificial traga mais deslocalização, embora a situação possa não vir a ser tão terrível como alguns esperam. Na década de 1960 e no início da década de 1970, muitos acreditavam que os computadores e a automatização levariam a um desemprego estrutural generalizado. Isso nunca aconteceu, porque surgiram novos tipos de empregos para compensar a deslocalização que ocorreu. (…)

Mas as desvantagens da tecnologia são bem mais profundas, com os inimigos das sociedades livres a serem capazes de comunicar, planear e conduzir actos destrutivos de forma mais fácil. O Estado Islâmico e a al-Qaeda recrutam online e dão orientações virtuais sobre como causar estragos. Frequentemente, tais grupos nem sequer têm de comunicar directamente com os indivíduos para "inspirá-los" a perpetrar um ataque terrorista. E, claro, a tecnologia nuclear dá não apenas electricidade livre de emissões, mas também armas destrutivas.

Todas estas ameaças e consequências exigem respostas políticas claras que olhem não apenas para o passado e para o presente mas também para o futuro. Com demasiada frequência, os governos ficam presos em disputas imediatas, como a do FBI e da Apple, e perdem de vista os riscos e os desafios futuros. Isso pode criar espaço para que algo realmente feio aconteça, como, digamos, um ataque cibernético que ponha abaixo uma rede eléctrica. Além das consequências imediatas, tal incidente pode incentivar os cidadãos a exigirem restrições extremamente rigorosas à tecnologia, arriscando a liberdade e a prosperidade na busca pela segurança.

O que é realmente necessário são instituições e políticas novas e melhoradas e cooperação entre a aplicação da lei e as empresas privadas, bem como os governos. Tais esforços não podem ser apenas uma reacção aos desenvolvimentos, mas têm também de os antecipar. Só aí podemos mitigar os riscos futuros, enquanto continuamos a aproveitar o potencial das novas tecnologias para melhorar a vida das pessoas.»

13.6.17

Mercados Variegados (7)



Flores e não só, Aix-en-Provence. França (2014).
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Dica (569)



As cidades também se desertificam (Mariana Mortágua) 

«A tempestade é perfeita. A Lei das Rendas de Assunção Cristas liberalizou os despejos, abrindo caminho. Os hotéis pululam, ocupando edifícios sem contemplações. O alojamento local deixou de ser o tradicional complemento de rendimento, o aluguer temporário ou parcial da habitação, e passou a ser uma forma de hotelaria encapotada. Os grandes promotores aproveitam-se da desregulação, compram prédios inteiros, expulsam quem só pode pagar 500euro mensais para alugar a quem pague esse preço por semana. Para além dos incentivos fiscais ou dos vistos gold, que promovem a venda de casas a não residentes, ajudando a especulação.
Antes de discutir o que fazer, é preciso saber se há vontade política. E nem Medina em Lisboa, nem Moreira no Porto parecem estar muito empenhados em impedir a desertificação, pela expulsão dos residentes, dos centros destas cidades. Pessoalmente, aflige-me esse destino: acolher turistas, mas expulsar quem quer morar, proporcionar conforto a quem tem altos rendimentos e dispensar cubículos sobrevalorizados aos outros.» 
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Alípio de Freitas pelo próprio



Introdução, pelo próprio, do livro Alípio de Freitas, Palavras de Amigos, Edições Pangeia, 2017.

«Alípio de Freitas, mais propriamente Alípio Cristiano de Freitas.
Nasci em Bragança, Trás-os-Montes, nos contrafortes da Serra de Montesinho, em 1929. O meu pai era funcionário público dos CTT, a minha mãe, mulher de grandes qualidades (e grandes ambições) era apenas dona de casa. Frequentei a escola primária na Escola da Estacada, sendo meu primeiro mestre o Professor Pires. Fui logo matriculado na 2.ª classe, pois, quando cheguei à escola oficial, já sabia ler, escrever, e fazer contas.

Ensinou-me a minha mãe, embora quanto a ler, acho, até hoje, “sempre soube fazer". A oficina de ferreiro do Alfredo, na rua do Loreto, era em frente à minha casa. Como trabalhador, andarilho e militante frequentei outras escolas que não a da Estacada e do Abade Buíça (Vinhais) e tive outros professores: as oficinas de ferreiro e mecânica do Alfredo e do “seu” Manuel Brasileiro, e ainda "as lições particulares" do tio Baptista e do Tita. Todos tiveram grande importância naquilo que foi a minha vida, cada um a seu modo e a todos recordo, ainda hoje, com uma saudade que dói.

