«Uma das primeiras medidas das primeiras frenéticas semanas de Trump na Casa Branca foi mandar apagar das publicações das agências públicas dos EUA toda e qualquer referência às alterações climáticas.
Agora, a mira censória apontou para às universidades. A Universidade de Duke, que recebeu 863 milhões de dólaresno último ano, tem os fundos federais em risco. A Johns Hopkins anunciou o despedimento de mais de dois mil funcionários, depois de perder 800 milhões. Uns cortes serão técnicos, outros resultaram de represália política. É o caso da Universidade de Columbia, que perdeu 400 milhões por não ter proibido manifestações de solidariedade para com Gaza.
Foi à boleia de uma nadadora transgénero que Trump congelou 175 milhões destinados à Universidade da Pensilvânia. Um corte com impacto em investigação em saúde pública, ciência fundamental e medicina de ponta.
A administração federal limitou drasticamente as “despesas gerais”, que sustentam edifícios, laboratórios, energia e pessoal técnico, sem os quais a investigação científica é impossível. A Universidade do Estado do Michigan já anunciou que suspendeu um centro de investigação médica por falta de fundos.
A asfixia vai continuar até que todos se curvem ao poder de Trump. Columbia foi a primeira, anunciando que vai alterar o seu código de conduta.
Na sua campanha para o Senado, há quatro anos, J.D. Vance pôs todas as cartas na mesa: “As universidades são o inimigo”. E comparou-as à Matrix: “Muito do que impulsiona a verdade e o conhecimento, tal como o entendemos neste país, é determinado, apoiado e reforçado pelas universidades. Porque consentiram os conservadores esta tirania intelectual?”
Ninguém levou a sério, porque as universidades são o motor da inovação que torna a América líder nas áreas de ponta da economia do conhecimento. Como lembra Fareed Zakaria, os EUA representam cerca de 4% da população mundial e 25% do seu produto interno bruto, mas têm, conforme as classificações, entre 64% e 72% das 25 melhores universidades do mundo.
O GUIÃO HÚNGARO
Como Anne Applebaum explicou em “Crepúsculo da Democracia”, os novos autoritários não precisam de abolir as instituições, basta controlarem-nas. Orbán transformou universidades públicas húngaras em “fundações privadas” geridas por aliados do regime. Foi a fachada de autonomia que garantiu a obediência.
Nos EUA, o caminho será diferente, mas o objetivo é o mesmo. E o ataque à liberdade académica usa o mantra que tantos repetiram em nome da liberdade: a ideologia de género, o politicamente correto, o “cancelamento” de tradições e o antissemitismo representado por qualquer apoio à causa palestiniana.
Quando a “elite” liberal resiste ou contraria a política do governo, já sabe que contará com retaliações de Trump, que promete vingar os anos em que os conservadores se sentiram oprimidos pelo discurso das elites: se as universidades respondem em tribunal, o Departamento de Justiça e Segurança Interna ordena a punição do respetivo escritório de advogados.
Nem o poder judicial escapa, com Trump a exigir o afastamento do juiz que tentou bloquear centenas de deportações ilegais. Faz sentido: o sistema que os homens do dinheiro combatem é o que nos tem defendido do seu poder. Como explicou a juíza Marjorie Rendell, a justiça não tem o poder da espada ou da bolsa, depende apenas do respeito. Sem ele, nenhum Estado de Direito resiste.
Tribunais, imprensa e universidades. Trump cumpre à risca o guião seguido na Hungria e, antes dela, na Polónia.
O argumento é sempre o mesmo: não pode ser um poder não eleito a limitar a vontade popular. Para o braço de ferro com a Justiça, escolheu as deportações. Primeiro, divide-se o mundo entre o “povo puro” e uma “casta corrupta”, legitimando o ataque às instituições que contrariem a expansão do poder da verdadeira casta. Depois, transformam-se os adversários políticos em inimigos existenciais. Por fim, criam-se realidades alternativas, alimentadas por redes sociais e canais de propaganda, onde factos deixam de importar e tudo pode ser justificado.
