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25.3.17

Um país, uma imagem (10)



Chile, 2010. Atacama, Lagoas Altiplânicas (a mais de 4.000 metros de altitude), Reserva Nacional de Flamingos.
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Dica (513)



Fighting for Life at 60. (Philippe Legrain) 

«The first step is to recognize how grave the populist threat really is. Liberal internationalists cannot afford to be complacent. Most thought it inconceivable that the British would vote to leave the EU, and yet they did. Donald Trump’s presidential candidacy in the United States was largely dismissed, until he won.» 
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As tripas da Europa



Pedro Santos Guerreiro no Expresso de 25.03.2017:



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Em Roma já não sobra nada


«Será então que o ministro holandês se limitou a exagerar os seus preconceitos, em contraste com a frieza equilibrante dos burocratas europeus, nada dados a exageros? A experiência diz que não. Afinal, tivemos a Grécia (vendam as ilhas, dizia um ministro alemão). Afinal, temos Guenther Oettinger, o comissário europeu promovido para dirigir o Orçamento e que exigia que os países endividados ficassem com a bandeira a meia haste (além de outras aleivosias racistas). Afinal, temos Juncker, que afirma que a França deve ser isenta das obrigações dos Tratados por ser a França. Se portanto nos perguntamos se Dijsselbloem é simplesmente uma anedota que se pode descartar com o abanar da mão, a prudência pede que se olhe para a floresta e não só para a árvore: o homem foi simplesmente a voz do governo europeu. (…)

Mais, acrescentava o ex-Presidente, isto não vai ser corrigido: “o pior é que, de facto, ninguém parece acreditar que Bruxelas (ou Berlim) tenha qualquer iniciativa nos próximos meses para responder à crise da eurozona, para alterar a ortodoxia financeira dos credores ou para criar as condições institucionais e orçamentais que tornem possíveis programas de reforma nas economias mais frágeis”. O teste está a ser feito na Cimeira que decorre este fim de semana em Roma: haverá palavras de circunstância sobre o atentado de Londres e sobre os 60 anos da fundação, enquanto os cinco cenários de Juncker serão misericordiosamente enterrados e não haverá nada sobre como deve a União superar a desunião e o desprezo pela vida dos desempregados, ou dos trabalhadores, ou dos jovens. Afinal, o dijsselbloismo tem triunfado sem oposição nas cimeiras europeias».

Francisco Louçã
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Trump não é um epifenómeno



José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«Trump não é um epifenómeno. Tudo é interessante no “momento” Trump. Quase tudo é perigoso em Trump. Nada vai ficar igual com ele e nada vai ficar igual depois dele. Quase tudo muda com ele. Trump é o mais moderno político hoje em funções numa democracia, mas a modernidade que ele ajuda a revelar é assustadora. É a cor do futuro no presente e, para quem preza a democracia, é a mais suja das cores. Mas está lá, mas está cá. (…)

A questão da verdade, cuja “morte” uma capa da Time anunciava interrogativamente, é também relevante. Alguns media americanos têm falado da “mentira patológica” de Trump, mas a classificação parece-me errada, ao atribuir a uma disfunção aquilo que nele é uma função. (…)

À sua volta, baseado no princípio de que os semelhantes se atraem uns aos outros, está uma falange de “novos ignorantes”, mas não só. O “mas não só” são aqueles que percebem muito bem a enorme oportunidade que podem ter com este homem e com a sua gente, como é o caso de Steve Bannon. Estes são os mais perigosos, têm um plano e têm sabido cumpri-lo. Aquilo que nós consideramos falhas e incompetências são o elemento gerador do caos de que eles necessitam. São os verdadeiros revolucionários que pretendem subverter o sistema democrático, instituir uma série de “novas ordens” no plano cultural, rácico, social e político. Vieram da obscuridade e das margens para o centro do mundo, onde nunca pensaram estar, precisam do conflito como pão para a boca e são homens de guerra. Não são fascistas, como às vezes levianamente são intitulados, mas apresentam um impulso de subversão, uma determinação, uma resiliência sem falhas, que é comum a muitos revolucionários modernos, como os fascistas. (…)