Na oficina do Alfredo eu passava todo o meu tempo disponível, vestindo uma bata de ganga e calçando umas botas grossas. Lá, eu fazia tudo o que a prudência do Alfredo permitia: puxava o fole da fornalha, deitava carvão, arrumava as ferramentas e via o que ele fazia e "como" o fazia e, mais do que tudo, ficava atento às conversas que as pessoas tinham com ele, quando chegavam para consertar ferramentas, ferrar carros de bois ou arados.
Tudo gente pobre, que trabalhava de sol a sol e, mesmo assim, vivia mal. Também ia para a oficina mecânica do "seu" Manuel Brasileiro. Também de bata de ganga e botas cardadas, "ajudava-o" ou ficava a ouvi-lo falar do Brasil, sobretudo do Rio de Janeiro.

Quando ele começava a falar do Brasil comigo, parava o que estava a fazer, limpava as mãos num trapo, puxava um cigarro Kentucky e falava de ficar comovido. Perguntei por que tinha voltado. Respondeu-me apenas: "P'ra me casar". Puxou uma fumada forte e disse-me: "Quando puderes, vai p'ra lá, deixa esta miséria, aqui. Faz como o teu tio Guilherme, que é rico, feliz, até já é doutor. nem que fosse p'ra morrer, eu queria voltar lá."

O tio Baptista era uma pessoa singular. Sei que, na sua juventude, ele e o meu avô paterno foram muito amigos. Aliás, foram-no sempre. "Menino da Roda" foi acolhido por um casal de camponeses remediados e sem filhos, que dele cuidaram e até lhe garantiram uma boa educação. Quando os seus padrinhos fecharam os olhos, o tio Baptista comprou uma carta de chamada para o Brasil, embarcou no rio Tuela, desceu o Douro e desembarcou em Santos, no Brasil.

Do patrício que lhe vendera a carta de chamada e lhe garantira emprego, nem sombras. Arranjou trabalho lá mesmo, começou a conhecer gente do porto de estiva e a interessar-se pelos seus problemas e, não muito tempo depois, já estava participando de movimentos operários.
Viveu as greves. Veio a repressão e, para não ser preso, tornou-se embarcadiço. Foi o tempo de conhecer o mundo. Até que um dia, em plena guerra civil espanhola, desembarcou em Espanha e juntou-se às forças republicanas.

E em Pyongyang, Kim Jong-un roído de inveja!




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Adeus, Alípio de Freitas



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Dez anos depois, o risco é menor?



«Entre março e agosto de 2007 começaram a surgir notícias estranhas no mundo financeiro. Alguns fundos de investimento foram liquidados pelos bancos que os tinham criado, ainda poucos. Mais preocupante, as exageradas variações de preços de algumas acções sugeriam algo estranho. Uns tempos depois, mas só uns tempos depois, um director financeiro de um grande banco admitiu em público que tinha notado que a probabilidade estatística de ocorrerem oscilações da mesma dimensão, face ao que se conhecia do passado recente, era menor do que a de alguém ganhar 42 vezes seguidas a lotaria britânica, o que, é de reconhecer, seria bom de mais para ser verdade. (…) A partir do verão e do outono de 2007, no entanto, já não era possível ignorar os sinais: aumentou o número de hipotecas em incumprimento, as bolsas entraram em pânico, bancos faliram, começaram os resgates de grandes empresas, como a maior seguradora mundial, veio logo depois a crise das dívidas soberanas, e tivemos uma década de austeridade. (…)

Dez anos depois, o inventário do que foi corrigido é confrangedor. Alguns Estados endividaram-se para nacionalizar as perdas bancárias, o que serviu de pretexto para medidas de austeridade que continuaram a encaminhar para o sistema financeiro uma parte do produto nacional (…). Na UE foi aprovado um Tratado Orçamental que define regras de compressão económica por vinte anos. No Reino Unido, em Itália, Espanha, França, Holanda, Áustria e outros países, os sistemas partidários foram abalados por aventureiros, pela corrupção, pela descrença ou mesmo pelo desprezo das populações. E nada indica que isto fique por aqui. Na Hungria e noutros países, a transformação vertiginosa de forças políticas tradicionais deu o poder a uma extrema-direita de botas cardadas.

Dirá o optimista que houve outras mudanças, estas para melhor, e lembrar-se-á certamente da inundação de liquidez criada por Mario Draghi na zona euro, que salvou das aflições das taxas de juro as economias mais atacadas. Mas pode-se também notar que, com este remédio, a valorização dos activos financeiros se acentuou, ou seja, ganharam os que já tinham beneficiado da bonança anterior, e se formam novas bolhas especulativas.

Temos portanto alguns governos nacionais mais frágeis mas mais autoritários, economias enfraquecidas, de volta à girândola financeira, e instituições democráticas mais submetidas ao interesse imediato de poderes assimétricos. Dez anos depois, o que agora não se pode dizer é que desta vez ninguém notou os sinais, pois eles são demasiado evidentes – chegamos ao ponto em que os que festejam Macron já só esperam salvar a Europa com a facilitação dos despedimentos, a promessa mais solene do jovem césar.»

Há três anos era assim


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