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19.3.17

O contágio do populismo não acabou



«O populismo perdeu nas legislativas holandesas, como já antes tinha perdido nas presidenciais austríacas, contrariando uma grande parte dos prognósticos feitos até às vésperas dos dois sufrágios. Mas nem por isso a ameaça desapareceu nem desaparecerá, mesmo que Le Pen seja derrotada em França e a extrema-direita permaneça com um estatuto minoritário na Alemanha. Se a grande mobilização do eleitorado holandês foi decisiva para impedir Wilders de conquistar o primeiro lugar nas urnas, é também um facto que o discurso populista e xenófobo contagiou a mensagem do vencedor das eleições, o primeiro-ministro Mark Rutte, e dos partidos de direita e do centro que deverão constituir a base da futura coligação governativa. (…)

Em geral, a Europa mostra-se hoje muito menos tolerante à recepção dos imigrantes e receia pela segurança das suas fronteiras e das suas sociedades. O medo do terrorismo tende a confundir-se com o medo do outro – do diferente, do muçulmano – e ultrapassa a racionalidade e os factos objectivos, como é possível constatar na Holanda, um país que ficou conhecido pela sua abertura em matéria de costumes e onde vigora um ambiente raro de prosperidade económica e paz social. Talvez por isso mesmo, os holandeses temem que, no cenário de um mundo em convulsão, a sua bolha de progresso e segurança possa ser rompida pelas ameaças externas (percepcionadas também como internas).

Entretanto, a fragmentação da paisagem política holandesa que emergiu das últimas eleições reflecte outra tendência europeia em curso – e que parece prestes a explodir em França, onde a alternativa mais plausível a Le Pen, Emmanuel Macron, questiona as fronteiras entre a esquerda e a direita tradicionais (que ficariam ambas excluídas, pela primeira vez, da segunda volta das presidenciais, um verdadeiro abalo sísmico na história moderna do país). (…)

De qualquer modo, a derrota de Wilders ou Le Pen não elimina magicamente as raízes do contágio populista introduzido pelo Brexit e por Trump através da Europa e do mundo.»

Vicente Jorge Silva

1 comments:

JOSÉ LUIZ FERREIRA disse...

«De qualquer modo, a derrota de Wilders ou Le Pen não elimina magicamente as raízes do contágio populista introduzido pelo Brexit e por Trump através da Europa e do mundo.»

É claro que não as elimina. A única coisa que as eliminaria seria uma alternativa que não fosse de extrema-direita ao terror neoliberal que avassala o Mundo. As esquerdas que pensem nisto, porque, se não forem elas a construir uma alternativa verdadeira, sobrará a falsa.