Trump não é um democrata, mas um autocrata numa democracia. Como Erdogan e Putin, com quem tem semelhanças na mecânica do uso do poder. Ia a escrever que era um autocrata “numa (ainda) democracia”, mas essa classificação seria injusta para a efectiva resistência quer institucional, quer opinativa, quer social, quer política que tem encontrado e que começa a travá-lo com eficácia. Não vai ser fácil travá-lo de todo nos seus excessos autocráticos, até porque homens como Trump geram uma enorme polarização, um clima de guerra civil e garantem mobilizações de apoiantes muito duras e intransigentes, que até agora têm aceite tudo o que ele faz sem pestanejar. (…)

No entanto, todas estas atitudes e revelações contribuíram para o outro lado da polarização e ajudaram a criar uma linha de intransigência contra Trump, que tem impedido o partido e os políticos democratas de terem qualquer complacência com Trump. (…) Esta resistência total tem riscos, um dos quais é o cansaço que leva a desistir, mas tem ajudado a travar Trump. (…)

O estilo de Trump ajuda a recrutar e ascender gente que faz do bullying um modo de exercer o poder, e, como estão muitas vezes bastante isolados, usam e abusam do poder formal que lhes é dado. Em áreas como a polícia, as autoridades de emigração e outras, este processo é bastante perigoso.» 
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24.3.17

Um país, uma imagem (9)



Tailândia, 2012. Ayutthaya. 
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Trabalhar para além da idade da reforma?


«Vieira da Silva explicou que “se a pessoa quiser continuar a trabalhar depois de atingir a sua idade da reforma terá uma pensão bonificada. A sua pensão vai crescer acima do valor estatutário”.»


Isto é inadmissível, salvo melhor opinião, a não ser para quem teria pensões de miséria se não trabalhasse para além da idade da reforma.

Mas não é, de todo, sempre o caso: conheço muitas pessoas que, longe de serem «pobrezinhas», julgam não haver mais vida para além do trabalho que sempre fizeram, que encaram o último dia em que se levantam quase de madrugada como um drama e que não sabem, nem querem, começar uma nova fase da vida. Essas deviam ser «castigadas», e não recompensadas, por ocuparem postos de trabalho num país com a taxa de desemprego que ainda temos.
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Há 55 anos, o Dia do Estudante



Há cinco anos, comemorámos o 50º aniversário do Dia do Estudante, hoje seremos muitos a voltarmos à cantina velha para festejarmos o 55º. Recordo um texto importante, aprovado por mais de 400 pessoas, em 24.03.2012.

O holandês errante



«Finalmente, Dijsselbloem é oficialmente considerado uma besta. Demorou, mas lá chegámos. (…)

Como todos já devem ter conhecimento, excepto os que felizmente estavam bêbedos, Dijsselbloem disse que os países do Sul gastam tudo em álcool e mulheres. O mais incrível é dizer isto como se fosse mau. Quem me dera ter gasto tanto dinheiro em boémia como gastei em bancos. A verdade é que enquanto a nossa taxa de alcoolemia subia, o partido de Jeroen Dijsselbloem caía dos 25% para os 6%.

Tenho a teoria que esta generalização é conversa de quem passou muito tempo com o Durão Barroso. Por outro lado, desconfio que isso, vinho e mulheres, foi o que andou a fazer a troika quando cá esteve por isso não deu por nada no nosso sistema financeiro. (…)

Eu sou dos que gastam dinheiro em álcool, mas confesso que a minha dúvida, quando vou para borga, é sempre a mesma: "bebo mais um Famous Grouse ou poupo para pagar uma tese de mestrado a um indivíduo que perceba disso e aldrabo o meu currículo?" Já em termos de gastos com o sexo feminino, tenho de reconhecer que, por acaso, a única vez que gastei dinheiro numa mulher foi em Amesterdão. Teve de ser. Era o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa.