CENSURAR O PENSAMENTO E A MEMÓRIA
Seguindo o guião de todos os movimentos autoritários, reescreve-se a realidade. Palavras como “igualdade”, “diversidade”, “racismo”, “discurso de ódio” e, pasme-se, “mulher” são apagadas de sites governamentais. Trabalhos académicos são censurados por incluírem termos “proibidos”. Currículos escolares são vetados. Os académicos tentam contornar o uso de certos temas para não verem o financiamento dos seus projetos automaticamente bloqueado. As palavras moldam a realidade e, na América “grande outra vez”, as mulheres e as minorias devem saber o seu lugar.
Isto, para alem de um movimento de censura de livros, liderados por grupos organizados, que recebem dinheiro da direita política. Só no ano letivo de 2023-2024 foram banidos 10 mil livros das escolas e bibliotecas. Como explicou o professor Peter Carlson, da Green Dot Public Schools, grande parte “aborda diretamente a identidade e não se conforma com a identidade hegemónica”. Mas a censura dos olhos das crianças vai até livros como “Maus” e “Diário de Anne Frank”, que nos habituámos a ter como fundamentais na nossa formação cívica. Não se trata apenas de inviabilizar grupos, mas de apagar parte da história.
Nos últimos anos, fui fazendo advertências quanto à esquerda que se deixa entrincheirar em identidades fechadas e incompreensíveis, desprezando a opressão e a desigualdade económica e social. Considerei e considero que a deriva identitária da esquerda resulta da sua própria desistência, uma cedência à lógica individualista do neoliberalismo, onde a biografia pessoal substitui o programa político, a culpa substitui a persuasão, as minorias cada vez mais estreitas substituem a maioria social trabalhadora.
Mas nunca me enganei no alvo, que, na cedência à agressividade conservadora, permitiu que qualquer sentido de decência e justiça levasse com o ferrete “woke”. Sempre soube que a guerra cultural reacionária fingia lutar pela liberdade de expressão sem nunca ter querido menos do que apagar a emergência de novas vozes. Dividir poder provoca sempre ressentimento. E a doutrinação misógina de rapazes adolescentes, alimentada por uma indústria conservadora de youtubers e podcasters, criou o exército de apoio ao retrocesso civilizacional a que assistimos. E esse retrocesso nunca é responsabilidade dos que se libertam e exigem o seu quinhão de poder e visibilidade.
A VITIMIZAÇÃO DO PODER
Nas duas últimas décadas, ouvimos humoristas milionários queixarem-se, em programas da Netflix, da censura que os oprimia. Sentiam-se cancelados por haver quem, no uso da sua liberdade, se indignava, com ou sem razão, por eles dizerem o que sempre se disse. Não sabiam que a resistência à censura tem menos glamour e proveito. Se querem saber o que é, aqui a têm. Não costuma vir de minorias perseguidas, mas de quem tem a bolsa e a espada para a impor. É por ela ser brutal que o ruído do protesto é menor.
A resistência a quem realmente tem o poder de realmente censurar paga-se realmente cara. Por isso já não ouvimos os que se agitavam contra a “brigada do politicamente correto” e os que viam em qualquer boicote estudantil uma ameaça à sua liberdade. Já não têm de enfrentar milhares de puritanos indignados que apelam a boicotes nas redes sociais. Agora é o poder que nunca deixou de o ser a usar o aparelho do Estado para voltar a calar os que foram calados por milénios.
Agora é a sério e, por isso, calaram-se os queixumes com a “cultura de cancelamento”. É claro que estes idiotas úteis nunca apoiaram Trump. Até o detestam. Apenas foram justificando a ascensão da barbárie de quem nunca deixou de ter o poder sobre os excessos de quem nunca o teve. É por isso que são idiotas. Convencidos de que combatiam a elite, aliaram-se à elite que dispensa a democracia para perpetuar o poder que nunca quis largar. É por isso que lhe foram úteis.»