Resumindo, percebo que um indivíduo com o ar do Dijsselbloem ache que para ter mulheres é preciso pagar. Felizmente, não tenho esse problema. O meu problema tem sido o dinheiro que tenho gasto com homens, dado que não há banqueiros do sexo feminino. Em Portugal, temos um vício terrível em gastar dinheiro com malta do sexo masculino, basta dizer que o Mexia ganhou 5,5 mil euros por dia na EDP em 2016. Ou seja, acabo a gastar uma fortuna com um homem e depois não posso desfrutar do sexo feminino, na sua plenitude, porque tenho de apagar a luz porque está caríssima.

No fundo, isto não passa de inveja. Temos boas praias, mulheres bonitas, bom vinho, boa comida e eles têm tulipas. E só não temos mais para gastar nos nossos belos vícios porque muitas das nossas empresas fogem para os "paraísos fiscais" na Holanda. Dá vontade de beber para esquecer.»

23.3.17

Um país, uma imagem (8)



China, 2004. Xian, Exército de terracota.
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Dica (512)



The Geopolitics Of Chaos. (Javier López) 

«The new world disorder is under way while speculation about what President Trump would do has given way to a spate of executive orders. The cocktail of reactionary withdrawal from previous commitments (Trump + Brexit) is imposing a change of guard on international relationships, leaving the northern hemisphere turned upside down.» 
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Então mas o que é isto?



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:




Na íntegra AQUI.
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O botas é que sabia!


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Dijsselbloem, o anjo inútil



«Na história da política há muitos idiotas úteis. Na política europeia há um anjo inútil: Jeroen Dijsselbloem. A sua única utilidade, até hoje, foi ser uma versão sofrível de bobo da corte de Wolfgang Schäuble.

A sua relevância no purgatório europeu deriva de fazer parte da família socialista e de ser um afinador de pianos da ideologia da austeridade. Seria impossível uma síntese destas se não existisse Dijsselbloem. Há quem acredite que ele nasceu na mesma fábrica onde foi construído Frankenstein, mas claramente houve um defeito de fabrico. Frankenstein é superior a todos os níveis. Mas é com personagens como Dijsselbloem que se regou o nacionalismo extremista e o populismo que floresce na Europa. O seu discurso, às vezes, parece o de alguém saído de "Voando sobre um Ninho de Cucos". Mas não é verdade: o seu discurso sempre foi minuciosamente estudado. O ainda ministro holandês continua a achar que é a voz dos crentes contra os pecadores. E estes, claro, dissipam tudo em "copos e mulheres". Ou em carros e tremoços. Dijsselbloem, claro, não dissipa: só bebe descafeinados e só olha para bonecas insufláveis.

Custa ter de se dar atenção a esta personagem saído de um filme de série Z. Dijsselbloem, como não singrou na carreira de comediante, foi acolhido como político. Chegou a ministro. E, pior, é chefe do Eurogrupo. O que revela bem o que é esta União Europeia a que os países do Sul têm de prestar contas sucessivas por causa da sua "dissipação moral". Quando Dijsselbloem é a voz da UE o que é que se pode esperar dela? Nada de relevante: ele é o símbolo perfeito do mundo dos vícios privados e das públicas virtudes a que os países do Norte devotaram a sua existência. Dijsselbloem é um Pierrot perigoso: diz, como político pretensamente do "establishment", aquilo que os populistas proclamam nas ruas. O que o torna um inimigo público da Europa como espaço solidário e uno. É como um falso Rei Mago: o seu aroma não é de incenso nem mirra. Cheira a ácido sulfúrico. Deveria ser colocado numa ETAR.»

Fernando Sobral

22.3.17

Um país, uma imagem (7)



Uzbequistão, 2011. Samarcanda.
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Dica (511)



A Tax on Robots? (Yanis Varoufakis)
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Valha-nos o sentido de humor!


(foto@Bruno Gonçalves)

«Se vão substituir o Dijsselbloem, por favor respeitem os povos do Sul. O nome do próximo presidente do euro-grupo deverá ser um nome paritário, ou seja, deve respeitar saudável o equilíbrio entre consoantes e vogais. Voltar a ter um nome com 67% de consoantes deverá estar fora de questão.» (Luís Aguiar-Conraria no Facebook) 
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Dijsselbloem no bordel



Pedro Santos Guerreiro no Expresso diário de 21.03.2017:

...(...)



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21.3.17

Um país, uma imagem (6)



Argentina, 2003. Glaciar Perito Moreno.
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Dica (510)




«The debate over migration is plagued by a variety of inaccuracies and misunderstandings -- on both the right and the left. Here is what the research really shows.»
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Estamos nós dependentes destas abéculas!

Radicalizar a democracia, mobilizar os afectos



Uma interessante entrevista, feita por António Guerreiro a Chantal Mouffe que proferirá amanhã uma conferência em Lisboa. Alguns excertos:

«Há muitas maneiras de compreender a política. E uma delas, a concepção dissociativa, implica a dimensão de antagonismo, do conflito em que não pode haver duas resoluções racionais. Esta é a concepção em que me inscrevo, por isso parto da ideia de que é necessário reconhecer que há na sociedade a dimensão do político, que é justamente essa dimensão de antagonismo, própria de uma sociedade que está sempre dividida. Coloca-se então a questão de saber se a democracia pluralista é possível, se o resultado não é a guerra civil, pois os teóricos que se inscrevem nesta concepção concluem facilmente que para existir uma ordem é necessário que seja uma ordem autoritária, imposta de cima. Ora, eu afirmo que é possível pensar uma ordem democrática, mesmo partindo de uma concepção do político como antagonismo, na condição de ver que esse antagonismo pode dar-se de maneiras diferentes. (…) Eu digo que “nós” e “eles” não vão poder pôr-se de acordo, distanciando-me assim da concepção deliberativa da democracia, em que a ideia é a de que se discuta para chegar ao acordo, ao consenso. Ora, embora defendendo a ideia de que na política há muitas coisas relativamente às quais não é possível chegar a acordo, é ainda assim possível o confronto com os adversários (não inimigos) de maneira a criar instituições que permitem viver em conjunto, sem que seja necessário existir o consenso. É a isso que chamo democracia agonística. (…)

“O político” é algo da ordem da metapolítica, é a afirmação, no plano teórico, de que há antagonismos, de que a sociedade está dividida. Já “a política” é um conjunto de práticas, de “jogos de linguagem”, de decisões sobre o modo de organizar a coexistência humana, sob as condições dos conflitos nunca resolvidos. A concepção dissociativa da democracia, da qual parto, é uma tese sobre a natureza do político. Mas as questões que se colocam a seguir são estas: como se vai organizar a sociedade? Que tipo de instituições é que nos vão permitir viver em conjunto? E aqui já estamos no domínio da política.

A pós-política é uma das dimensões da pós-democracia. A minha tese é a de que estamos em sociedades que se dizem democráticas, mas as instituições democráticas giram no vazio, na medida em que uma dimensão importante da democracia (não esqueçamos a etimologia da palavra: demos + kratos, soberania do povo) está hoje completamente eliminada. É verdade que há eleições, mas elas consistem, na maior parte dos casos, em escolher entre quem oferece praticamente a mesma política, o centro-direita e o centro-esquerda. É a este consenso ao centro que chamo pós-política, que é uma das razões da pós-democracia. Os cidadãos já não têm a possibilidade de intervir, de fazer escolhas. (…)

Para mim, os movimentos populistas são formas de resistência contra a pós-democracia, uma busca por alternativas ao sistema actual. Mas há diferentes formas de populismo, ele não tem um conteúdo específico, não é uma ideologia, não é um regime. É uma forma de estabelecer a fronteira entre “nós” e “eles”. Julgo que na origem dos movimentos populistas há uma resistência à pós-democracia, uma manifestação pelo poder de intervir. Distingo entre um populismo de esquerda e um populismo de direita. O problema deste é o modo como ele constrói a oposição entre “nós” e “eles”, dizendo que o “eles” são os imigrantes, e é por causa deles que “nós” estamos em más condições. O modelo típico deste populismo é Marine Le Pen. (…)

A palavra “populismo” nem sempre teve este sentido negativo. Por exemplo, nos Estados Unidos, há um século, o partido populista era um partido progressista, mas hoje os partidos do centro, os partidos do Governo, defendem a sua posição denegrindo e acusando tudo o que se opõe a eles. Creio que há necessariamente uma dimensão populista da democracia. Não é uma perversão da democracia, como se diz muitas vezes, já que ela não existe sem a constituição de um demos, um povo. É preciso re-significar de maneira positiva a palavra “populismo”, lutar contra as democracias sem povo.

Há uma dimensão populista no fascismo, sem dúvida. Hitler e Mussolini eram populistas. E por causa da experiência dos fascismos, as forças de esquerda têm uma atitude de distância em relação a tudo o que tem que ver com a dimensão afectiva da política, a mobilização das paixões, a cristalização dos afectos, tudo aquilo que, a meu ver, é absolutamente central para a política. (…) O populismo deve significar a mobilização dos afectos do povo no sentido de uma radicalização da democracia. Defendo um reformismo radical, que passa por uma crítica imanente das nossas sociedades.» 
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Até nos mapas encolhemos…




«Toda a América do Norte e também a Europa deixam de sobressair no planisfério, como acontecia até agora, para se destacarem o continente africano e o hemisfério sul. Até parece que estes ficaram maiores, mas é apenas uma mudança de paradigma no sistema de ensino, para uma representação plana da Terra mais aproximada da real dimensão dos países e continentes - muito diferente da que está mais enraizada, há quase 500 anos, no mundo ocidental. (…)

A Rússia ocupa o equivalente a metade do território de África e não o dobro, por exemplo, ao contrário do que sugere o mapa mundo mais popular.»

Mas a questão não é nova, nem é simples:


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20.3.17

Um país, uma imagem (5)



Butão 2010, Palácio Punakha Dzong.
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Dica (509)

A Náusea



Ontem, várias pessoas pediram, no Facebook, que divulgasse um excelente texto de Valdemar Cruz, publicado no Expresso de 18.03.2017, sobre a actividade da rede bombista de extrema-direita em 1975-1976. Deu algum trabalho de corte e costura, mas aqui fica.













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Ei-la por aí



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O Dia do Pai cujos filhos emigraram



Nicolau Santos no Expresso curto de hoje:

«Ontem passou mais um Dia do Pai. O nome devia mudar para Dia do Pai do Emigrante. É que há poucas famílias da chamada classe média que não tenham pelo menos um filho emigrado, quando não dois ou mesmo três. No meu círculo de amigos, um dos casais tem os dois filhos fora, ele em Sidney, ela em Londres; outro, tem a única filha em Edimburgo; outro ainda tem uma filha em Londres, outra na Escócia e só uma vive cá; outro tem duas filhas em Londres e outra cá; eu tenho um filho em Sillicon Valley e a filha cá.

É bom para eles? Fora de causa. É muito bom, do ponto de vista profissional e financeiro, além da rede de contactos que entretanto constroem e que lhes será muito útil pela vida fora. Além disso, tornam-se cidadãos do mundo e ficam aptos a trabalhar em qualquer ponto do globo. A contrapartida é que não voltam – ou muito poucos voltarão. Por falta de oportunidades profissionais interessantes mas também pela baixa remuneração que lhes é proposta e que não tem qualquer comparação com o que lhes é oferecido no estrangeiro, com os estudos que fizeram e com o trabalho que desenvolvem. Mais que não fosse – e há outras razões que dificultam o regresso, como relacionamentos afectivos com pessoas doutros países entretanto estabelecidos – aqueles motivos são mais que suficientes para não pensarem voltar a Portugal, pelo menos tão cedo. (…)

Mais de 70% desses jovens portugueses qualificados digam que querem regressar, 66,8% dizem que não pensam fazê-lo antes de três anos e quase 40% acrescentam que não pensarão em tal coisa antes de cinco anos. É, como se compreende, uma resposta de alguém que precisa de tempo para decidir. Mas que também precisa de estímulos para regressar: projetos interessantes e inovadores e remuneração compatível. E isso não se vê no horizonte. Pelo contrário. O processo de ajustamento devastou a economia portuguesa. Antes da crise, Portugal tinha 35 empresas entre as 100 maiores da Península Ibérica. Agora tem apenas seis. Quem pode agora oferecer salários competitivos e projectos desafiadores para fazer regressar a maioria dos jovens talentos que emigrou? Quase nenhuma empresa, como é óbvio. O país perdeu a maioria da geração mais bem preparada que alguma vez teve.» 
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19.3.17

Um país, uma imagem (4)



Noruega 2011, Bergen.
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Dica (508)



Trump’s “Hard Power” Budget. (Christian Parenti) 

«Donald Trump’s budget would make America even more authoritarian and militaristic than it already is.»
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Pensar de pernas para o ar



Pensar de pernas para o ar
é uma grande maneira de pensar
com toda a gente a pensar como toda a gente
ninguém pensava nada diferente

Que bom é pensar em outras coisas
e olhar para as coisas noutra posição
as coisas sérias que cómicas que são
com o céu para baixo e para cima o chão

Manuel António Pina, in O país das pessoas de pernas para o ar

Invejas póstumas


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O contágio do populismo não acabou



«O populismo perdeu nas legislativas holandesas, como já antes tinha perdido nas presidenciais austríacas, contrariando uma grande parte dos prognósticos feitos até às vésperas dos dois sufrágios. Mas nem por isso a ameaça desapareceu nem desaparecerá, mesmo que Le Pen seja derrotada em França e a extrema-direita permaneça com um estatuto minoritário na Alemanha. Se a grande mobilização do eleitorado holandês foi decisiva para impedir Wilders de conquistar o primeiro lugar nas urnas, é também um facto que o discurso populista e xenófobo contagiou a mensagem do vencedor das eleições, o primeiro-ministro Mark Rutte, e dos partidos de direita e do centro que deverão constituir a base da futura coligação governativa. (…)

Em geral, a Europa mostra-se hoje muito menos tolerante à recepção dos imigrantes e receia pela segurança das suas fronteiras e das suas sociedades. O medo do terrorismo tende a confundir-se com o medo do outro – do diferente, do muçulmano – e ultrapassa a racionalidade e os factos objectivos, como é possível constatar na Holanda, um país que ficou conhecido pela sua abertura em matéria de costumes e onde vigora um ambiente raro de prosperidade económica e paz social. Talvez por isso mesmo, os holandeses temem que, no cenário de um mundo em convulsão, a sua bolha de progresso e segurança possa ser rompida pelas ameaças externas (percepcionadas também como internas).

Entretanto, a fragmentação da paisagem política holandesa que emergiu das últimas eleições reflecte outra tendência europeia em curso – e que parece prestes a explodir em França, onde a alternativa mais plausível a Le Pen, Emmanuel Macron, questiona as fronteiras entre a esquerda e a direita tradicionais (que ficariam ambas excluídas, pela primeira vez, da segunda volta das presidenciais, um verdadeiro abalo sísmico na história moderna do país). (…)

De qualquer modo, a derrota de Wilders ou Le Pen não elimina magicamente as raízes do contágio populista introduzido pelo Brexit e por Trump através da Europa e do mundo.»

Vicente Jorge Silva